FARÁ SENTIDO COLIGIR E ENSINAR UM NOVO CANCIONEIRO GALAICO-PORTUGUÊS? QUESTIONA DOMINGOS MORAIS

Esta é a pergunta de que parte Domingos Morais[1] para fazer uma proposta de trabalho com crianças. Fiquemos hoje com a sua introdução.

As pessoas estão contaminadas por um gosto que lhes é fornecido, que lhes é imposto, e fixa na verdade as preferências da maioria. Torna-se urgente reagir, contribuir para uma higienização desse gosto.

José Afonso, Dezembro de 1970[2]

Iluminura das Cantigas de Santa Maria, de Afonso X, o Sábio, rei de Leão e Castela.

 1 -Em jeito de apresentação…

A canção de texto tem, na história comum do Brasil e de Portugal, um papel fundamental na difusão da língua, da poesia, do modo próprio de contar o que nos sensibiliza. Uma canção vale mais do que mil palavras. E cria imagens que marcam gerações e mudam a nossa percepção do Mundo e da Vida.

No tempo em que os Humanos falavam, ou cantavam quando tinham algo para dizer ou contar, as palavras conheciam os caminhos da memória dos que as sabiam de cor. Era a lenta decantação das ocorrências pelo filtro das representações, afectos e valores dos contadores de histórias, cristalizados em versos, cantigas e romances. Nas folhas penduradas em cordéis por feiras e romarias vendiam-se, por algumas moedas, feitos e fados acontecidos ou por acontecer. Ou inventados com mestria porque a realidade sempre ultrapassa o que se imagina. Músicos ambulantes teciam dessa forma os fios virtuais da comunicação directa com o povo que deles dependia para dar sentido ao passar do tempo e ao imaginar de outras vidas.

Mas como a água, que sempre faz o leito para chegar ao mar, esses jograis do nosso tempo, herdeiros dos “cantores de cordel”, estão a criar um Novo Cancioneiro e reencontram nos palcos, na rua e agora, também, nas virtualidades internéticas, os atalhos que precisam para projectar as suas vozes e gestos e nos sensibilizarem com as suas histórias. Edições cuidadas permitem conhecer o seu trabalho que pode agora fazer parte dos repertórios de qualidade dos grupos musicais e dos programas e propostas formais e informais de fruição musical.

2 – … um desafio em três andamentos

«Há que restituir ao povo a sua música. Há que restituir-lha por dever e por necessidade: por dever humano e por necessidade estética. Por dever humano, porque a música é um bem comum, uma riqueza que por todos deve ser partilhada, uma eucaristia que todos têm o direito de comungar; e por necessidade estética, porque, desde sempre, e sobretudo nas épocas de crise, a música se foi retemperar nas fontes vivas da arte popular do perigo que corria de se esterilizar no afinamento extremo dos meios técnicos e especulativismo das questões teóricas, com prejuízo da verdade, da força e da humanidade da sua mensagem».

(Fernando Lopes-Graça, 1941)

Desenvolveremos o assunto noutro momento.

1 -Membro do IELT (Instituto de Estudos de Literatura e Tradição) da Universidade Nova de Lisboa. Professor, de 1975 a 1987, na Escola Superior de Educação pela Arte do Conservatório Nacional.  Investigador convidado do Museu de Etnologia de Lisboa de 1982 a 1992 (Centro de Estudos de Antropologia Cultural e Social do IICT e Serviço de Educação), onde colaborou, nomeadamente, com Ernesto Veiga de Oliveira. Benjamim Pereira,  Margot Dias e Gerhard Kubik. Fez parte, com Michel Giacometti, da Comissão Instaladora do Museu da Música Regional Portuguesa (1987 a 1990) e da Linha de Acção de Recolha e Estudo de Literatura Popular Portuguesa do INIC, a convite de Manuel Viegas Guerreiro (1987 a 1991). Consultor científico da Westdeutscher Rundfunk Kolnn no projecto de recolha de música popular daquela estação de rádio alemã em Trás os Montes e Lisboa (1985) e nos Açores, nas ilhas de S.Miguel, Santa Maria, Terceira e Flores (1987). Membro do Conselho Consultivo do IPPC – 5ª secção, Etnologia, de 1985 a 1990. De 1991 a 1999, Assessor do Serviço de Animação, Criação Artística e Educação pela Arte – ACARTE da Fundação Calouste Gulbenkian (1990 a 2000), Professor na Escola Superior de Educação de Lisboa (1993 a 2001) e na Escola Superior de Teatro e Cinema (2001 a 2011). Consultor científico do Serviço de Cooperação com os Novos Estados Africanos da Fundação Calouste Gulbenkian, nomeadamente nos projectos de Reforma Educativa da Republica de Cabo Verde (Ensinos Básico e Secundário) e no projecto de Consolidação dos Sistemas Educativos de Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique e S. Tomé e Príncipe (1992 a 2001). Sócio fundador da Associação Portuguesa de Musicoterapia (1996), do Centro de Estudos João dos Santos (1992), da Associação Portuguesa de Animadores Culturais (1976) e da Associação Portuguesa de Educação Musical (1973). Criou e dirigiu os grupos corais do Fundo de Fomento da Habitação, da Cooperativa Era Nova e da Biblioteca Operária Oeirense e participou enquanto coralista e maestro nos Coros da Academia de Amadores de Música, com Fernando Lopes Graça e no Coro da Juventude Musical Portuguesa, com Francisco de Orey. Professor de música na Cooperativa A TORRE de 1974 a 2015. É autor de livros e artigos sobre educação artística, etnomusicologia e desenvolvimento curricular e de música para cinema, teatro e televisão.
[2] Entrevista a Cáceres Monteiro e Daniel Ricardo, in «A Capital», 26/12/70

1 Comment

  1. O cancioneiro galego-português é um espólio arquivado, pelo que me parece estranho falar em novo cancioneiro. De resto, os textos dos cancioneiros medievais não tinham uma difusão popular, eram canções de corte, mesmo quando executadas por jograis. A recolha da música popular é certamente importante mas parece-me que se está a confundir coisas diferentes.

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