CARTA DE ÉVORA – Fragmentos… (2) -Joaquim Palminha Silva

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Tudo aquilo que a palavra já comunicava, “espírito” saído desse assombroso fluído que é o sofrimento humano, deixou-se anestesiar pelas maquinações do Poder e, envelhecida pelas lágrimas, ficou a viver discretamente, entre si e a dor, esperando… A palavra já é sempre de emprego desfavorável… para os poderosos! A palavra já é demasiado libertária e, nessa ordem de ideias, profundamente subversiva… – Quem a utilizar com atrevida frequência, será vigiado como inimigo público nº1!

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«Vivem nas nuvens»! – Dizem dos idealistas, dos sonhadores, dos poetas e dos fantásticos criadores de utopias. Com semblante desdenhoso, crente na sua suficiência, a gente comum, a multidão de realistas, a turbamulta de todos os dias, não percebe é mais honroso e digno da Humanidade «viver nas nuvens», em vez de se desonrar pisando o pó e o esterco da rotina e do conformismo!
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Na essência, somos todos delinquentes, prevaricadores, queiramos ou não! – Na verdade, se cada cidadão fosse fanaticamente escrupuloso, circunspecto e obediente até ao mais ínfimo pormenor, a ponto de observar rigorosamente todas as regras de conduta, todos os códigos, todas as Leis, todos os usos e costumes, todos os preceitos morais, incluindo os mais inocentes, a sociedade no seu conjunto não mexeria uma palha. – O quietismo social acabaria por atrofiar a civilização!
Felizmente que somos todos prevaricadores, ainda bem que aqui e ali desobedecemos aos “decálogos” religiosos e profanos. Bem-aventurada seja a nossa intrínseca e humana delinquência!
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Os antigos deuses do mundo clássico, deixam-me perplexo… Pior! – Tenho deles uma péssima opinião e, em meu entender, não sei por que razão a poesia e os estudos académicos teimam em os recordar com cerimoniosa reverência.
Prometeu, que trouxe ao Homem o fogo e outros dons, acabou agrilhoado sobre um monte para que os abutres lhe dilacerassem o ventre eternamente. Hércules, o gigante bonacheirão que livrou o Homem de monstros vorazes, terminou os seus dias devorado pelas chamas. O simpático Orfeu que trouxe ao Homem a consolação do canto e domou feras, foi despedaçado pelas Bacantes. Sócrates, que se empenhou toda a vida em transmitir ao Homem as ideias de verdade e justiça, foi condenado a morrer por envenenamento.
É evidente, pois, que no mundo habitado e orientado pelos antigos deuses, proporcionar algum benefício ao Homem foi considerado crime que merecia o suplício e a morte. Enfim, os antigos deuses não tinham nenhuma consideração pelo Homem, pelo que não vejo por que haveria eu de andar para aqui a citar tais trogloditas!
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Cada dia que passa, o político profissional perde um pouco da sua anterior e excepcional posição de cidadão “ungido” pelos votos!
A constante atitude que passa a definir o posicionamento ético e social do político profissional, é a que se iguala a uma fortaleza assediada. Interrogado por todos os lados, o político profissional defende-se do Povo tapando e escondendo algumas das suas acções mais importantes. Por fim, o político profissional actua de má-fé e defende-se dos cidadãos!
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O político profissional dos nossos dias recorda-me sempre o Caim de Lord Byron… A determinada altura da narrativa, o protagonista da história dirige-se a Lúcifer, e pergunta-lhe : «Tu és feliz?». Depois de breve instante, o ardiloso Lúcifer responde-lhe: «Não, mas sou poderoso!» …

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