A História e a história de um jantar
Tudo o que se está a passar actualmente na Europa tem sido catalogado como a crise financeira, em vez de se considerar que o que se está a passar é fruto de um modelo, o neoliberalismo, que desde há trinta anos tem estado a minar as sociedades na Europa, tudo o que neste continente se tem estado a passar faz parte e é consequência lógica de um modelo de sociedade que aos cidadãos tem estado a ser imposto, caracterizado pela existência de Estados com o mínimo de poder e ao serviço dos mercados que assumem eles o papel que anteriormente cabia ao Estado Providência, agora destruído. Dito de outra maneira, trata-se de um modelo em que o Estado está capturado e ao serviço da soberania dos mercados. Podemos bem perceber que a sequência não menos lógica das mesmas políticas será transformar a Europa num enorme espaço de pobres ou mesmo de párias, se com o nosso silêncio o consentirmos, se com o nosso voto o permitirmos. Afirmação crua e dura esta, mas não creio haver outra leitura possível, por exemplo, com o documento da Troika pelo Governo assinado e que pelos Durão Barroso desta Europa foi bem carimbado com a garantia terrível de que são os pobres que a crise produzida pelos ricos terão que liquidar e em que a estes a Troika, ah! a esses, tudo fez, tudo faz e tudo fará para os salvaguardar dos custos da crise que os outros seguramente pagarão. E a Troika será vigilante e rigorosa nesse objectivo.
É pois todo o tecido social da Europa que se está a romper e é esta mesma Europa, como um todo, que passa a estar em perigo de se desfazer como sucessivamente o temos vindo a demonstrar. Por tudo isto, lembrámo-nos então de um jantar que ocorreu a 20 de Junho de 1790 em Nova Iorque, bem perto de Wall Street.
Gostaríamos de conseguir realizar um jantar equivalente e de sentir que os mesmos resultados foram conseguidos. Aceitam-se três candidatos para jantar no melhor restaurante português, com garrafas de vinho português, por causa da balança comercial, à descrição e com uma só restrição : não poderem ultrapassar os 500 euros por garrafa.
Vejamos então a história do outro jantar, do jantar que se comeu nas vizinhanças de Wall Street em 20 de Junho de 1790. Aceitam-se como vencedores o trio que conseguir repetir para a Europa de agora o que três homens de têmpera de ferro de então conseguiram para os Estados Unidos de então. Verificada a proeza, a melhor mesa possível à disposição de quem a ganhou.
Para já, a história desse famoso jantar, depois a realização do projecto equivalente para a Europa e a seguir, talheres na mesa e garrafas de vinho à temperatura escolhida. Para terminar, bom apetite, então.
P. S. Há automaticamente figuras não admissíveis como candidatos para este jantar e são todos os políticos europeus que estão no poder. Excluem-se, imediatamente deste convite:
Passos Coelho, Durão Barroso, Mario Draghi, Matteo Renzi, Merkel, Schäuble, Jean-Claude Juncker, Jeoren Dijsselbloem (Presidente do Eurogrupo) Donald Tusk, (Presidente do Conselho Europeu), François Holllande e muitas outros da mesma extirpe.
Razões para esta exclusão? Excluem-se uns, por incapacidades mentais para a história poderem sequer compreender quanto mais para a poderem refazer, e são muitos deles, e os outros, mais inteligentes, mais cínicos também, excluem-se por falta de garantias de idoneidade intelectual e moral, por serem capazes de nos inventar uma realidade de tal modo credível que nela os povos europeus seriamente venham a acreditar, tal o poder de mistificação de que são capazes e de que disso já deram provas, criando uma realidade virtual, a Europa em crise mas que já deixou a crise ao virar da esquina. É preciso lata. E, desses, na lista, há alguns.
Júlio Marques Mota
Assim nasceu uma moeda, assim se construiu uma Nação[1]
Thomas Jefferson mora no 57 Maiden Lane em Nova Iorque, a dois passos de Wall Street. Ao passear pela rua encontrou o seu colega Alexander Hamilton, sombrio, de má cara, vestido de forma um pouco descuidada, ele que andava sempre bem vestido. O problema de tudo isto é o problema que ele tem em mãos para resolver e que lhe faz insónias. Para falarem, Jefferson convida-o para jantar na sua casa, para um domingo, o domingo seguinte, a 20 de Junho de 1790. Convida igualmente um outro colega, James Madison.
Estas três personagens, não são simples desconhecidos, pertencem ao pequeno grupo dos pais fundadores dos Estados Unidos. Jefferson é um dos signatários da Declaração de Independência. Os outros dois assinaram a Constituição americana. O primeiro é no momento secretário de Estado, isto é, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Hamilton é o Secretário do Tesouro, o ministro das finanças, e Maddison é o principal conselheiro do Presidente da República de então. Jefferson e Maddison serão mais tarde ambos Presidentes dos Estados Unidos.
Estamos a 20 de Junho de 1790. Os Estados Unidos só desde há três anos é que têm uma Constituição. O primeiro Presidente, George Washington tinha tomado posse apenas no ano anterior. Nova Iorque é o centro de gravidade do poder, na ausência de uma capital definida. As instituições estão ainda como a terra virgem, não criadas ou ainda não rodadas, sem moeda bem clara, sem sistema federal bem preciso. A imensa confusão criada com a guerra da Independência – que tinha acabado apenas sete anos antes – continua a perturbar toda a gente, entre os desmobilizados completamente arruinados, os interesses contraditórios e um Estado que está a dar os seus primeiros passos.
O jantar informal dos três homens terá grandes consequências, muito grandes mesmo, ainda hoje bem presentes na vida americana. Exactamente porque foi nesse jantar de 20 de Junho de 1790 que se fizeram as grandes escolhas para o funcionamento da América.
O problema do Ministro das Finanças Hamilton é um terrível problema. Os oito anos de Guerra da Independência contra a Inglaterra ( 1775-1783) provocaram uma sangria dramática a todos os níveis. Os 13 Estados que compõem a Federação Americana da época estão endividados até à ponta dos cabelos. Além do mais, ciosos da sua especificidade, cada um tem as suas próprias leis, o seu orçamento, os seus impostos, a sua moeda.
Neste país de agricultores, as explorações agrícolas estão todas endividadas junto dos banqueiros, em geral, filiais dos bancos ingleses em Nova Iorque. Os plantadores da Costa Leste, a única que conta, do Massachusetts à Geórgia, passando pela Carolina ou pela Virgínia, , estão exangues. E foram eles que levaram à independência. George Washington, James Maddison, Thomas Jefferson, são todos eles grandes plantadores de Virgínia, perto do lago Potomac. São eles que estão à frente da Nação. Para o cidadão comum, é ainda pior. Os desmobilizados da guerra da Independência foram pagos em moeda que não tinha qualquer valor. Em forma de pré, os Estados emitiram certificados, uma forma de reconhecimento de dívida a que se chamou IOU (I owe you, deve-lhe). Como pagar estas dívidas a estes tão generosos credores? Muitos deles vendiam estes títulos a 20% do seu valor, a tentarem sobreviver. Para aumentar a confusão, pequenos manhosos compravam estes certificados por uma côdea de pão e punham-se a especular sobre estes títulos, exactamente como o faz a finança moderna.
Que devia fazer Hamilton? Retomar a dívida dos Estados ao nível federal e reembolsar pelo seu verdadeiro valor? Gerir de maneira central a assustadora complexidade de treze moedas diferentes? Mas aqui seria necessário que o Estado pudesse contrair empréstimos e levantar impostos. O Estado da federação e o establishment dos plantadores opunham-se ferozmente a toda e qualquer perda de autonomia e era por esta razão que a reforma necessária não avançava, semana após semana, enquanto que o conjunto do sistema vacilava. Era por isto que Hamilton já não sabia o que devia fazer.
A única solução que perspectivou o hábil Jefferson era negociação de igual para igual. Jefferson e Maddison não pertenciam ao mesmo círculo que Hamilton, que não era um plantador de Virgínia. O seu interesse político era de regular para vantagem deles a difícil questão da capital, o que ainda estava por decidir. Nova Iorque era a capital, mas provisória. A Constituição de 1887 diz claramente que é necessário encontrar um local mais neutro. Dez cidades se batem para serem a escolhida. Esta questão da residência envenena os debates políticos da muito jovem república . Os plantadores da Virgínia não querem coabitar com os financeiros de Nova Iorque que os tinham na mão dadas as suas dívidas e de quem desconfiavam como se da peste se tratasse. Nova Iorque era o Anti-Cristo; um centro de especuladores corruptos! Eles veriam com bons olhos que a capital fosse mais próxima deles, que eles poderiam, pensavam eles, controlar.
O jantar de 20 de Junho de 1790 termina com a realização de um acordo. Uma capital contra uma centralização financeira. Uma separação de poderes políticos e financeiros contra um poder federal forte. A partir do dia seguinte os pais fundadores ligam um a um os eleitos do Congresso exactamente como ainda o farão os futuros Presidentes dos Estados Unidos na véspera das grandes reformas. A 9 de Julho a questão da capital federal é resolvida pela maioria parlamentar. Será Filadélfia por dez anos antes de se mudar definitivamente para um território ainda virgem à beira do lago Potomac a que se dará o nome de Washington depois da morte do pai da Independência. A 26 de Julho Hamilton obtém o apoio dos membros do Congresso para fazer aprovar o seu plano.
Tratou-se de uma revolução. As moedas dispersas dos diversos Estados serão abolidas e é criada uma moeda federal, o dólar. O Estado Federal vê-se autorizado a emitir dívida e a levantar impostos nacionais. Pode então proceder à compra dos certificados de pré pelo seu justo valor e assim de imediato bloqueia uma revolução que já estava a fermentar. Para fechar o processo cria nessa dinâmica um Banco Central, the First Bank of United States. O debate entre centralismo e federalismo ficou assim resolvido pelo menos quanto a esta matéria crucial que é o nervo da guerra e a garantia da prosperidade futura.
As negociações do jantar de Junho de 1790 não envelheceram, não ganharam uma ruga sequer com o andar do tempo, dos séculos, perderam em actualidade, ainda hoje mesmo. A mesma questão se coloca na Europa: poder-nos-emos nós satisfazer de ter uma moeda única, o euro, sem controlar a dívida dos países e sem dispor ao nível europeu das alavancas do imposto, da dívida, de um orçamento digno deste nome? Nos Estados Unidos, a separação entre o poder político – em Washington- e económico – em Nova Iorque continua a dirigir dois mundos um contra o outro mas também a corrigir os excessos de um ou do outro. A desconfiança de Obama para com Nova Iorque é a mesma que a de Thomas Jefferson. E o poder político de Washington pode circunscrever as crises nascidas em Nova Iorque, em Wall Street, testemunha toda a sua eficácia nos grandes períodos de crise, sob Franklin Roosevelt em 1993, mas já não foi capaz de a circunscrever sob Obama, pela linha de compromissos que este seguiu no primeiro mandato. Obama vergou sob o peso dos rufias do Tea Party e destes ficou prisioneiro.
Mas os Estados Unidos são historicamente a herança destes três homens notáveis e, destes três, um deles sobressai, segundo um grande analista dos mercados financeiros Michael Pettis, Alexander Hamilton, o homem que ensinou Frederich List, o homem que levou a que as teorias do proteccionismo viessem para a Europa. Desse homem, de Alexander Hamilton, fala-nos o texto de Michael Pettis que se segue, com o título Por favor, Mister Lew não “diminua” Alexander Hamilton.
Depois disto mãos à obra e bom apetite, depois.
Júlio Marques Mota
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[1] Veja-se Jacques Gravereau, Jacques Truman, L’Histoire incroyable de Wall Street, Albin Michel, 2011.
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