O assassinato da Grécia – por James Petra I

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

O assassinato da Grécia

A asfixia de Syriza faz parte integrante de um processo que dura desde há mais de dez anos com o objecto de eliminar a Grécia da UE

James Petras – 22 Fvereiro de 2015

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Dr. James Petras

 

O governo grego hoje está hoje prisioneiro numa luta de morte face à elite que domina os bancos e os centros do poder político da União Europeia.

O que está em jogo, são as condições de vida de 11 milhões de trabalhadores, de funcionários e de artesões gregos, bem como a viabilidade da União Europeia. Se o governo de Syriza capitular face às exigências dos banqueiros da União Europeia e aceitar prosseguir a política de austeridade, a Grécia então será condenada a décadas de regressão, de miséria e de dominação colonial. Se a Grécia decidir opor-se e se for forçada a deixar a União Europeia, deverá repudiar uma dívida externa de 270 mil milhões de euros, provocando a queda dos mercados financeiros internacionais e o desmoronamento da União Europeia.

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Os dirigentes europeus : fantoches impotentes

Os líderes da União Europeia apostam sobre uma negação pelos líderes de Syriza das promessas feitas ao eleitorado grego que, no início do mês de Fevereiro de 2015, queria, numa esmagadora maioria (mais de 70%), terminar com a austeridade e o pagamento da dívida, desenvolver os investimentos do Estado na economia nacional e o desenvolvimento social (Financial Times 7- 8/02/15, p. 3). As escolhas são dolorosas, as suas consequências terão um alcance histórico mundial. Os desafios vão bem para além do aspecto local, ou mesmo regional a curto prazo. É à escala mundial que todo o sistema financeiro será afectado (FT 10/02/15, p. 2).

Bem, para além da Europa, o não-pagamento da dívida vai propagar-se a todos, devedores ou credores; a confiança dos investidores em relação ao império financeiro ocidental será abalada. Sobretudo, todos os bancos ocidentais têm relações directas ou indirectas com os bancos gregos (FT 2/06/15, p. 3). Quando estes últimos desmoronarem, serão afectados profundamente para além do que os seus governos podem suportar. A intervenção maciça do Estado estará na ordem do dia. O governo grego não terá então nenhuma outra escolha senão a de tomar o controlo do conjunto do seu sistema financeiro… o efeito dominó afectará em primeiro lugar a Europa do Sul seguidamente propagar-se-á “às regiões dominantes” do norte bem como à Inglaterra e à América do Norte (FT 9/02/15, p. 2).

A fim de compreender as origens destas crises e as escolhas com as quais a Grécia e a União Europeia estão confrontadas, é necessário passar rapidamente em revista os desenvolvimentos económicos e políticos das três últimas décadas. Comecemos por examinar as relações gregas e europeias entre os anos 1980 e 2000, seguidamente a crise actual e a intervenção europeia na economia grega. Na secção final, discutiremos a ascensão e a eleição de Syriza e a sua proposta crescente no contexto da dominação e da intransigência da União Europeia, pondo em evidência a necessidade de uma fractura radical com as antigas relações “de senhor e vassalo”.

História antiga: a fundação do império europeu

Em 1980 a Grécia foi admitida na Comunidade Económica Europeia (CEE) como um estado vassalo do império emergente franco-alemão. Com a eleição de Andreas Papandréou, chefe do partido pan-helénico socialista grego que dispunha de uma maioria absoluta no Parlamento, a esperança de uma mudança radical nos negócios internos e externos aparecia à luz do dia. 1 Em especial, durante a campanha eleitoral, Papandréou tinha prometido a saída da NATO e da CEE, a anulação dos acordos que autorizam os Estados Unidos a manter bases militares na Grécia e uma economia fundada sobre “a propriedade social” dos meios de produção. Depois de ter sido eleito, Papandréou imediatamente assegurou à CEE e a Washington que o seu governo permaneceria na comunidade europeia e na NATO, renovando os acordos sobre as bases militares dos Estados Unidos. Estudos, encomendados pelo governo no início dos anos 80, mostraram que os resultados a médio e longo prazo da manutenção da Grécia na CEE, nomeadamente a perda de controlo do comércio, os orçamentos e os mercados, foram ignorados por Papandréou que escolheu sacrificar a independência política e a autonomia económica sobre o altar das transferências de fundos em grande escala, os empréstimos e os créditos que vêm da CEE. Da sua varanda, Papandréou falou às massas sobre independência, justiça social, enquanto que conservava relações com os banqueiros europeus e os oligarcas gregos, tanto armadores como banqueiros. A elite europeia em Bruxelas e os oligarcas gregos em Atenas mantiveram o controlo sobre as elevadas esferas do sistema político e económico da Grécia.

Papandréou conservou as práticas do clientelismo político postas em prática pelos precedentes governos de direita, substituindo unicamente os funcionários de direita por membros do partido PASOK.

A CEE varreu a retórica radical de lata de Papandréou e focalizou-se sobre o facto que comprava o controlo e a submissão do Estado grego, financiando um regime clientelista e corrupto, que desviava os fundos dos projectos de desenvolvimento da competitividade económica grega para proveito de um sistema de clientelismo fundado sobre um consumo acrescido.

As elites europeias sabiam, no final, que o controlo financeiro sobre a economia lhes   iria permitir ditar a política grega e mantê-la no império europeu emergente

Apesar da retórica demagógica “terceiro-mundista” de Papandréou, a Grécia estava ancorada profundamente na União Europeia e na NATO. Entre 1981 e 1985, Papandréou rejeitou a sua retórica socialista a favor de um aumento das despesas sociais, do aumento dos salários, das pensões e da cobertura de saúde, ao mesmo tempo que resgatava as empresas em falência económica postas por terra pela acção de capitalistas cleptocratas. Resultado, enquanto o nível de vida aumentava, a estrutura económica da Grécia assemelhava-se sempre à de um Estado vassalo fortemente dependente da finança da União Europeia, dos turistas europeus, e a uma economia da renda baseada na propriedade, na finança e no turismo.

Papandréou consolidou o papel da Grécia como posto de entrada da NATO, uma plataforma para uma intervenção militar americana no Médio Oriente e no Mar Mediterrâneo oriental a que se junta um mercado para os produtos manufacturados da Alemanha e da Europa do Norte.

De Outubro de 1981 até Julho de 1989 o consumo grego aumentou enquanto a produtividade estagnava. Papandréou ganhou as eleições em 1985 utilizando os fundos da CEE. Durante este tempo a dívida grega europeia disparava… Os líderes da UE condenaram a má utilização dos fundos pelo vasto exército de cleptocratas de Papandréou mas não muito ruidosamente. Bruxelas reconhecia que Papandréou e o PASOK representavam o melhor meio para amordaçar o eleitorado radical grego e para manter a Grécia sob tutela da CEE e como fiel vassalo da NATO.

 

Lições para Syriza : as reformas a curto prazo e a estratégia de vassalo do Pasok

Que esteja no governo ou fora, o PASOK seguiu os vestígios do seu adversário de direita (a Nova Democracia) aceitando a camisa de força da NATO-CEE. A Grécia continuou a manter as despesas militares per capita ao nível mais elevado dos membros europeus da NATO. Resultado, a Grécia recebeu créditos para poder financiar as reformas sociais a curto prazo e a corrupção em grande escala a longo prazo, alargando ao mesmo tempo o aparelho político do Estado-partido.

Com o ascensão do primeiro ministro abertamente neoliberal Costas Simitis em 2002, o regime do PASOK manipulou as contas, fabricou os dados governamentais sobre o seu défice orçamental, com a ajuda dos bancos de investimento de Wall Street, e tornou-se um membro da União Monetária Europeia. Adoptando o euro, Simitis favoreceu ainda uma bem maior subordinação financeira da Grécia aos funcionários europeus não eleitos de Bruxelas, dominados pelo ministério alemão das finanças e pelos bancos

Os oligarcas gregos fizeram do seu lugar no topo o espaço para uma nova espécie de elite cleptocrática procedente do PASOK, que desviou milhões sobre as compras militares, cometeu fraudes bancárias e se entregou à uma evasão fiscal massiva .

As elites de Bruxelas permitiram à classe média grega viver a ilusão de serem “europeus prósperos” porque conservavam uma influência decisiva através dos empréstimos e da acumulação das dívidas.

Uma fraude bancária em grande escala – trezentos milhões de euros – implicou mesmo o gabinete do ex-primeiro ministro Papandréou.

As relações clientelistas dentro da Grécia tinham apenas como igual apenas as relações clientelistas entre Bruxelas e Atenas

Mesmo antes do rebentar da crise em 2008 os credores da UE, banqueiros privados e credores oficiais, fixavam os parâmetros da política grega.

O rebentar da crise à escala mundial revelou as fundações frágeis do estado grego – e conduziu directamente à intervenção directa e brutal do Banco Central Europeu, do Fundo Monetário Internacional e da Comissão Europeia – a tristemente celebre Troika. Esta última impôs as políticas “de austeridade” como condição “do resgate”, que devastaram a economia, provocando uma enorme crise económica, empobrecendo mais de 40% da população, reduzindo os rendimentos de 25% e gerando 28% de desemprego.

(continua)

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