Grécia: um gosto a cinzas – por Jérôme Léroy

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Nota Introdutória

Grécia: um certo gosto a cinzas, um título que diz tudo sobre os fantasmas que agora percorrem a Europa, fantasmas que nos vêm dos anos 30 e 40 do século passado. Munique e Auschwitz-Birkenau são realidades de suporte ao presente texto, daí a sua força, que se aplicam à situação da Grécia, da Alemanha e da Europa de ontem e de hoje, igualmente.

Júlio Marques Mota

 

Grécia: um gosto a cinzas

A felicidade uma ideia morta na Europa

 

Jérôme Léroy, Revista Causeur.fr

Que a Grécia se tenha submetido ou não, não é aqui esta a verdadeira questão.

A questão é a de se saber quantos simples cidadãos europeus se terão apercebido desde há alguns dias, apesar da onda de propaganda e de falsificação do real, de que não vivemos, ou deixámos de viver, numa democracia.

Que uma estrutura supranacional não eleita decida a partir de agora do nosso futuro nos seus mais pequenos aspectos, mesmo sobre os mais anódinos.

Que esta política possa, se tal se pensa na ocasião, ser efectuada com uma brutalidade incrível ainda que na maior parte do tempo, esteja escondida.

Que esta política seja efectuada no interesse exclusivo de alguns grandes grupos capitalistas cada vez mais concentrados.

E o que acabo de escrever não é, infelizmente, fruto da paranóia ou o plano de um romance distópico.

Não, porque isto é a nossa realidade, aqui e agora.

É o número destes cidadãos, pois, que têm tomado consciência desta aberração, que irá desenhar os contornos do nosso futuro.

À esquerda, tem-se finalmente o costume destas derrotas. Esta, diz respeito a toda a Europa dado que Tsipras parece ter falhado, pelo menos de momento, a reorientar este monstro frio num sentido mais social. Era a nossa diferença fundamental com os soberanistas e ainda mais com as extremas direitas, ainda que os editorialistas complacentes e mesmo um ministro da Economia franceses tenham encontrado práticas (e é bastante vil, como tudo o que é pratica de manipulação) de nos confundir com eles (Tsipras e a FN, é a mesma coisa, não é?) na denominação vaga mas definitivamente desqualificante de vermelho-castanho.

À direita, nos meus amigos soberanistas que acreditaram nisso, a linha de força é ainda mais complicada de ser seguida sem se arriscar a ser confundido com nacionalistas xenófobos. Será ainda mais desonesto, porque tudo isso confirma as suas análises sobre o carácter intrinsecamente monstruoso desta Máquina, deste Blob que inscreveu um certo tipo de política no mármore das suas constituições escondidas, como no seu tempo se fez na URSS.

E mais do que encontrar analogias históricas às vezes duvidosas entre Tsipras e os bolcheviques, porque não sublinhar uma outra, mais exacta e mais impressionante: esta noite, fez-se entrar “um país irmão” na ordem liberal como se tinha feito entrar – em Budapeste, Praga ou Varsóvia – outros irmãos na ortodoxia soviética.

Há qualquer coisa de Dubcek em Tsipras finalmente. Acreditou que se podia reformar a Besta , dar-lhe um rosto humano. Não lhe responderam com tanques, mas responderam como se assim fosse. Com efeito, é a mesma coisa, mas além disso hipócrita: havia uma escolha a fazer entre sofrer muito e sofrer de maneira insustentável.

Com estas caixas absolutamente vazias, estes guichets a seco, a crise humanitária ainda lancinante ameaçava ficar de tal forma dura que os representantes dos credores se propunham eles mesmos, na sua infinita generosidade, uma ajuda humanitária no caso “da blocagem do euro”. Um pouco como no caso de tremores de terra, as catástrofes naturais, veja-se…

Mas por último, excepto erro da minha parte, o que aconteceu à Grécia, é o que acontece em geral a todos os países confrontados com uma crise financeira, não é “natural”, não é como se não se pudesse fazer nada! Há homens por detrás das decisões de reduzir os salários, de desmontar os serviços públicos, de emprestar ou de não emprestar dinheiro, e a que taxa o farão. E, no entanto, seria necessário, Grego ou não, aceitar tudo isto como a cólera de Deuses remotos.

Que os meus amigos das duas margens que se sentem amargos esta manhã saibam por conseguinte que sofrerão sempre menos que o cidadão grego, que deverá fazer cara de ser feliz por ter escapado ao Grexit, tendo como a horizonte inultrapassável  a austeridade. Mas, uma vez que na opinião do humorista Wolfgang Schaüble, um Grego ou um Porto-riquenho é a mesma coisa…

Então, felizes cidadãos das democracias da União europeia, durmam descansados porque a ordem reina em Atenas.

Quanto ao resto, como o diziam os famosos os apresentadores de uma emissão americana no tempo do Macartismo que não sabiam se estariam ainda no programa no dia seguinte: “Good night… and good luck! ”

Jérôme Léroy, Revista Causeur.fr, Grèce: un goût de cendres- Le bonheur est une idée morte en Europe. Texto disponível em :

http://www.causeur.fr/grece-crise-tsipras-euro-33801.html

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