Numa entrevista ao jornal belga Le Soir, o presidente da Comissão Europeia disse que Portugal, Espanha e Irlanda não quiseram discutir o alívio da dívida grega antes das eleições que vão ocorrer nestes países no próximo outono. Por cá Passos Coelho disse que Jean-Claude Juncker estaria a fazer “alguma confusão”, que o solicitado pelos três países teria sido que a discussão ocorresse após a primeira avaliação do novo resgate, caso esta fosse positiva. Foi prontamente reforçado por Cavaco Silva, preocupado em defender o seu primeiro ministro (e também candidato) favorito. Será de referir que Juncker mencionou ainda na entrevista que, ao longo das negociações, 6,7 ou 8 países terão afirmado encontrar-se em pior situação que a Grécia.
Todos estamos conscientes de que nas campanhas eleitorais que se avizinham (a verdade é que já começaram, pelo menos aqui em Portugal) a Grécia vai ser muito falada. Espera-se que se consiga entretanto falar de Portugal, cujos problemas são também bastante graves, a começar pelo desemprego, continuando pela dívida e chegando à produtividade, este último tema, muitas vezes referido, mas pouco explicado. Por cima deste panorama, paira o fantasma da União Europeia, que, para muita gente, era suposta, aqui há umas duas décadas, ir de vento em popa, mas cuja “integração” parece ter encalhado definitivamente, tecnicamente, por causa do sistema bancário, que tem arruinado os países “integrados”, com a excepção, claro, da Alemanha.
A discordância entre Passos Coelho e Juncker é evidentemente apenas um incidente de percurso, que, só por si, não causará qualquer conflito institucional. Mas é mais um sintoma da pouca solidariedade entre as nações, sobretudo entre as pequenas nações. A reunificação da Alemanha desequilibrou profundamente as relações entre os países “candidatos” à integração, reforçou o nacionalismo germânico, e imbuiu ainda mais os alemães, e também alguns dos seus vizinhos, de um sentimento de superioridade sobre as outras nações. As afirmações de Juncker, aparentemente para dar uma explicação do atraso das negociações sobre a dívida grega, levam, ao fim e ao cabo, a acirrar as relações entre os países mais pequenos e periféricos, afastando-os da ideia de uma frente comum perante um problema que os devora. A resposta de Passos visa sobretudo tentar salvaguardar a sua imagem. Por cima disto tudo, a iniciativa de Hollande, propondo lançar um directório de países fundadores e instituições próprias para a zona euro, se algum dia se concretizasse, seria obviamente um desastre ainda maior.
Apresentamos alguns links para notícias sobre o assunto:
http://www.publico.pt/politica/noticia/a-meia-verdade-e-meio-malentendido-1702832
http://observador.pt/2015/07/22/as-frases-mais-inesperadas-da-entrevista-de-jean-claude-juncker/
(só acessível a assinantes)


A pouco e pouco, por isto e por aquilo parece-me que o Sr. Juncker, se vai revelando não ser a pessoa ideal para o cargo, será aquilo a que chama-mos uma língua de trapos