CARTA DE ÉVORA – “Pensamentos fragmentários”… – por Joaquim Palminha Silva

evora

 

 

            Salazar e uma certa “ideia” de Igreja nos anos 40 e 50 do século XX, foi um tempo de noite contínua! – Nunca percebi porquê, mas quase toda a gente há minha volta vestia cores traçadas pela tristeza… Uma espessa negridão crescia, flutuava na atmosfera…

            Estavam todos atordoados com a exterioridade ilusionista (e autoritária) do salazarismo… Tinha então um constante pesadelo: – Percorria aflito um longo e estreito corredor que, ao fundo, terminava por porta semi-aberta. Desta última escoava-se ténue luz que fazia da minha própria sombra um gigante esquelético… Entretanto eu corria, corria… Porém, no pesadelo era como se patinasse, pois nunca chegava à porta donde vinha a luz… Ainda hoje espero alcançar aquela porta ao fundo do corredor?

            Um dia, percebi tudo… Numa aula de “religião e moral”, apresentei como interpretação evangélica ao professor a ideia de um Jesus Cristo que fugia todas as tardes do Catecismo, para vir jogar ao pião e ao berlinde connosco no “recreio”… Levei uma estrondosa bofetada! – E foi a partir daí, assim o acredito, que me tornei cristão e anti-fascista!

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            A manhã de domingo à Salazar! – Explico…

            Ainda hoje sinto como quem vê, o contacto visual com uma janela de 1º andar do pátio, aberta de par em par. Havia um homem a essa janela, vestido de camisola interior de alças sobre a carne cabeluda e que escarrava a para a rua nos intervalos dos cigarros. Às vezes gritava para dentro de casa ordens num tom imperativo… Tudo isto enquadrado por uma parede branca engastada de rasgões de sujidade… De dentro da casa vinha o som mole, viscoso, de um fado radiofónico: «A nossa casa é um ninho/ Pobrezinho onde há carinho/ Alegria, pão e vinho…» … Homem, janela e fado deslizavam dentro de mim e afogavam-me num poço de angústia. – Para mim, esta cena cor de ferrugem, ficou sendo a “manhã de domingo à Salazar”, e a camioneta encardida da carreira para o fascismo de Lisboa!

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            Nunca circulou tanto dinheiro em Portugal, ébrio todos os dias de ganhar tanto com a pedincha em Bruxelas… Todavia, nunca se chocou maior dureza nem tão flagrante abando de norte a sul do País! A impressão que nos deixa esta terra e a gralha vaidosa e mal vestida que é a sua Democracia, é a duma Nação que exala mofo, crivada de ruínas, obras inacabadas e exageradas opulências urbanas que ninguém pediu, coexistindo com bairros sociais degradados e monturos de periferia… A impressão que se tem, por detrás do taipal alteroso dos governos e seus partidos e das chicanas das oposições, é a de um País que está permanentemente em obras, mas que teima em continuar incompleto nas suas cidades e vilas, nas suas ruas e casas…

            Acontecimento desastroso, o País parece ter nascido como acção prática do desleixo: – Prevê-se o pior! E o pior acontece todos os dias e já não alvoroça ninguém…

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            Cada dia que passa, quase esventrado de ideal, encharcado de discursos sociais de substituição que, depois, se acabam por adulterar minuciosamente, fico sem saber onde pôr os pés da alma, por assim dizer… E acabo por poisar no sonho, para ouvir tombar a poeira de palavras das almas-penadas, que se intrometem na angústia e tornam a vida uma fantasmagoria sem sentido…

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