FRANCIS COOK E O PALÁCIO DE MONSERRATE
HISTÓRIAS DE UM HOMEM FELIZ
Foi com muito prazer que recebi o vosso “amável simpático e cultural “pedido, utilizando as palavras de um senhor que viverá um século mais tarde que eu, e participará no governo das Câmaras Municipais daqui de Sintra e de Lisboa ….Já descobriram a quem me refiro?… Ao Dr. João Soares, pois, a quem mais havia de ser?
Sejam bem vindos à minha quinta de Monserrate.!
Começo por me apresentar. Chamo-me Francis Cook e …tenho de o confessar …dinheiro sempre tive em abundância (o negócio dos têxteis com a Índia, herança familiar, sempre foi florescente e o dinheiro não parava de jorrar). Cheguei a ser a terceira família mais rica da Inglaterra!
Fui um homem com sorte. Vivi longos 84 anos, numa época em que a maioria da população não passava os quarenta! Fiz amigos em todas as classes sociais e em todas as partes do mundo.
Eram pessoas que gozavam com requinte e elegância os prazeres da vida. Aprendi muito com elas!
Casei – me, em segundas núpcias, com essa bela americana de nome Tennesse Cliflan, combativa feminista com quem lidei muito bem . Eu tinha os meus 68 anos.
Em nome da paz e do nosso entendimento, abdiquei de várias coisas. Mas não pensem que estou arrependido … Muito pelo contrário, senti-me muito feliz. O brilho e o encanto daquela amável mulher suavizaram os dias da minha velhice. (não se esqueçam que morri “apenas” com 84 anos.)? Sabem fazer contas? Então, digam-me, quantos anos vivi com Tenneesse ?!…
Não pensem que os meus amores acabaram por aqui.
Tive um outro que me fez gastar rios de dinheiro: o amor à arte!
Fui um dos principais colecionadores de arte. Em 1876 possuía 510 grandes obras e em 1885, ano do segundo casamento, adicionei uma galeria para acomodar a sua nova coleção.
Vivi na época romântica. Foi um período fantástico. Éramos estimulados a libertar a nossa imaginação e , então, saíam coisas maravilhosas. Estou a pensar no Castelo da Pena concluído no ano de 1849. A variedade e o cruzamento de estilos, a fantasia do Tritão, a vivacidade das cores, a relação volume espaço disponível…todo um conjunto que resulta harmonioso, apesar de serem tão diferentes as influências!…
Sim, fui esta terra maravilhosa, verdejante e acolhedora, povoada por gente laboriosa, pacífica e hospitaleira que o meu coração me segredou e eu escolhi.
Criei uma empatia, uma envolvência afetiva e até uma cumplicidade convosco, ou melhor com os portugueses meus contemporâneos, que eu próprio não sei explicar. Coisas do coração de um homem apaixonado que a razão desconhece.
Logo que soube da notícia, não hesitei, nem um minuto. Peguei num monte de notas e mesmo sem as contar, dirigi-me aos escritórios do Senhor Visme. Em poucos minutos fechamos contrato.
Foi um belo negócio! Não deixei fugir a oportunidade e comprei aquele palácio maravilhoso por “truta e meia.”
Não sei se esta expressão ainda é usada nos vossos dias como sinónimo de barato…
Sem falsas modéstias, direi que tinha olho para o negócio e geria bem o património que herdei e o que construi. Despertei para a mercancia, através da participação na empresa do meu pai.
Aos 22 anos comprei a Doughty House, tendo assumido a direção 20 anos depois.
Entretanto, tinha adquirido, aos 32, Monserrate.
Falar do meu palácio de Monserrate é falar de outro encontro feliz da minha vida: o encontro com o arquiteto James Knowles. Ambos vivemos a aventura de fazer do sonho, realidade.
Românticos de corpo inteiro, há quase 10 anos, olhávamos para a Pena (1849) e ela despertava em nós a vontade de construir algo de semelhante, embora a outra dimensão.
Graças ao meu dinheiro e à persistência do arquiteto James Knowles conseguimos o que pretendíamos. 3 anos depois o palácio estava construído.
Como podem ver tem dois pisos.
No superior, estão os quartos; no inferior, os serviços: a biblioteca a sala da música, mas também a sala de jantar… E o que mais veremos à direita e à esquerda do longo corredor que liga a torre norte à torre sul, com arcos rendilhados que lhe dão profundidade e enorme beleza.
Antes de me despedir, quero agradecer as provas de reconhecimento político e social da obra que deixei, em particular o título de Visconde de Monserrate, outorgado pelo rei D. Luís de Portugal e o de baronete de Cook pelas autoridades inglesas.
Muito e muito obrigado”!
E, agora, entrem nesta preciosidade que o engenho do homem criou!
Neste palácio que foi meu e agora é vosso!
Não o deixem morrer!
FRANCIS COOK


