O assassinato da Grécia – por James Petra II

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

(continuação)

 

A Grécia :   catividade por convite

Prisioneira da EU, politica e economicamente, a Grécia estava impotente no plano político. Postos à parte os sindicatos que lançaram trinta greves gerais entre 2009 e 2014, dois dos principais partidos, PASOK e Nova Democracia, conduziram a tomada de controlo pela UE. A degenerescência do PASOK num apêndice da UE constituído de oligarcas e de vassalos colaboradores esvaziou do seu sentido a retórica “socialista”. O partido de direita Nova Democracia reforçou e tornou mais profundo ainda este domínio da UE sobre a economia grega. A Troika emprestou ao seu vassalo grego fundos (“de resgate”) que foram utilizados para reembolsar os oligarcas financeiros alemães, franceses e ingleses e reforçar os bancos privados gregos. A população grega estava “esfomeada” pelas políticas “de austeridade” destinadas a manter o fluxo dos reembolsos ao exterior .

A Europa : União ou Império ?

A crise da União Europeia de 2008/2009 teve mais impacto sobre os seus elos mais fracos, a Europa do Sul e a Irlanda. A União Europeia revelou a sua verdadeira natureza de império hierárquico, no qual os estados mais fortes, a Alemanha e a França, podiam aberta e directamente controlar o investimento, o comércio, as políticas monetárias e financeiras. “O resgate ” da Grécia tanto elogiado pela UE era com efeito o pretexto para impor profundas mudanças estruturais. Estas incluíam a desnacionalização e a privatização dos sectores económicos estratégicos, os reembolsos de dívidas perpétuos, os diktats estrangeiros sobre as políticas de rendimentos e de investimentos. A Grécia deixou de ser um estado independente: a Grécia foi total e absolutamente colonizada.

As crises perpetuas da Grécia : o fim da “ ilusão europeia”

A elite grega e, pelo menos desde há 5 anos, a maior parte dos eleitores, acreditaram que as medidas regressivas (“austeridade”) adoptadas – os despedimentos, os cortes orçamentais, as privatizações, etc., eram tratamentos amargos curtos que levariam rapidamente à uma redução da dívida, ao equilíbrio orçamental, a novos investimentos, ao crescimento e à inversão da conjuntura, à renovação do tecido produtivo. Pelo menos, é o que lhes diziam os peritos económicos e os líderes de Bruxelas.

Realmente, a dívida aumentou, a espiral descendente da economia continuou, o desemprego ampliou-se, a depressão agravou-se. “A austeridade” era uma política de classe instaurada por Bruxelas para enriquecer os banqueiros estrangeiros e pilhar o sector público grego.

A chave da pilhagem pela UE foi a perda da soberania grega. Os dois partidos maioritários, Nova Democracia e o PASOK, eram os cúmplices activos. Apesar de uma taxa de desemprego de 55% na faixa etária dos 16-30 anos, do corte da electricidade a 300.000 lares e de um êxodo de massa (mais de 175.000), a UE (como se podia prever) recusou admitir que o plano “de austeridade” tivesse falhado em inverter a espiral depressiva e rectificar a trajectória da economia grega. A razão pela qual a UE se obstinava-se nesta “política que falhou” residia no facto que ela beneficiava do poder, dos privilégios e dos lucros da pilhagem e da sua supremacia imperial.

Além do mais, o reconhecimento pela elite de Bruxelas do seu falhanço na Grécia teria provavelmente como resultado que lhe fosse exigido que reconhecesse igualmente os seus falhanços no resto da Europa do Sul e, além disso, a incluir a França, a Itália e outros membros chave da UE (Economist 17/01/15, p. 53). As elites dirigentes, financeiras e empresariais, da Europa e dos EUA, prosperaram pelas crises e pela depressão, impondo cortes orçamentais nos sectores sociais, nos salários e nos serviços de saúde e nas reformas. Admitir um malogro na Grécia teria repercussões na América do Norte e na Europa, colocando em questão as suas políticas económicas, a sua ideologia e a legitimidade dos seus líderes. A razão pela qual todos os regimes da UE apoiam a insistência da UE de que a Grécia continue a respeitar esta política “de austeridade” manifestamente perversa e retrograda e imponha “reformas estruturais” reaccionárias, é que estes mesmos governantes sacrificaram o nível de vida da sua própria população activa durante as crises económicas (FT 13/02/15, p. 2).

As crises económicas, de 2008/2009 até hoje (2015), pedem sempre duros sacrifícios para perpetuar os lucros das classes dirigentes e financiar as subvenções públicas dos bancos privados. Todas as instituições financeiras essenciais – o BCE, a Comissão Europeia e o FMI – seguem a mesma linha: nenhuma contestação ou desvio será tolerado. A Grécia deve aceitar os diktats da UE ou fazer face à enormes represálias financeiras. “Estrangulamento económico ou escravidão perpétua para com a dívida” é a lição que Bruxelas envia a todos os Estados-Membros da UE. Enquanto que, ostensivamente, fala para a Grécia – é também uma mensagem destinada os todos os estados, a todos os movimentos de oposição e sindicatos que poriam em questão os diktats da oligarquia de Bruxelas e dos seus suseranos alemães.

Todos os principais meios de comunicação social e os grandes meios de divulgação económica especializados serviram de megafone aos oligarcas de Bruxelas. A mensagem repetida incessantemente pelos liberais, conservadores e pelos sociais democratas às nações atingidas , aos trabalhadores cujos rendimentos se reduzem , sejam assalariados ou pagos à tarefa , bem como os pequenos empresários, é que não têm outras escolhas que não seja a de aceitar medidas retrogradas, cortando ao vivo nas suas condições de vida (“as reformas”) se quiserem esperar pela “ retoma económica” – que, como se sabe, ainda não se verificou e já passaram cinco anos!

A Grécia tornou-se o alvo principal das elites económicas na Europa porque os gregos passaram de manifestações sem consequência a assumirem o poder político. A eleição de Syriza, com base numa soberania convalescente, rejeitando a austeridade e redefinindo as suas relações com os credores em prol de um desenvolvimento nacional marca as premissas de uma eventual confrontação à escala do continente.

L’ascension de Syriza : héritage douteux, luttes de masse et promesses radicales (non tenues)

A ascensão de Syriza: herança duvidosa, luta de massas e promessas radicais (não respeitadas)

O crescimento de Syriza, uma aliança de pequenas seitas marxistas num partido eleitoral de massa, deve-se largamente à incorporação de milhões de funcionários das classes médias, de reformados e de pequenos empresários. Muitos apoiavam o PASOK anteriormente. Votaram Syriza para reencontrar as suas condições de vida e a estabilidade do emprego do precedente período “de prosperidade” (2000-2007) que tinham obtido na UE. A rejeição total do PASOK e a Nova Democracia foi o resultado de 5 anos de profundos sofrimentos que num outro país teriam podido provocar uma revolução. O seu radicalismo começou por manifestações, marchas e greves que foram outras tantas tentativas de pressão sobre os regimes de direita para que alterassem a linha da UE e para que acabassem com a austeridade, permanecendo ao mesmo tempo na UE.

Este sector de SYRIZA é “radical” no sentido de que opõe o conformismo presente à nostalgia do passado – os tempos das férias em Londres e Paris financiados pelo euro, o crédito fácil para comprar automóveis e roupas importadas, para “sentirem-se modernos” e “europeus” e falar inglês!

A política de Syriza reflecte, em parte, esta parte ambígua do seu eleitorado. Por outro lado, Syriza assegurou-se do voto dos jovens radicais, dos desempregados e dos trabalhadores, que nunca mas nunca mesmo fizeram parte da sociedade de consumo e que não se identificam com “a Europa”. Syriza impôs-se como um partido de massas em menos de 5 anos e os seus simpatizantes assim como os seus líderes reflectem um elevado grau de heterogeneidade.

O ramo mais radical, de modo ideológico, é representado principalmente por grupos marxistas que na origem se agruparam para formar um partido. O ramo dos jovens desempregados juntou-se-lhes na sequência dos motins contra a polícia que foram desencadeados pelo assassinato de um jovem activista aquando dos primeiros anos da crise. A terceira vaga é composta geralmente por milhares de funcionários despedidos e reformados que sofreram de largos cortes nas suas pensões sobre a ordem da Troika em 2012. A quarta vaga representa os membros do ex- PASOK que fugiram do naufrágio de um partido em falência.

A esquerda de Syriza encontra-se principalmente na base popular e entre os líderes dos movimentos locais procedentes das classes médias. Os grandes líderes de Syriza que têm os postos-chave são universitários, dos quais alguns no estrangeiro. Muitos são membros recentes ou mesmo não são se quer membros do partido. Poucos de entre eles tomaram parte nas lutas de massa – e muito têm apenas algumas ligações com os militantes de base. São os mais propensos a assinar “um acordo” que traia os gregos empobrecidos.

Desde que Syriza ganhou as eleições em 2015, o partido começou a enterrar o seu programa inicial de mudanças estruturais radicais (socialismo) e a adoptar medidas destinadas a adaptar-se aos interesses do sector grego dos negócios. Tsipras falou “da negociação de um acordo” no âmbito de uma União Europeia dominada pelos alemães. Tsipras e o seu ministro das finanças propuseram-se renegociar a dívida, a obrigação de pagar e aplicar 70% das reformas! Quando um acordo for assinado, eles terão capitulado completamente!

Durante um curto momento, Syriza manteve uma posição dupla: “opôr-se” à austeridade e chegar a um acordo com os seus credores. Esta política “realista” reflecte as posições dos novos ministros universitários, dos antigos membros do PASOK e da classe média que entrou para o Syriza. A retórica e as posturas radicais de Syriza são reveladoras da pressão dos desempregados, da juventude e das massas pobres, que seria eles os que teriam a perder se um acordo de pagamento aos credores for negociado.

União Europeia – SYRIZA : as concessões antes da luta sempre levaram à rendição e à derrota

“A dívida grega” não é verdadeiramente uma dívida dos gregos. Os credores institucionais e os bancos europeus emprestaram conscientemente e com grande risco o dinheiro aos cleptocratas, aos oligarcas e aos banqueiros que ficaram com grande parte dele e o colocaram em contas na Suíça, no imobiliário de luxo, em Londres e Paris, em actividades incapazes de gerar rendimentos para se reembolsar a dívida. Por outros termos, a dívida é em grande parte ilegítima e foi posta sem razão sobre as costas dos gregos.

Syriza, desde o início das “negociações”, não colocou em questão a legitimidade da dívida nem identificou   as categorias específicas de pessoas e das empresas que a deveriam pagar.

Além do mais, enquanto que Syriza contestava a política “de austeridade”, não questionava as organizações e as instituições europeias que impunham essa mesma austeridade.

Desde os seus primeiros passos políticos que Syriza aceitou a adesão à União Europeia. Em nome do “realismo”, o governo Syriza aceitou pagar a dívida ou uma parte de esta como base de negociação.

Estruturalmente, Syriza desenvolveu uma direcção muito centralizada na qual todas as decisões essenciais são tomadas por Alexis Tsipras, o que limita a influência dos militantes de base radicalizados. Isto facilita “os compromissos” com a oligarquia de Bruxelas e que vão contra as promessas da sua campanha eleitoral e que podem levar a uma perpétua dependência da Grécia face aos dirigentes e credores da EU .

Além do mais, Tsipras apertou a disciplina no partido ao dia seguinte ao da sua eleição, para se assegurar que nenhum compromisso duvidoso faria objecto de qualquer debate público ou de uma revolta extra-parlementar.

 (continua)

 

O assassinato da Grécia – por James Petra I

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