EDITORIAL – Eusébio no Panteão Nacional

Imagem2Como se sabe e tem sido amplamente anunciado, debatido, especulado, criticado, Eusébio da Silva Ferreira, a «Pantera Negra», jogador de futebol do Benfica e da selecção nacional, terá no dia de hoje os seus restos mortais trasladados (com todas as honras inerentes) para o Panteão Nacional. Um futebolista no Panteão? Justifica-se, não se justifica? A questão colocara-se relativamente a Amália Rodrigues – uma fadista no Panteão?

De uma forma geral, o Panteão estava ocupado por escritores e políticos – Guerra Junqueiro, Humberto Delgado, João de Deus, Manuel de Arriaga, Sidónio Pais, Carmona, Teófilo Braga… Não se discutia, mas podia discutir-se – considerar Óscar Carmona um filho dilecto da Nação, é forçado – Carmona foi um criado de quarto de Salazar, um homem servil cujo único mérito, dizia um contemporâneo do 28 de Maio, era ter sempre as botas muito bem engraxadas. Sidónio não foi um exemplo de amor à Pátria – germanófilo, monárquico, não faltará quem conteste o seu direito ao dormitório panteónico. Todos os que estão, podiam não estar. Quanto a Manoel de Oliveira o problema que se levantou foi diferente – não deverá antes ficar no Porto, sua cidade? E Almeida Garrett, os portuenses esquecem Garrett? Não deveria estar no Porto?

Centrando-nos em Eusébio, não há dúvida que talvez nenhum dos seus companheiros de Panteão tenha contribuído como ele para levar o nome de Portugal para fora do pequeno rectângulo europeu em que o país existe – talvez Amália, a fadista, seja a única que nesse aspecto pode com ele competir. Sophia? Aquilino? grandes escritores, mas praticamente desconhecidos no exterior. O Panteão Nacional acolhe os restos mortais dos filhos dilectos da Nação Portuguesa? Daqui por uns séculos ainda se jogará futebol? Cantar-se-á ainda o fado? Os romances de Aquilino Ribeiro e os versos de Sophia de Mello Breyner Andresen serão ainda recordados? Não nos preocupemos. Sempre foi assim. Os nomes da actualidade parecem eternos para os seus contemporâneos e as datas históricas são inesquecíveis para quem as vive. Depois, nomes como os de António Augusto de Aguiar e datas como 25 de Abril, são apenas nomes de ruas, avenidas, praças ou pracetas. E a vida continua.

 

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