Já aqui comparámos o sentimento que prevalecia entre as esquerdas em Julho de 1936 e aquele que agora existe neste Verão de 2015. Em artigo publicado na edição online do Público, jornal diário espanhol, Vicenç Navarro, professor catedrático de Ciências Políticas da Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona, publica um artigo que devia merecer a atenção do PS – La traición de los gobiernos demócratas europeos a la España de 1936 y a la Grecia de ahora. O nosso editorial de hoje centra-se nesse texto Professor Vicenç Navarro.
«Uma das páginas mais ignóbeis dos governos europeus que se consideravam democratas nos anos trinta foi o seu Pacto de Não Ingerência perante o conflito civil que ocorreu em Espanha no periodo de 1936 a 1939. Esses governos negaram-se a ajudar as forças republicanas democráticas que lutavam contra o fascismo, mesmo sabendo que Hitler e Mussolini estavam a enviar armas para o lado golpista que procurava acabar com a II República. […] O que sucedeu sem que as chamadas democracias levantassem um dedo para ajudar os que lutavam em Espanha para a defender. […] Viu-se mais tarde, quando se tomou conhecimento dos fios que teciam aquele silêncio ensordecedor, que a passividade desses governos democratas (…) era consequência do medo que esses governos tinham de que as classes populares dos seus próprios países fossem contagiados pelo entusiasmo popular em Espanha e copiassem as medidas progressistas ali desenvolvidas durante a II República.[…] Tinham um medo pânico de que o entusiasmo reformador que despertara em Espanha pudesse contaminar os seus cidadãos. Ficaram calados perante a enorme agressividade contra as classes populares gregas por parte do capital financeiro e do seu instrumento, o Banco Central Europeu. Um quarto da riqueza do país foi destruída neste ataque, determinando uma enorme deterioração no bem estar da população – sem precedentes num país europeu em tempo de paz. […]Todo aconteceu como consequência de um plano (levado a cabo com êxito), de destruição de qualquer país que tente rebelar-se face ao austericídio que lhe está a ser imposto. A política de cortes imposta ao povo grego pela Troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI), bem como pelo Eurogrupo e pelo Conselho Europeu, redundaram num grande desastre. […] Porque estão impondo essa política que foram tão prejudiciais e ineficazes? Na resposta a esta pergunta encontramos muitos paralelismos entre o que aconteceu no período 1936-1939 em Espanha e o que está a passar-se agora na Grécia. Esses governos europeus temem que as suas classes populares sejam contagiadas pela situação grega, onde o governo Syriza disse “basta destas política” e exigem também o fim das medidas de austeridade que os governos europeus têm aplicado a cada um dos países da Eurozona, criando um grande mal-estar entre os seus povos. As forças políticas mais temerosas de que este contágio aconteça foram precisamente os partidos social-democratas, que foram cúmplices dos governos conservadores e liberais na implementação de tais medidas grandemente impopulares. […] Deste modo, estão destruindo a Europa social e democrática que os seus antecessores criaram (…)E é também o seu suicídio, pois o seu enorme declive eleitoral é devido precisamente ao seu comportamento durante estes anos em que foram abandonados os princípios de solidariedade e de compromisso democrático, que caracterizaram os governos antecedentes».
Não é uma posição com que concordemos inteiramente, em particular no que se refere à «bondade» dos governos liderados pelos PS. Mas, moderadamente, constitui um aviso que a social-democracia não devia desdenhar. É que muitas vezes se chama «realismo» ou «pragmatismo» ao que não passa de traição aos ideais que ornamentam os textos fundacionais dos partidos.
