A CANETA MÁGICA – Literatura grega moderna – uma bela odisseia – 3 – por Carlos Loures

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O 25 de Abril de q974 apanhou-me a meio da tradução do Diário de um Resistente. O nosso País estava mergulhado numa onda de entusiasmo e as manifestações de rua sucediam-se com uma agressividade crescente. E a Revolução em Portugal terá dado alento aos democratas gregos para acelerar o derrube da Junta Militar grega. Há dias, o Coronel Vasco Lourenço dizia que, com a alegria que o NÃO nos deu, os gregos estavam a pagar a dívida contraída para com os portugueses que, com a sua Revolução tinham ajudado a que na Grécia fosse derrubada Ditadura dos coronéis.

Em 21 de Abril de 1967 a Junta Militar assumiu o poder e, desencadeou uma onda de repressão fascista, dando lugar ao tal apelo de Mikis Theodorákis, cuja gravação comovera profundamente os amigos que em minha casa a escutaram. Constantino II, que subira ao trono em 1964, em 13 de Dezembro de 1967 fugiu do país na sequência de uma tentativa fracassada de contra-golpe, mas reinou de jure até 1 de Julho de 1973, dia em que a Junta Militar aboliu a monarquia e proclamou a República. O regime dos coronéis liderado por Georgios Papadopoulos foi escorraçado em Julho de 1974. No dia 8  de Dezembro desse ano foi empossado o governo da III República.

No Verão de 1974,  a situação grega, com notícias frequentes na televisão e na imprensa escrita,  pareceu boa altura ao editor para lançar o Diário de um Resistente. A edição francesa, da Flammarion, datava de 1971 e provocara alguma sensação. Theodorákis foi convidado a vir a  Lisboa, mas por qualquer motivo não lhe foi possível fazer a viagem e vieram três senhores que tinham trabalhado na edição francesa – dois gregos e um francês. Foi acordada uma mesa redonda na RTP com os três tradutores. O editor português, à última hora, delegou em mim a tarefa de participar no tal programa cuja gravação seria nessa tarde.

Apreensivo, pois o debate seria em francês e, num debate, não podia recorrer aos dicionários e gramáticas que me ajudavam nas traduções, rumei ao Hotel Tivoli onde estavam alojados os três visitantes. Esperavam-me, eram pessoas simpáticas e forcei  a troca de impressões para que o debate me apanhasse com o aquecimento feito. Quando íamos a cominho do Lumiar desabou uma tempestade de Verão sobre Lisboa, chuva diluviana a que os limpa-para brisas do meu Citroën não conseguiam dar vasão. Quando chegámos ao estúdios logo notámos a presença de bombeiros e um inusitado movimento. Anos antes, fora funcionário da RTP e o encarregado das Relações Públicas era um ex-colega. A tromba de água que se abatera sobre a cidade inundara os estúdios e, disse-me, provavelmente a gravação teria de ser adiada. Falei com os tradutores. Não podiam ficar em Lisboa. O programa ficou sem efeito. Voltámos ao Tivoli.

Fiquei agradecido a Zeus, chefe do executivo do Monte Olimpo, líder dos deuses e dos homens que com o cargo de primeiro-ministro, acumulava a pasta da chuva e o terrível poder do relâmpago. A tempestade representava a sua fúria – não aumentava os impostos – quando se zangava fazia desabar sobre os mortais cargas de água e trovões. Com diversas esposas e aventuras com deusas, ninfas e humanas, alguma destas senhoras o deve ter enfurecido. Foi uma graçola deste género que, no bar subterrâneo do Tivoli, com o verbo animado pelo alívio, debitei perante os colegas estrangeiros. Rimos e bebemos à saúde de Theodorákis e de Zeus.

 

 

 

 

 

 

 

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