Para já, lembro-me que vi o Manuel de Castro apenas uma vez, posso estar enganado mas recordo-me de o ter encontrado no Diário Ilustrado – éramos ambos colaboradores efectivos da sua página literária –, isto passa-se nos quatro ou cinco meses anteriores ao fecho definitivo do Ilustrado, que aconteceu no último dia de Março de 1963. Eu tinha os tais 19 anos, acabava de ter a minha estreia literária com Sangria, e o Manuel de Castro assinava, semanalmente, a rubrica “Hormonas para Sísifo”. Penso que nos encontrámos lá nesse dia para recebermos na tesouraria os parcos tostões… dos textos publicados. O Diário Ilustrado pagava mal e porcamente. E vivò velho!!! Já depois do meu regresso da guerra de África, já nos anos 70, mas ainda na nossa ditadura saloia, encontrei, ao fundo do ascensor da Glória, o Luiz Pacheco que, com algum alvoroço, disse-me: – Fernando, soube agora, no Bairro Alto, que o Manel de Castro acaba de morrer… Sabes onde está o livro dele?!… O Paralelo W… O Pacheco levou-me então a um pequeno armazém de livros usados, no extremo da rua da Glória, já quase na Praça da Alegria, onde, a preço da uva mijona, como diria o velho Aquilino Ribeiro, se encontrava um montinho do livro do Manuel de Castro – o tal Paralelo W. O homem vendia, creio que era a dez tostões, “duas coroas”, portanto, a um escudo o livro do Manuel de Castro. Não juro a cem por cento, mas acredito que tenha comprado vinte exemplares. Não me lembro se havia mais buques em armazém. Quanto ao António José Forte, nunca tivemos grande convívio de parte a parte: “ – ‘tá bom!?… e, da outra banda, o mesmo “’tá bom!?…” O Forte era, ao que sempre me pareceu, uma pessoa esquiva. Parecia um pouco ao estilo do suicida Fernando Madureira. Mas posso estar enganado. Quanto ao Ernesto Sampaio, conhecíamo-nos, mas não muito. O Sampaio era redactor do Diário de Lisboa, eu era colaborador do mesmo jornal, todavia, estou em querer que o E. S. não era dado a grandes convivências entre intelectuais… Nada disto invalida que reconheça no Sampaio uma das cabeças mais arrumadas e uma das inteligências mais certeiras do surrealismo dito português. Daqui se infere que conheça terrivelmente mais alguma da parte ensaística do Ernesto Sampaio do que o seu lado poético, que, aliás, não me parece que ele tenha estado muito empenhado em divulgar. No que concerne ao José Sebag, já conheço muito melhor a sua produção poética, embora não tenha noção de me ter cruzado com o José Sebag, excepto numa única situação que vou referir. Penso que ele morreu pouco depois da ocorrência que vou narrar. O Sebag era funcionário da RDP 1, estou certo que era jornalista, e aconteceu que, em 1981, aquando da publicação do meu livro de poemas Saudades de ser Índio, ele achou por bem entrevistar-me. Demo-nos por satisfeitos no interior desse programa. Ficámos amigos. Depois, como já aludi acima, o J. Sebag transformou-se em cinza. Pois nunca mais o vi!!!…, mas a sua poesia devia ser suficientemente divulgada. Acontece, porém, que anda por aí uma tropa fandanga revestida de botas cardadas mentais, perita em construir nevoeiros…, que sacaneia a obra dos Poetas que incomodam. São os manhosos do silêncio. E, culturalmente, não há nada mais sacana e sinistro e mais fascista do que o silêncio. Do surrealismo, o autor com quem convivi mais foi o ficcionista e crítico (de algumas modalidades estéticas ou culturais) Manuel de Lima. O Lima tinha sido músico de orquestra de bailes, andara a tocar nos barcos, foi – conjuntamente com o meu amigo António (Santiago Areal) – uma das mais inteligentes e corrosivas máquinas de pensar, de urdir casulos, de desmascarar intelectuais barrigudos; via-se que esgrimia um enorme pó existencial contra os autores que arquitectavam uma carreira, ou que, até muito justamente ou não, poderiam desenvolver um percurso literário ou ensaístico ou de um outro foro concatenado no campo estético-cultural. Assim, o Manuel (e, não obstante, eu e ele sempre nos tratámos, reciprocamente, por “Você”), o manso dinamitador M. de L. não ia ao baile com personagens e obras, que nomeio: Fernando Namora, Urbano Tavares Rodrigues, Álvaro Salema, João Gaspar Simões, Jacinto do Prado Coelho, David Mourão-Ferreira, o seu primo carnal João Palma-Ferreira, o Fausto Lopo de Carvalho, o Augusto Abelaira e assim por diante… Percebe-se que os avatares do Lima eram bem outros… Ele tinha-se dado intimamente com a pitonisa Natália Correia… Aliás, com a mesma Natália viria a escrever a meias a peça teatral “Sucubrina ou a Teoria do Chapéu”, que foi dada à estampa em 1953. Mestre em baralhar os dados viciados em que o “espectáculo cultural” manhosamente, como se fora um circo, se monta, ou exibe, ou arrota croquetes e dólares engordados a sangue – percebe-se, sem necessidade de quaisquer olharapos, que a posição do arguto Manuel era, de facto, surrealista. Ao regressar da guerra de África, procurei o Lima no Século Ilustrado onde trabalhava como redactor, mas pouco. Creio que o M. de L. andava por ali, pela redacção, mais como consultor…, como mentor, uma personagem mais velha e esgrimidora de muitos traquejos e saberes; na retaguarda, apoiado sem rosto por figuras marcantes, a puxar os cordelinhos… Penso que o Lima era muito chegado, em amizade, ao director da publicação, o cronista e cozinheiro Francisco Mata. Um homem igualmente dado à arte do garfo e das petisqueiras. Aconteceu que havia, no Século Ilustrado, várias colunas de crítica (s). Recordo as secções do Lauro António, Guedes de Amorim, Carlos Pinhão e Urbano Tavares Rodrigues. Não havia quem fizesse crítica de arte. Não sei se o crítico de arte anterior morrera ou se fora fuzilado por alguma guerra de interesses, ou por algum galerista chico-esperto… Não me lembro. Esgotaram-se 43 anos sobre o acontecido. Diga-se, então, que o Manuel de Lima já me conhecia do Jornal de Letras e Artes, onde era redactor e eu fora crítico de arte desse semanário. E deixei de o ser por ter ido para a tropa. Para o meu lugar foi o crítico sul-americano Nélson di Maggio, que tinha, entretanto, caído de para-quedas em Portugal… A partir daí, o Lima sabia da minha capacidade para desempenhar o lugar. Posto isto, ele propôs, junto do director ou do chefe da redacção do Século Ilustrado, não sei com quem falou, mas a verdade é que fui convidado para trabalhar lá como crítico de arte. Agradeci ao Lima o facto de ter defendido a minha dama… Nunca fui cão que não conhecesse o dono! Poucos minutos decorridos, já a poderosa máquina mental do Manuel de Lima estava a cercar-me, dizendo cobras e cobrelos do José-Augusto França, como a insinuar-se para que eu me atirasse judicativamente contra o França… Eu martelei, então: – Oh Manuel, repito, estou grato pelos seus empenhos… mas não me venha, desde já, com instruções para atacar este ou aquele… ou colocar aqueloutro no topo da montanha… Eu vou escrever, criticar, consoante a visão estética ou cultural que tenha do mundo e das coisas…, o modo como vejo as artes plásticas… Os olhos são meus… Não fugirei deste signo. Recordo que o Lima empalideceu um tudo nada…, e murmurou a coxear um pouco mentalmente…: – Pronto, Fernando, deixe lá isso… Você é que sabe! – e fomos sempre amigos. O Lima morreu relativamente cedo. Deixou de herança… ao (Luiz) Pacheco algumas calças, com que o autor de O Teodolito andou alguns anos a fugir à polícia… perante os olhos de quem o via (mormente Bairro Alto abaixo e acima). Essa roupa sobrante tinha ficado em casa da Maria do Céu Guerra, quando o Lima abalou para a América do Sul, onde lhe aconteceu o que nunca lhe tinha acontecido: acordou casado. Mas é entendível que o autor de Um homem de barbas, que foi prefaciado pelo mestre Almada, não estava nem podia estar no mesmo comprimento de onda dos académicos e universitários. Ele descendia dos cafés com fumos, sabia dos truques e das manhas para vingar na vida vivida em bairro de jornalistas e rufias, pândegos avulsos, galdérias por todas as esquinas, enfim, o autor de História de um homem barbaramente agredido tinha andado a tocar tangos, rumbas e paso doble (s) nos barcos de cruzeiro… Era uma personagem de caixa alta, uma personagem que se divertia com as voltas e voltaretas do bas fond, ou não fosse de um sangue à prova de balas o surrealismo do Manuel de Lima.
Há outras grandes figuras da prosa surrealista, em Portugal, que gostaria de referenciar aqui. O melhor prosador deles todos creio que foi o lisbonês Virgílio Martinho. Com o Virgílio tive algum convívio. Relembro uma saída muito acutilante do autor de O grande cidadão e de O concerto das buzinas, em 1977, no Jamor, durante a 2.ª Festa do Avante; retenho uma conversa que o Virgílio teve comigo e com o José Cardoso Pires quando, a páginas tantas, e já não me lembro do contexto, esgotaram-se 35 anos sobre a data, sobre o facto, os mesmos anos que tem o meu filho e os cadernos de poesia Viola Delta – e o Virgílio Martinho, autêntico magistral nocturno, saiu-se com esta: – Eu gosto mais de bêbedos do que de intelectuais. Tempos depois, falecido o Virgílio, homenageei-o num poema meu, colocando em epígrafe a frase lapidar que ele lançara para vigorar entre nós os três e, agora, eu arremesso aos ventos de quem me leia. Também, entre o bando mental surrealista, tive outros amigos que não renego: recordo o José Carlos González (poeta), o grande pintor António Santiago Areal, de quem fui especialmente amigo nos últimos anos da sua vida na Costa do Estoril, e que acabou por morrer, em circunstâncias nunca esclarecidas, vitimado por uma agressão que sofreu numa tasca de Cascais. Nunca se soube se os assassinos foram cascarejos… ou paredenses… ou forcados ribatejanos… ou tropa fandanga fadista… Tantos mistérios se escondem num país minorca e de bairros como este!!!

