~ Os caracóis estão uma maravilha, mas têm um pouco de orégãos a mais – disse eu
– Oregos – corrigiu o Titaúcha.
Estávamos a contas com uma tachada de caracóis na casa de praia do Jerónimo, o Marreco. É uma casa construída com materiais “recuperados nas obras” – ou, numa leitura mais aprofundada, “materiais roubados”.
Há um enorme cartaz no local a dizer que são arribas protegidas, mas o Marreco, não é esquisito, e não se importou. A GNR já lá esteve e foi atendida pela esposa do Marreco, Soraia, a Mamuda, que trazia o Fábio, o Ranhoso, pendurado ao colo e fez uma cena a preceito. Está muito habituada a tratar com a autoridade, pois tem uma banca de roupas da Gucci, made in China, na Feira de Carcavelos e outra na Feira do Relógio. Gente de massa. Mercedes topo de gama e por aí fora…
Comíamos os caracóis e bebíamos cerveja, quando o anfitrião se saiu com a pergunta. «Vocês já ouviram falar no triângulo das Bermudas?» O Marreco que anda a deitar as vistas para uma ampliação do negócio e já obrigou o pessoal a tratá-lo por «senhor doutor Jerónimo», está numa imersão total em banho de cultura – lê os suplementos do 24 Horas de fio a pavio. A Marisa, ou seja, a Zarolha (tem o globo ocular esquerdo mais saliente do que o direito), que é a companheira do Julião (o Titaúcha), entrou numa de humor – que, sim, tinha um triângulo escondido pelas bermudas, mas que isso era entre ela e o marido e que os triângulos de cada uma não eram para ali chamados, nem era conversa que se tivesse à fente de senhoras…
O Miguel (o Delicado) quis fazer-se engraçado olhou à volta e perguntou onde é que estavam as senhoras. A minha Ema, (referida como a Jibóia quando não está presente), perguntou-lhe o que é que um tipo que pega de empurrão sabe sobre senhoras. O Delicado engoliu em seco e pediu desculpa. Pouco habituado a discriminações, comentou em voz sumida:
– “Querida, hoje estás muito homofóbica”.
– Homofónica é a tua prima – rosnou a minha Ema.
E a coisa ficou por ali, pois ela estava já a levantar a mão e não se ensaiava nada para o colocar em órbita. O tom humilde amansou-a. O Marreco foi buscar o artigo sobre o triângulo das Bermudas. Leu as tretas do costume – barcos e aviões desaparecidos, a quarta dimensão, o Einstein, a Atlântida, rebéu, béu …E a versão simples – “campos magnéticos, flatulências provocadas por bolsas de gás metano do fundo do oceano…”
A Zarolha riu, “a mim também me acontece essa da flutulência, mas é só quando como fritos”. O Titaúcha saiu-se com uma graça – …. “Deve ser o cheiro que fica a flutuar que provoca anormalias no ambiente – a defenestração da Amazónia e o buraco na camada de azoto”.
Eu, o Cegueta, disse: “o Victorino d’Almeida, no Coca-Cola Killer fala numa entrada para o triângulo das Bermudas – um urinol no Príncipe Real…” Ninguém ligou. As leituras já me valeram comparações com o Delicado que, entre outras coisas, também gosta de ler. Não fosse a Ema, o seu génio e corpanzil, servirem-me de certificado de virilidade, já tinha havido bronca.
O Marreco queria continuar a falar no Triângulo. Mas o Ranhoso, que ainda não falava, apareceu com um penico velho que encontrou nas moitas e disse “– Han- hun – han”. A Mamuda que teima que o Ranhoso já diz tudo, traduziu – “pois, amor, é uma prenda para a mamã”. E disse que era bom para pôr uma planta. O Marreco fez uma nova tentativa. Mas a minha Ema disse com ar sonhador…”São mistérios”. A Zarolha entrou na onda – “pois, o universo e isso…” e perguntou para o Marreco: “Amor, como é que se chamam aquelas saloias em madeira que comprámos em Moscovo, as que entram umas dentro das outras?
– “Fufas? – ajudou o Delicado, mas ninguém lhe deu troco.».
– Matrioskas». Disse eu.
– Isso! Pois para mim o universo é assim, uma matriposca ou uma merda dessas – uma cebola…»
O Marreco perdeu a esperança de continuar o tema do Triângulo. Com um palito entre os dentes disse para si – «descobrisse eu onde era… negócio do caraças. Barcos, aviões…» A Ema repetiu, com ar ausente, «são mistérios…» A Zarolha passou a certidão de óbito ao colóquio – «Há coisas que é melhor nem aperfundarmos!”
O Titaúcha, com ar sonhador. – Dass! Ele é cá com cada mistério!
A coisa ficou por ali. Podia ter sido pior.
Eu comentei – “Estas conversas filosóficas provocam-me cãibras nos miolos…
– Câmbrias – corrigiu o Marreco.
A noite caiu e viemos cá para fora gozar o fresco. O Ranhoso adormeceu e a Zarolha começou a cantar um fado. A Mamuda e a minha Ema juntaram-se-lhe, depois o Miguel.
Em breve todos cantávamos.
