A Liberdade, a cultura, a democracia e a justiça social são as nossas paixões.
Depois da tranformação de Le Libertaire em Le Monde Libertaire, a colaboração de Breton com a imprensa libertária diminui, se bem que ainda na década de 50 alguns outros momentos – a invasão soviética da Hungria, a guerra da Indochina, a guerra argelina – voltem a fazer cruzar o itinerário de Breton com o dos anarquistas franceses. Para essa diminuição muito contribuiu a publicação de duas revistas surrealistas novas, duas das muitas que o surrealismo francês criou, Médium (53-54) e Le Surréalisme Même (56-57), e nas quais Breton empenhou muita da sua energia. A colaboração de Breton com a imprensa libertária conhecerá ainda porém um episódio digno de registo. Em 1957, o velho anarquista francês Louis Lecoin, então com sessenta e nove anos, decide mobilizar-se para obter um estatuto para os objectores de consciência. Desde o comício de 1949, em que Breton estivera presente, que a situação se mantinha. Nenhum estatuto, nenhuma protecção, nenhum cuidado. Em caso de objecção, a única alternativa era o cárcere. Havia então uma centena de encarcerados, grande parte Testemunhas de Jeová. Lecoin vendeu os bens e reuniu donativos para fundar um hebdomadário, chamado Liberté, que foi lançado no princípio de 1958, cuja finalidade era tirar da prisão os objectores e obter um estatuto legal que os defendesse. Com o jornal, Lecoin criou um comité de socorro aos objectores de consciência, em que Breton colaborou. A campanha teve peripécias, imaginação e vitórias estimulantes, como a libertação ainda em 1958 de nove encarcerados. Conseguiu por fim obter o estatuto, mas só ao fim de cinco anos, em 1963 e depois duma greve da fome que durou mais de vinte dias e que deixou Lecoin, aos setenta e cinco anos em estado de coma. Conhecem-se duas intervenções de Breton no processo: primeiro, a alocução que fez num dos comícios a favor dos presos, a 5 de Dezembro de 1958, sala Mutualité, Paris, e que foi dado à estampa no jornal de Lecoin; segundo, o curto texto que escreveu, durante a greve da fome do anarquista, que ficou inédito durante muitos anos – só foi dado à estampa em 2008 – e de que ficaram duas versões manuscritas. Também estes dois textos merecem tradução integral em português, que aqui, pela sua dimensão, não podemos restituir. Em seu lugar deixamos extractos ilustrativos.