A China propôs a criação de um novo banco – por Chems Eddine Chitou II

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

(conclusão)

 

O nascimento de um banco fora da hegemonia americana

Os chineses tornaram-se  os maiores credores da terra: uma reserva de mais de 3000 milhões de milhões de dólares em reservas de divisas.  Compram títulos do estado, mas também empresas privadas, hotéis, clínicas, monumentos históricos, quadros,  os castelos,  infra-estrutura (aeroportos, portos) etc. Agora, a China representa 15% da economia mundial e conquistou o segundo lugar à frente do Japão.

A China anunciou, ser doravante a primeira potência comercial mundial. Esta nunca considerou a União Europeia como um parceiro político de primeiro plano. E apesar da sua rivalidade com os Estados Unidos, considera que Washington é o único verdadeiro interlocutor sobre a cena internacional. Para o lembrar , os países ditos  Brics dos quais faz parte a China formam um bloco importante à escala mundial. O seu peso demográfico atinge 3 mil milhões de pessoas, quer dizer 42% da população mundial e o seu PIB representava em 2010, cerca de 14.000 mil milhões de USD, ou 18,5% do PIB mundial. As suas reservas de divisas são globalmente consideradas em  5000 mil milhões de USD, dos  quais  3200 mil milhões pertencem a  China.

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A China decidiu sair em pés de lã da órbita do dólar e do sistema de Bretton Woods. Sabe-se  que os Estados Unidos se opõem em vão à  nova potência ascendente do mundo, a China. Pelos investimentos que opera no mundo, a China torna-se quase um país depredador, sempre à procura de  bons negócios no mundo. E sobretudo com a sua política “ganhador-ganhador”, em que as negociações procuram sempre soluções favoráveis para os parceiros , e graças à sua mão-de-obra muito pouco dispendiosa, opera sobre  todos os continentes incluindo na Europa e aos Estados Unidos. Segunda potência do mundo desde 2010, detentora de mais  de 4000 mil milhões de reservas cambiais, a China, que começou a internacionalizar a sua moeda, o yuan, sabe que “o tempo trabalha a seu favor”. E os Estados Unidos disto estão  conscientes. Com base  numa  “verdade” que o dólar americano não pode continuar a ser indefinidamente a moeda-centro do mundo, a China visa ultrapassar a América e tornar-se a primeira potência económica, financeira e monetária do mundo.

A 17 de Março, em Pequim. Martin Schulz, o presidente do Parlamento europeu qualificou “de boa coisa” as adesões europeias ao banco asiático de infra-estruturas. Até esse dia, cerca de trinta países figuram nesta lista, entre os quais a Índia, Singapura, a Indonésia e a Arábia Saudita. Quando foi   lançado pela China em Outubro de 2013, o projecto de Banco asiático de investimento para as  infra-estruturas tinha feito vagas no mundo das organizações multilaterais. Era difícil não ver neste projecto “anti Bretton Woods” a vontade do presidente XI Jinping de afirmar e ver reconhecida  a potência chinesa no mundo das instituições multilaterais, hoje ainda largamente dominado pelos Americanos e pelos Europeus.

Enquanto que o prazo para as subscrições termina na  terça-feira 31 de Março de 2015 à noite, o Egipto anunciou, na véspera, segunda-feira 30 de Março de 2015, a sua decisão de se juntar-se ao Banco asiático de investimento para as infra-estruturas (BAII – AIIB). Tornar-se-á oficialmente a  14 de Abril de 2015 um membro fundador. A Turquia apresentou a sua candidatura na sexta-feira 27 de Março de 2015. O BAII deveria começar as suas actividades no final de  2015.

Os Estados Unidos lançam a esponja. Vão cooperar com o BAII

Segunda-feira 31 de Março, data limite  para apresentação  das candidaturas para se tornar  membro fundador do BAII, o secretário americano ao Tesouro, Jacob Lew, declarou que o seu país previa cooperar com o Banco asiático de investimento para as infra-estruturas. Este anúncio fez-se após uma entrevista de uma hora que M.Lew teve com o Primeiro ministro chinês Li Keqiang esta segunda-feira em Pequim, de acordo com o více-ministro chinês das Finanças Zhu Guangyao. M.Zhu confirmou, à Agência de imprensa Xinhua que o secretário americano do Tesouro desejava as boas-vindas à China para jogar um maior papel nos negócios económicos internacionais. É uma outorga de poder, uma passagem de poderes, para não dizer mesmo uma capitulação. Depois de  ter visto os seus aliados mais sólidos partirem, e um após outro, e juntarem-se ao projeto chinês, os Estados Unidos acabaram por  fazer uma constatação amarga; muito simplesmente foram ignorados e tratados como uma quantidade negligenciável neste negócio. Com ou sem eles o BAII far-se-á e o mundo inteiro, excepto o fiel Japão e alguns  pequenos satélites, estará lá para participar. O que fazer agora se não tentar jogar com os instrumentos que estão ainda na sua posse, o FMI e o Banco Mundial, com os quais o BAII terá a cooperar de uma maneira ou outra?

O Japão interroga-se sobre a sua participação no BAII. A administração Obama foi tomada de surpresa pelo alinhamento de   vários veículos pesados europeus (Reino Unido, França, Alemanha…) com este  este banco que conta já com cerca de trinta Estados-Membros, como a Austrália ou a Coreia do Sul e o Egipto. De resto, Seul tomaria 4 à 5% do Banco asiático de investimento. A França, a Alemanha e a Itália decidiram, após o Reino Unido, juntar-se  ao novo Banco asiático de investimento para as infra-estruturas. Esta decisão das três capitais europeias, é incontestavelmente um revés diplomático para os Estados Unidos. Constatando o seu  isolamento, os Estados Unidos começaram por  alterar a sua posição abrindo a porta à uma cooperação com o banco chinês.

Óh meu Deus, protegem-me dos meus amigos, dos meus inimigos; encarrego-me eu!

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Esta citação atribuída à Talleyrand ilustra de uma maneira perfeita, a perfídia  dos vassalos no que diz respeito ao império. “Era necessário efectivamente que isso  explodisse um   dia, lê-se no  jornal Le Monde, mas a deflagração partiu de onde não se esperava. A rivalidade entre os Estados Unidos e a China para a dominação económica do globo fez, no dia 12 de Março, um reviravolta surpreendente pela Grã-Bretanha que, enfrentando a fatwa de Washington, anunciou a sua intenção de  se juntar ao novo banco regional de desenvolvimento chinês AIIB como membro fundador. A reacção  dos Estados Unidos,  epidérmica e ligeiramente ridícula, não se fez de esperar. Um responsável americano, que se protegepor detrás do  anonimato, acusou Londres de estar  “em arranjos constantes com Pequim “, (…). Uma vez que os Britânicos, supostos manter uma relação privilegiada com os Estados Unidos, tinham aberto a brecha juntando-se ao AIIB, três outros grandes países europeus fizeram imediatamente o mesmo.”

É-se  por definição, escreve  Philippe Bernard, sempre traído pelos seus aliados, mas o golpe no entanto foi duro para Washington. Quinta-feira 12 de Março, o Ministro das Finanças, George Osborne, criou a surpresa anunciando a decisão de fazer do Reino Unido um membro fundador do Banco asiático de investimento para as infra-estruturas (BAII) que a China tinha lançado em Outubro de 2014. Juntar-se ao BAII representa “uma possibilidade sem equivalente para o Reino Unido e a Ásia de investirem  e de desencadearem em conjunto o crescimento”, felicitou-se M.Osborne.

A seguir a Londres, foram pois  Paris, Berlim e Roma que decidiram  juntar-se, no dia o 17 de Março ao Banco asiático lançado pela China, em Outubro de 2014. Paris, Berlim e Roma sublinham que o banco terá “vocação a trabalhar em parceria com os bancos multilaterais de investimento e de desenvolvimento existentes”.

Chems Eddine Chitour*, LA CHINE A PROPOSÉ LA CRÉATION D’UNE BANQUE – Le Déclin de Bretton. Abril de 2015. Texto  disponível em :

http://metamag.fr/metamag-2803-LA-CHINE-A-PROPOS%C3%89-LA-CR%C3%89ATION-D-UNE-BANQUE.html

*Professeur, Ecole Polytechnique enp-edu.dz

 

A China propôs a criação de um novo banco – por Chems Eddine Chitou I

 

 

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