Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Por favor, Mister Lew não “diminua” Alexander Hamilton
Michael Pettis, Please Mr. Lew do not “diminish” Alexander Hamilton
Blog mpettis.com, 21 de Junho de 2015
O que podem possivelmente estar a pensar? Esta não é o tipo de tema sobre o qual escrevo normalmente, mas devo dizer que se eu tivesse alguma coisa a dizer sobre a matéria eu seria um forte opositor a que retirassem ou “diminuíssem ” Alexander Hamilton ”da nota de dez dólares”. Nunca foi presidente, naturalmente, mas somente George Washington e talvez Abraham Lincoln poderiam possivelmente ter mais direito em termos de lealdade e de gratidão no coração dos americanos do que Alexander Hamilton, e sendo certo que tudo isto é agradável de dizer (e é verdade) que o monumento a Alexander Hamilton são os próprios Estados Unidos, não há nenhuma questão em que podendo-se dizer que foi possivelmente o maior dos americanos, ele é de longe menos reconhecido como tal.
Pessoalmente pensei que Hamilton era facilmente reconhecido como o mais importante dos americanos ao consolidar e dirigir um grupo misto de colónias que se transformou finalmente nos Estados Unidos, até que eu li a biografia absolutamente brilhante de George Washington escrita por Ron Chernow, que me convenceu que Washington era mais do que um homem bem-intencionado, um patriota de compreensão um pouco lenta, o que sempre pensei que ele era, e cuja grandeza consistiu principalmente em reconhecer o génio de Hamilton e em conseguir levar os Estados Unidos até exactamente ao ponto em que se poderiam transformar numa monarquia ou numa verdadeira Democracia.
O livro de Chernow fez-me ver que Washington era bem mais do que isso. Washington era um líder surpreendente sem o qual, os EUA nunca poderiam ter sobrevivido e prosperado, mas o que isto tudo significa é que, se Hamilton não é tão claramente o maior de todos os americanos, então terá sido e estará entre os dois primeiros.
O maior inimigo de Hamilton foi Thomas Jefferson, um homem que eu estava habituado a desprezar pela sua hipocrisia. Ele exigia a liberdade para todos os homens, mas nunca chegou a libertar os seus escravos. Ele odiava os bancos e a dívida, mas mesmo assim passou toda a sua vida a pedir dinheiro emprestado, morrendo carregado de dívidas. Ele amava o homem comum robusto, mas sempre ou à distância ou quando esta robustez era utilizada utilmente no embelezamento de Monticello.
Enraivecido face à elite do nascimento era, no entanto, um aristocrata profundo que decidiu cair apaixonado por uma outra aristocrata – mais rica que ele, embora certamente isto seja apenas uma coincidência afortunada. Era um defensor impetuoso da revolução violenta, exigindo que tenhamos uma em cada vinte anos, porque, naturalmente, “a árvore da liberdade deve ser refrescada de vez em quando com o sangue dos patriotas e dos tiranos”, no entanto quando os Ingleses marcharam sobre Richmond, em Charlottesville, ou em Monticello, Jefferson, com uma tal astúcia e suavidade, geriu sempre as coisas de modo a nunca lá estar, embora ao contrário do muito mais estimável Macavity , se esquivasse às suas responsabilidades e se permitisse o acesso britânico à informação que certamente consideraram útil.
Como eu envelheci, suavizei as minhas opiniões sobre Jefferson que eram demasiado duras. Era um homem espantosamente brilhante em toda a sua malícia e hipocrisia, e eu reconheço que os Estados Unidos foram afortunados em terem um homem como ele. Há vinte anos atrás tinha o hábito de ir até uma grande livraria em Nova York e encontrava aí cerca de uma dúzia de livros e algumas vezes bem mais sobre Thomas Jefferson, e no máximo, encontrava um livro sobre Hamilton. Isso mudou muito, embora claramente não ainda o suficiente.
Com o avançar da idade e com a insistência do meu amigo Bruce Wolfson também aprendi a apreciar e a respeitar John Adams, um outro homem que detestava Hamilton e que enquanto Adams poderia ser mau para muita gente (o sucesso de Washington era devido principalmente por ter um belo rosto, por ter uma alta estatura, e pelo respeito dado às grandes fortunas) mas verdadeiramente odiava Hamilton, que ele rejeitava com o seu arrivismo snob como sendo “ esse rapagão mal-criado com ar de vendedor ambulante escocês.
A sua ambição, o seu desassossego e todos seus esquemas desproporcionados vêm, disso estou muito convencido, de uma superabundância das suas secreções, para as quais não poderia encontrar suficientes prostitutas para as absorver!
Sim, Hamilton pode ter tido uma fraqueza por jovens mulheres bonitas que tinham necessidade de ajuda, mesmo quando estas lhe queriam fazer chantagem, mas o verdadeiro pecado de Hamilton era o de pensar a corrupção como algo de bem mais grave que o adultério, o que confessou mais tarde a fim de dissipar boatos sobre a corrupção (os boatos foram espalhados alegremente por Jefferson e por Adams mesmo quando estes olhavam de sobrancelhas franzidas sobre quem quer que seja que falasse publicamente de imoralidade a propósito de Hamilton.
Mas o que é há sobre o próprio Hamilton – porque é que ele é o mais importante americano? É quase impossível acreditarmos na própria audácia da sua imaginação. Ele imaginava um Estados Unidos da América de uma forma que era altamente improvável e para além da razão naquela época e começou então a criar e de forma sistemática as condições que fizeram da sua espantosa visão uma realidade. Eu não posso sequer começar a descrever a grandeza deste homem, e sugiro que quem estiver interessado leia a biografia escrita por Richard Brookhiser de 2000 ou a biografia escrita por Ron Chernow de 2005, ou ainda a biografia de Willard Sterne Randall de 2014. Se eu tivesse que recomendar somente um livro penso que recomendaria Chernow, mas quem tenha vontade de estudar Hamilton este é uma fonte tão insaciável de interesses que penso ser difícil a escolha.
Para aqueles especialmente interessados nas políticas económicas de Hamilton, eu sempre gostei do livro Alexander Hamilton: A Biography (1982) de Forrest McDonald e naturalmente há também o brilhante Alexander Hamilton and the Constitution, de Clinton Lawrence Rossiter (1964). Também penso no que Charles A. Conant escreveu como biografia em 1901, que eu nunca li mas gostaria de ler.
Mas com excepção dos livros, está aqui a mais curta das listas das suas realizações e que nos leva a vê-lo como sendo o maior americano:
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Os Federalist Papers são na minha opinião o maior e o mais subtil livro americano de filosofia política e um dos maiores na história. Foi redigido num muito curto período de tempo por Alexander Hamilton, James Madison e John Jay, e dos 85 ensaios, 51 foram escritos por Hamilton e dois dos outros foram escritos muito provavelmente em comum por Hamilton e por Madison. É um livro verdadeiramente universal – eu recordo que há diversos anos atrás um dos meus estudantes chineses mais inteligentes na Universidade de Pequim começou a ler o livro e tornou-se obcecado completamente com o seu brilhantismo. Não era capaz de falar de outra coisa qualquer que ela fosse durante semanas a fio que não fosse de Hamilton.
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Porque era um prático e não um teórico, muitas pessoas não sabem que Hamilton estava provavelmente entre os doze grandes economistas do mundo. Foi ele que cunhou a expressão “infant industry” “indústria nascente” e certamente desenvolveu as bases do que mais tarde se tornou conhecido como “o sistema americano”, que se transformou na base não apenas do sucesso surpreendente da economia dos E.U. mas mais tarde foi codificado por Friedrich List e transposto directamente para o sucesso económico alemão e japonês, assim como ao de muitos outros países. Provavelmente a única e a mais simples explicação completa do pensamento de Hamilton mostra-se no seu brilhante Report on the Subject of Manufactures apresentado no congresso em 1791.
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Não satisfeito com o ser o economista mais brilhante de seu tempo, ele era igualmente talvez o nosso financeiro mais brilhante. Fundou o banco de New York em 1784, fazendo dele o banco mais velho na história dos E.U., e apresentou dois relatórios brilhantes do congresso conhecidos como First Report on Public Credit (January, 1790) and the Second Report on Public Credit (December, 1790), conhecido também por Report on a National Bank, que, entre outras coisas, criou o primeiro banco central dos E.U.
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A sua batalha mais feroz foi a de conseguir que o governo federal assumisse a dívida de pagamento pendente daqueles estados federados que não tinham reembolsado ainda as suas obrigações e vales American Revolutionary War . Unificando a fragmentação da dívida, simultaneamente restaurou o crédito americano (ironicamente o seu grande oponente nesta hipótese era Thomas Jefferson que era capaz de utilizar este crédito para financiar a compra de Louisiana, provavelmente o acto mais importante de Jefferson como presidente), criando uma base principal unificada, e reorientando a lealdade da elite das capitais de estados locais para a capital federal, assim quase que certamente garantia que o país não se quebraria imediatamente em pedaços.
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De todos os pais fundadores restantes somente Benjamin Franklin não era um aristocrata ou pelo menos não era classe alta ou classe superior. Hamilton, contudo, personificou o sonho americano, sendo nascido no mais baixo estrato possível da sociedade americana. Somente os escravos pertenciam a um mais baixo estrato social do que Hamilton pelo nascimento e nada disto melhorou as questões sobre a legalidade paterna. Foi o seu brilhantismo total que o fez partir de Nevis, onde nascera, para o King’s College em New York (rebaptizada Universidade de Columbia) onde se tornou assistente de George Washington, para acabar finalmente como primeiro secretário dos E.U. do Tesouro sob Washington (uma posição então mais aparentada ao primeiro ministro britânico) e tornou-se o mais importante advogado nos Estados Unidos, no seu tempo. A história de ascensão social e económica é parte da mitologia dos E.U., mas ninguém a exemplificou tão cedo e mais espantosamente do que Alexander Hamilton.
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Alexander Hamilton, como é bem conhecido, era totalmente contra a escravidão, mas a sua oposição não era nem teórica nem paternalista e, ao contrário de muitos abolicionistas, ele não tinha nenhum interesse em ajudar escravos a regressarem a África. Ele esperava que eles se tornassem cidadãos americanos plenos, exigindo que estes fossem armados durante a Revolução, porque esperava que estes desempenhem o seu papel na luta pela liberdade. Talvez porque, como um jovem, ele passou grande parte de sua vida a lidar com escravos libertos, Hamilton foi famosamente impaciente com a suposta inferioridade intelectual dos africanos e argumentava que as suas “faculdades naturais são provavelmente tão boas como as nossas.” Ele considerava igualmente que ” ensinaram-nos o desprezo para nos divertirmos com os negros, o que nos incita a gostar de muitas coisas que não são fundadas nem na razão nem na experiência.” Isso é típico de Hamilton. Como um homem prático, em princípio, ele estava perfeitamente disposto a aceitar qualquer argumento, incluindo o argumento de que algumas raças são inferiores às outras, mas ele precisava de provas. Nem a sua razão nem a sua experiência lhe deu essa prova.
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Depois da revolução, muitos dos mais importantes casos legais em que Hamilton se envolveu foram para proteger os direitos legais e de propriedade dos americanos que se tinham oposto à revolução e tinham apoiado os Ingleses. Durante a revolução parou uma multidão que queria linchar o presidente de King’s College, um conhecido simpatizante britânico. Hamilton nunca duvidou que direitos proclamados pelos americanos eram universais, e aplicado não apenas aos amigos mas igualmente aos “inimigos”. E se tudo isto não era ainda suficientes, ele arriscou destruir a sua amizade com Washington porque o general idoso considerou Hamilton demasiado útil como seu assistente para lhe permitir que realmente conduzisse um grupo de soldados numa luta. Por fim, Hamilton obteve a possibilidade de satisfazer o seu desejo, o que executou com uma bravura surpreendente.

