A IDEIA – André Breton, Libertário e Automatista – 4 -por António Cândido Franco

ideia1Depois da tranformação de Le Libertaire em Le Monde Libertaire, a colaboração de Breton com a imprensa libertária diminui, se bem que ainda na década de 50 alguns outros momentos – a invasão soviética da Hungria, a guerra da Indochina, a guerra argelina – voltem a fazer cruzar o itinerário de Breton com o dos anarquistas franceses. Para essa diminuição muito contribuiu a publicação de duas revistas surrealistas novas, duas das muitas que o surrealismo francês criou, Médium (53-54) e Le Surréalisme Même (56-57), e nas quais Breton empenhou muita da sua energia. A colaboração de Breton com a imprensa libertária conhecerá ainda porém um episódio digno de registo. Em 1957, o velho anarquista francês Louis Lecoin, então com sessenta e nove anos, decide mobilizar-se para obter um estatuto para os objectores de consciência. Desde o comício de 1949, em que Breton estivera presente, que a situação se mantinha. Nenhum estatuto, nenhuma protecção, nenhum cuidado. Em caso de objecção, a única alternativa era o cárcere. Havia então uma centena de encarcerados, grande parte Testemunhas de Jeová. Lecoin vendeu os bens e reuniu donativos para fundar um hebdomadário, chamado Liberté, que foi lançado no princípio de 1958, cuja finalidade era tirar da prisão os objectores e obter um estatuto legal que os defendesse. Com o jornal, Lecoin criou um comité de socorro aos objectores de consciência, em que Breton colaborou. A campanha teve peripécias, imaginação e vitórias estimulantes, como a libertação ainda em 1958 de nove encarcerados. Conseguiu por fim obter o estatuto, mas só ao fim de cinco anos, em 1963 e depois duma greve da fome que durou mais de vinte dias e que deixou Lecoin, aos setenta e cinco anos em estado de coma. Conhecem-se duas intervenções de Breton no processo: primeiro, a alocução que fez num dos comícios a favor dos presos, a 5 de Dezembro de 1958, sala Mutualité, Paris, e que foi dado à estampa no jornal de Lecoin; segundo, o curto texto que escreveu, durante a greve da fome do anarquista, que ficou inédito durante muitos anos – só foi dado à estampa em 2008 – e de que ficaram duas versões manuscritas. Também estes dois textos merecem tradução integral em português, que aqui, pela sua dimensão, não podemos restituir. Em seu lugar deixamos extractos ilustrativos.

Do primeiro, um longo texto, no género da alocução em favor dos sindicalistas da C.N.T., escolhemos um período, em que Breton discorre sobre a consciência. Assim: A consciência, essa força individualista, sim, por excelência libertária, que em presença de tal ou tal situação nos introduz, isto se o caminho não estiver impedido por nossa culpa, no mais secreto de nós mesmos e nos impõe de nos empenharmos contra aquilo que temos por escândalo; a consciência, é aquilo que nos une à vocação do homem, a única que em última visão podemos tomar por sagrada: a de nos opormos, sem olharmos às consequências para a nossa pessoa, a tudo o que atenta à mais profunda dignidade da vida. Do segundo – que serviu talvez a Breton para prestar, junto da imprensa, apoio ao jejum de Lecoin, e inédito ficou até à publicação das obras completas (Gallimard, 1988-2008) – tiram-se alguns períodos. Estes: Que o maior erro (…) dum revolucionário seja o de ultrapassar a idade de cinquenta anos, eis o que (…) Lenine confiou a Trotsky (…). / (…) / Foi todavia além desses limites que Louis Lecoin, mais exigente do que nunca, tomou em mãos o triunfo da causa que fez sua. Sacrificara já doze anos de liberdade. Muito abalado (…) pelo desaparecimento da sua companheira, o seu primeiro gesto (…) foi o de se dar por inteiro a esta causa. Data desse momento a fundação de Liberté, jornal “social, pacifista, libertário”, no qual os seus amigos bem sabiam que ele iria empatar todos os seus magros haveres. Mas ali estava um imperativo absoluto: agir de tal modo que o caso dos objectores de consciência pudesse ser reconsiderado, arrancando-os de vez às enxovias e dando-lhes um estatuto que os livrasse da obrigação militar em troca dum serviço civil./ No curso dos cinco anos de existência do jornal sabe-se que muitas promessas apareceram. Seriam para cumprir? Para duvidar era preciso não ser Louis Lecoin, quer dizer, o desinteresse e a generosidade em pessoa. (…) / De decepção em decepção, chegou porém o dia em que a fé na palavra dada deixou de ser suficiente. Foi quando a amnistia ousou dizer o seu nome (…) que Lecoin compreendeu que o mais verosímil era os objectores ficarem de fora, pese embora a amnistia se estender aos piores criminosos. Diante duma tal negação da justiça, não lhe restou senão escutar a voz interior que lhe ordenava que se empenhasse na prossecução do seu fim sem olhar a custos. / (…) /.

Não quero fechar sem referir um derradeiro episódio sobre as relações de Breton com o anarquismo francês. Tem lugar em 1923, dez anos depois da manifestação do Pré-de-Saint-Gervais, cujos lábaros negros serão mais tarde recordados na Gaspésia, lado a lado com a impressiva leitura na brancura da infância duma lápide libertária (por certo dalgum velho communard ali enterrado). O ano de 1923, se não é o do parto do surrealismo, faz ao menos parte da época que marcou o seu nascimento. Em 22 de Janeiro desse ano a anarquista Germaine Berton assassinou o monárquico Marius Plateau, secretário da Action Française, o que levou de imediato à sua prisão. O evento agitou o grupo que se reunia em volta da revista Littérature (1919-24), no seio da qual se desenvolveu o surrealismo, provocando nele vivas discussões. Por fim, no momento do processo, em Dezembro, o grupo, picado por Breton, toma posição clara a favor da incriminada, levando-lhe à saída do tribunal um cesto de rosas e cravos vermelhos, acompanhados dum cartão com os seguintes dizeres: A Germaine Breton, que fez aquilo que nós não soubemos fazer. Um ano mais tarde, a 1 de Dezembro, no primeiro número da revista La Révolution Surréaliste, que substitui Littérature, cujo derradeiro número aparecera em Junho, Germaine Berton será um dos motivos fortes de celebração do imaginário surrealista inicial, que nela verá a encarnação da revolução e do amor.

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