Atenas 2015 – Uma repetição menos violenta de Santiago do Chile 73? – por Jérôme Leroy

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Atenas 2015 – Uma repetição menos violenta de Santiago do Chile 73?

O Eurogrupo, o BCE e o FMI querem fazer vergar a Grécia

Jérôme Leroy, Revista Causeur

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Antes, quando se queria fazer vergar um país que não se submetia às exigências do capitalismo, organizava-se um golpe de Estado militar. Isto tinha o mérito da franqueza e, pelo menos, as coisas eram claras: no dia de 11 de Setembro de 1973, os tanques de Pinochet entravam em Santiago, o palácio presidencial de Moneda era bombardeado por aviões de combate e Allende morria de armas na mão depois de último discurso comovente ( http://www.dailymotion.com/video/x14ls48_11-septembre-1973-dernier-discours-de-salvador-allende_news)

Cada um podia ter uma ideia da brutalidade da coisa, mesmo sem conhecer todos os apoiantes e as circunstâncias: os números mais moderados consideram em trezentos os mortos nas duas semanas que se seguiram ao golpe de Estado militar e estima-se em dez vezes mais sobre todo o período em que a junta militar exerceu o poder. Não se fala evidentemente dos partidos e os sindicatos, tudo proibido, e do fim da liberdade da imprensa.

Houve pessoas que na época aprovaram como há agora pessoas que aprovam o que se faz sofrer à Grécia. Depois de tudo, os EUA não iam deixar instalar às suas portas um regime de tipo socialista, mesmo que eleito democraticamente. Não iam também arriscar um efeito dominó. Cuba e as tentativas do Che na Bolívia, tudo era já largamente suficiente. E foi para isso que Nixon tinha pedido a partir da eleição de Allende em 70, de acordo com os seus próprios termos “que se fizesse urrar a economia chilena”. Recorda-se geralmente, em matéria de urro económico, a greve dos camionistas financiada pela CIA, via o sindicato dos camionistas americanos. Num país como o Chile, estreito e muito longo, era a paralisia assegurada. As dificuldades de abastecimento dos comércios e das estações de serviço para tentar exasperar a população deviam tornar lógico e aceitável o golpe de força.

Hoje, para fazer vergar a Grécia, a Comissão Europeia, o Eurogrupo, o BCE e o FMI têm outros meios. Está-se numa época postmoderna que não gosta das grandes aventuras ou dos grandes feitos e sabe melhor esconder as suas intenções de dominação real. Os mercados, a propaganda unilateral “dos peritos” e certos meios de comunicação social substituíram hoje os tanques e os esquadrões da morte mas o cenário é o mesmo. E talvez também o resultado.

Os factos aí estão no entanto: os Gregos elegeram democraticamente a 25 de Janeiro um partido de esquerda radical, Syriza. Muito simbolicamente, este partido encontrou os seus deputados auxiliares na direita soberanista dos Gregos independentes como para melhor ilustrar um poema de Aragon: «Quand les blés sont sous la grêle/Fou qui fait le délicat/Fou qui songe à ses querelles/Au coeur du commun combat». Mas esta unção pelos eleitores num país que inventou a democracia e onde se encontram as mais antigas raízes históricas e filosóficas de um continente que a UE pretende hoje representar na sua integralidade, ela não significa rigorosamente nada para os que fazem o papel de pequenos telegrafistas destes famosos “credores”.

É verdade que se pode considerar que a lógica que preside ao golpe de Estado militar larvar que se desenrola sob os nossos olhos hoje tem estado aí, bem presente, desde o início da crise grega, ou seja, desde 2010. De memorando em memorando, a Troika (UE, BCE, FMI) era indiferente e humilhava a maioria presente no Vouli, o Parlamento grego: Pasok, conservadores da Nova Democracia ou grande coligação dos dois, que importa o ramalhete desde que os credores obtivessem o que queriam e rapidamente. O que mudou com a vitória de Syriza, é que desta vez, resiste-se, há verdadeiramente oposição à Troika.

Assim, o incrível Jeroen Dijsselbloem, o presidente do Eurogrupo pôde declarar dois dias após as eleições: “Os Gregos devem compreender que os problemas essenciais da sua economia não desapareceram apenas pelo facto de que houve eleições na Grécia. ” Isto significa, se reflectirmos bem, que é a economia (ou antes certa visão da economia) que prima sobre todo o resto, e nomeadamente sobre a política enquanto que o primado da política é todo ele , precisamente, que fundamenta a democracia.

O paradoxo é que se acusa hoje a Grécia de não respeitar os tratados assinados com a UE mas que para quem sabe ler as declarações reiteradas de Syriza, não se trata tanto de sair do euro, que nunca não esteve no seu programa, mas sim de recusar uma manutenção na moeda única se esta permanência exigisse ser acompanhada de condições tão draconianas que se tornam insustentáveis. É aqui que se mede toda a cegueira política da UE: forçar um governo eleito por um povo no extremo dos seus limites, um governo claramente mandatado para acabar com a austeridade, nas suas últimas trincheiras, sem estar a ter em conta a sua oposição à uma política austeritária e a sua profunda ligação à UE que, outrora, lhe deu muito.

Poder-se-ia assim multiplicar até ao infinito as citações que desprezam ou simplesmente são insultuosas para com a esquerda grega no governo: por exemplo Christine Lagarde que falando dos negociadores gregos disse que estes se deveriam comportar como “ adultos” ou o ministro das Finanças alemão Wolfang Schaüble que qualifica o ministro das Finanças Varoufakis “de estupidamente ingénuo”. Poder-se-iam multiplicar os exemplos de apresentações mediáticas subtilmente enviesadas. Explica-se sobre as cadeias de notícias contínuas que o incumprimento grego, seja mesmo o Grexit, custaria 700 euros por Francês. Este modo de cálculo, em todo caso aberrante e demagógico, no entanto nunca foi utilizado para dizer o que nos custa o capitalismo em França: presentes dados pelo governo ao patronato, refinanciamento dos bancos-casino, tratamento social do desemprego devido às deslocalizações bolsistas e outros planos sociais… Ou ainda como neste artigo do Le Monde do 18 de Junho onde é dito que é necessário que “a razão ganhe sobre as tiradas políticas.” Evidentemente, Tsipras, mandatado pelo seu povo, está “na tirada” ” e “a razão” está do lado daqueles que, na sua maior parte não eleitos, infligiram à Grécia planos de resgate que não resgataram nada nem ninguém como o indica um artigo de Libération que obteve cópia de um documento de 2010 do FMI, classificado “secreto”, que reconhece que uma tal terapêutica de choque impedirá no fim de conta que a Grécia venha a reencontrar o crescimento e a financiar‑se sobre os mercados. Em suma, uma sangria que não curará o paciente mas servirá de exemplo para os que são tentados a tomar liberdades face à ortodoxia que é exigida pelos mercados.

Reencontra-se finalmente a visão de Nixon sobre o Chile: “Fazer urrar a economia” e tanto pior para os estragos sociais que confinam desde vários anos com a crise humanitária. O importante é que a ideia não venha a outros de seguir um caminho antiausteritário como a Espanha que acaba de triunfar nas municipais ou em Portugal que vota nas legislativas no outono

O que está hoje em jogo é, por conseguinte, uma forma de golpe de Estado militar. Mas enquanto ele já esteve à beira de ser bem sucedido, parece que teria havido uma certa flutuação do lado da UE. Angela Merkel, rainha da Europa, de repente parece ter ficado mais discreta. É que de repente, sem dúvida, ela terás medido as consequências da saída da Grécia. Para a zona euro, naturalmente, mas também sobre um plano geopolítico. Enquanto que a URSS, finalmente, se tinha mostrado muito pouco firme aquando do derrube e morte de Allende, personagem embaraçosa para ela dado que estava prestes a ter êxito uma experiência socialista e democrática, o contexto agora mudou . A URSS tornou-se a Rússia e, nestes tempos, Tsipras vai frequentemente a Moscovo. É verdadeiro que o seu país partilha, pelo menos, com o de Putin o mesmo alfabeto e a mesma história religiosa.

Então se verdadeiramente não houvesse outras soluções, vale então o tentar o tudo por tudo, é o que parecem dizer os Gregos que não irão descer mais nada na escala da pauperização. E para Merkel, e com ela a UE, o golpe de Estado militar se tiver êxito pode-se transformar numa vitória à Pirro.

Jérôme Leroy, Revista Causeur, Athènes 2015 : Un remake soft de Santiago 73? L’Eurogroupe, la BCE et le FMI veulent faire plier la Grèce. Texto disponível em :

http://www.causeur.fr/grece-chili-allende-tsipras-euro-33435.html

*Photo : Wikicommons.

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