Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Matt O’Brien, The 3 big questions about what happens next in Greece’s debt crisis
Washington Post, 6 de Julho de 2015
(CONCLUSÃO)
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3. Irá mesmo a Europa negociar com a Grécia?
Não é nenhum segredo que os dirigentes da Europa não gostam da Grécia. Não se criam garantidamente amigos na Europa, dizendo que a dívida da Itália é também insustentável ou que a Alemanha lhes deve ainda as reparações relativas à Segunda Grande Guerra Mundial. Não lhes chega saber que Varoufakis foi substituído – provavelmente não ajudará também o suficiente. É inteiramente admissível, como o disse Sigmar Gabriel, vice-chanceler da Alemanha, segundo o qual a Europa pensa que o primeiro ministro grego Alexis Tsipras “deitou abaixo a última ponte do acordo.” Nesse caso, Atenas teve aqui a mais clara e bem expressa ordem para adquirir aquelas máquinas impressoras.
Mas a Europa está a querer realmente atirar fora 60 anos de integração por causa de … da obtenção de cortes nas pensões de reforma em 2019 em vez de 2020 e de uns impostos mais altos sobre as receitas dos hotéis? Talvez não. A França e Alemanha solicitaram já uma outra cimeira na terça-feira, ou seja pelo menos há mais uma possibilidade para que os dois lados eliminem a simples e pequena diferença que os separa. Há uma possibilidade melhor, talvez, de que os líderes de Europa dêem ao BCE a aprovação para apoiar os bancos gregos e de estar ao lado deles em vez da enorme pressão que estão a fazer sobre os mesmos .
Porquê? Bem, é a dívida. O erro que a maioria de povos está a fazer é considerar que Syriza é apenas um partido da anti-austeridade. É, mas mais do que isso, é um partido pró-soberania. Ou seja, não quer que seja a Europa a dizer à Grécia o que deve fazer, assim, de modo nenhum. E essa confusão sobre Syriza existe e tem este contorno porque ele se centrou mais sobre a diminuição da dívida da Grécia, o que se fez passar como uma decisão altamente confusa, do que sobre querer reduzir a austeridade na Grécia.
É estranho dizer, mas a dívida da Grécia , uma vez chegados a este ponto, é o menos relevante, diremos mesmo, até sem nenhum sentido neste momento. É uma ficção contabilística mais do que qualquer outra coisa. As taxas de juro da Grécia são tão baixas e têm tanto tempo para reembolsarem os credores que o que se deve, os seus pagamentos, apesar de sua dívida ser de 175 por cento do produto interno bruto da dívida, são claramente geríveis e estes representam 2.6 do PIB. Isso é menos do que a Espanha ou a Itália ou Portugal estão a pagar. O problema maior, como Paul Krugman sublinha, são os cortes no orçamento que é suposto fazer. Porque a Grécia não pode amortecer o impacto económico dessas medidas, cortando nas taxas de juros ou desvalorizando a sua moeda, e o aumento de impostos e o corte nas despesas públicas de 1 por cento do PIB faria com que o PIB se reduzisse de 2 a 2,5 por cento. Isso é auto-destrutivo: mesmo que se tenha menos dívida, torna-se menos capaz de a poder pagar, porque o seu rendimento caiu muito com essa dita austeridade.
Mas algumas ficções contabilísticas têm um enorme poder, e a ficção da dívida da Grécia é um deles. Basta que cada um de nós se questione de como é que a Europa obrigou a Grécia a ir tão longe na austeridade até agora. Toda a Europa tem estado a fazer é dizer Hey, sabem que não podem pagar a vossa dívida ? Então, devem cortar um pouco mais no vosso orçamento para tentar pagá-la seja como for , e a Grécia não tem escolha senão fazer isso mesmo, se quer continuar no euro . Assim, apesar do que se pode ter ouvido, Syriza terá na verdade dito que iria fazer tanta austeridade quanto a Europa queria que fizesse, desde que o alívio da dívida fizesse parte do acordo. Atenas, por outras palavras, está disposta a dar à Europa o poder sobre o seu orçamento hoje, se é garantido que pode retomar parte desse poder amanhã. Mas isso não é o acordo que a Europa quer.
É o princípio de que se se cede uma coisa nunca mais acabarão as exigências[1]. [2]Veja-se, é como se a Europa pensasse que a Grécia não iria cumprir as suas promessas orçamentais se não estivesse sob a constante ameaça de incumprimento. E, mais ainda, a Europa está preocupada com o medo de que se recompense a Grécia por ter desafiado o status quo dos cortes orçamentais, em seguida, é a Espanha, depois a Itália e a seguir Portugal a quererem também a mesma coisa e tudo isto ficaria então muito caro. Não importa, nem se fale disso[3], que a Irlanda tenha unilateralmente feito este mesmo tipo de acordo sobre a dívida – trocando títulos de alta taxa de juro por títulos de baixas taxas de juro – o que a Grécia deseja agora. Ou o que a Europa prometeu, seria de que iria pensar sobre a possibilidade de cortar mais dívida da Grécia depois do primeiro corte que fizeram em 2012. Ou até mesmo o Fundo Monetário Internacional terá dito que era necessário uma redução de 30 por cento da dívida da Grécia para que a situação e a dívida ficasse numa trajectória sustentável. (Embora se possa considerar que Syriza terá aqui a sua parcela de culpa[4], uma vez que o FMI acredita que a dívida teria seguido a sua trajectória correcta se esta última crise não tivesse levado a economia grega a entrar em recessão novamente). A linha de fundo, porém, é que a Europa não confia suficientemente na Grécia para desistir de seu poder sobre a Grécia, por isso provavelmente não haverá qualquer acordo da dívida.
Não só isso, mas a Europa não se sente com a obrigação de ter que chegar a um acordo com a Grécia, de modo nenhum. O primeiro “resgate” grego terá sido resgate na medida em que com ele se canalizou o dinheiro do governo grego para os bancos franceses e alemães que tinham emprestado dinheiro aos gregos, levando-os a ficarem expostos ao risco de perda se houvesse um incumprimento. E o BCE começou a comprar títulos da dívida pública de outros países e prometeu comprar muitos mais, tantos quanto fosse necessário para manter os seus custos de empréstimos em valores baixos, impedindo que se espalhe qualquer situação de pânico se espalhe. De facto, as taxas de juros mal subiram em Espanha ou em Portugal, apesar de realmente a Grécia pode sair do euro. Parece que o BCE tem conseguido manter os problemas da Grécia na Grécia- o que é talvez o seu maior problema quando se tratar de negociar a sua posição.
A Grécia poderá ter inventado a Europa, mas a Europa pode pensar que, aconteça o que acontecer, não precisa da Grécia
Matt O’Brien, Washington Post, The 3 big questions about what happens next in Greece’s debt crisis, texto disponível em:
Matt O’Brien is a reporter for Wonkblog covering economic affairs. He was previously a senior associate editor at The Atlantic.
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[1] Em inglês: It’s the If-You-Give-A-Mouse-A-Debt-Writedown principle.
[2] No original If-You-Give-A-Mouse-A-Debt-Writedown principle. A expressão If you give a mouse vem do livro destinado a crianças If You Give a Mouse a Cookie e diz-nos Wikipédia que se trata de uma obra para crianças com uma estrutura circular : “ A boy gives a cookie to a mouse. The mouse asks for a glass of milk. He then requests a straw (to drink the milk), a mirror (to avoid a milk mustache), nail scissors (to trim his hair in the mirror), and a broom (to sweep up his hair trimmings). Next he wants to take a nap, to have a story read to him, to draw a picture, and to hang the drawing on the refrigerator. Looking at the refrigerator makes him thirsty, so the mouse asks for a glass of milk. The circle is complete when he wants a cookie to go with it.”
[3] Lamentavelmente, o facto a que aqui se alude mostra a cobardia dos políticos europeus, para não dizer mais. Um golpe da Irlanda, silenciado por tudo o que é lado, um golpe que devia ser estendido a todos os países em dificuldade. Em vez disso, o silêncio total. Da imprensa nem uma linha, dos políticos nem uma palavra. O medo e a subserviência a Bruxelas (e ainda as compensações?) assim o impõe. Sobre o tema Irlanda e o golpe, veja-se o nosso artigo: História de uma noite fria em Dublin, comentários sobre uma história de encantar, publicado em A Viagem dos Argonautas em 8 de Abril de 2013.
[4] Impressionante, o peso da mentira. A afirmação do FMI é falsa, mostrá-lo quando criticámos The Economist, mas quem se lembra de ir confrontar a realidade com os números do FMI? Ninguém acredita que uma Instituição como o FMI se atreva a uma mentira destas, facilmente desmontável, só para acusar Syriza de ter levado a Grécia à recessão. O mal seria então o povo grego ter votado Syriza. Inacreditável. Simplesmente, o PIB da Grécia estava já com crescimento negativo no quarto trimestre de 2014! Assim se percebe o engano de Matt O’Brien que naturalmente não colocou em dúvida os dados do FMI! Os dados de Eurostat mostram o seguinte:




