Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
(conclusão)
2) O Euro num espaço internacional
Aqui certamente não podemos raciocinar em economia fechada e a própria zona euro é aberta sobre o resto do mundo.
A Grécia está certamente numa situação deficitária e a Alemanha em situação excedentária.
Retomemos as diversas soluções anteriormente referidas
As soluções 1 e 2 têm de certa maneira largamente funcionado ao serviço da Grécia, do seu Estado e das suas empresas e famílias: Todos os bancos europeus se precipitaram tendo como produto farol as taxas de juro muito baixas, desconhecidas até então no âmbito do Dracma. Daí um desequilíbrio que só podia ser crescente: as mercadorias alemãs principalmente exportadas para a Grécia são financiadas largamente pelo crédito barato. Obviamente, se não há base produtiva suficiente na Grécia capaz de produzir o rendimento, o carrossel não pode durar demasiado tempo: cessou progressivamente com os planos de ajuda de 2010 e de 2012, seguidamente a chegada da Troika.
A solução 3 é juridicamente impossível porque o BCE não financia os Estados, excepto contornando os textos, o que se fez para a Grécia [4] mas também para certo número outros países, como a Irlanda ou Portugal.
A solução 4, de facto, foi largamente praticada em especial através dos fundos estruturais que permitiram a concessão à Grécia de cerca de 4% anual do seu PIB durante muitos e numerosos anos. Prosseguiu-se com o plano de 2012 que permitiu fazer passar a dívida do sector privado para o sector público.
A solução 5 não foi até hoje aplicada e a Grécia não foi abandonada pelo resto da zona.
A solução 6 é a da saída da Grécia da zona euro.
Se elaborarmos um balanço das 6 soluções relativas às relações entre a Grécia e a Alemanha, dois pontos devem ser retidos:
– é errado dizer que a Grécia nunca não beneficiou de transferências, simplesmente estas concentraram-se nos fundos estruturais – cerca de 200 mil milhões de euros desde 1981 – os quais foram largamente desperdiçados no âmbito de lóbis especializados em jogarem com os mercados políticos tanto gregos como estrangeiros. A prova é a ruína da economia grega e um retrocesso dos investimentos, os quais passaram de 23,7 pontos do PIB em 2008 para 11,6 em 2014. Todos os Estados, incluindo a Grécia são responsáveis desta situação.
– As soluções 1,2 e 3 funcionaram em excesso, daí o disparar das taxas e dos memorandos impostos pela troika. Tentam funcionar desde 5 anos mas ao contrário provocando um enorme efeito depressivo: 26 pontos de PIB transformados em fumo desde 2009 e provavelmente uma dezena de pontos suplementares se o novo plano vier a ser posto em prática. [5].
A conclusão é por conseguinte a alternativa de uma solução 5 ou 6, ou de um regresso em peso à solução 4. Como esta última solução não é nada possível sobre os mercados políticos do resto da Europa (Paris pode ser solidária com Lens, mas Berlim não quer ser solidária com Atenas [6]), resta apenas a escolha da saída ou da marginalização num espaço muito negro.
O Euro veio destruir as produções locais assim como o petróleo devia destruir a bacia mineira.
É dizer que a manutenção da moeda única é, por conseguinte, a escolha de uma verdadeira marginalização. Alguns dirão antes a escolha da austeridade, mas uma austeridade que se perpetua então ao mesmo tempo que outros espaços estão duravelmente em relativo crescimento, a isto chama-se marginalização. O Euro devia assegurar a aproximação das economias: assegura afinal o seu distanciamento.
Consequências macroeconómicas.
O raciocínio efectuado sobre as relações entre a Grécia e a Alemanha pode ser estendidas ao conjunto da zona. As soluções 1,2,3 e sobretudo a 4 são muito limitadas e defrontam-se frontalmente com a impossibilidade de encarar uma verdadeira política de transferências dentro da zona. Enquanto que as transferências apenas levantam algumas pequenas dificuldades dentro dos Estados nações clássicos, chocam-se com grandes dificuldades dentro de que permanece um espaço internacional. A escolha do euro é o da servidão e a provável marginalização para as zonas cuja taxa de câmbio única é inadaptada à sua realidade económica. Globalmente, não haverá transferências do norte excedente para o Sul deficitário. O que se sabia em teoria é doravante confirmado pela realidade empírica: as negociações da noite de 12 para 13 de Julho de 2015 permanecerão uma data na história.
Porque o sistema financeiro do Sul vê a moeda fugir para o norte ( pode-se reproduzir o raciocínio efectuado acima entre BH e BP), porque as soluções tipo endividamento atingiram os seus limites (soluções 1,2 e 3), porque as transferências são proibidas (solução 4), e que a manutenção do euro permanece “a vontade comum ” (o euro constituiria “uma irreversibilidade” e, por conseguinte, não haveria solução 6): a única realidade que se impõe é a cura duradoura de austeridade ( marcha forçada para a solução 5).
Mas esta “solução” é um drama para o conjunto da humanidade dado que planifica duravelmente um défice da procura global à escala planetária.
Com efeito, é necessário impedir a fuga de moeda para o norte, por conseguinte suprimir o défice e somente através da diminuição das despesas globais. Concretamente é necessário consumir menos, investir menos, diminuir as despesas públicas de todos os tipos (governamentais ou sociais)….tantas diminuições que correspondem à uma contracção de mercados por um mesmo montante. Quando tudo está bloqueado, manter o Euro, é provocar um défice global de mercados e, consequentemente, provoca uma tendência planetária para a recessão.
Ainda mais claro: o que mostrámos para a relação Bacia mineira/Região Parisiense no âmbito de uma economia fechada, reencontra-se agora à escala planetária. Contudo, com uma diferença importante: o sistema fechado nacional podia teoricamente reequilibrar-se, em termo macroeconómicos, abandonando a bacia mineira à sua sorte destino. Ofertas e procuras estavam modelados na continuidade de um equilíbrio. A mesma coisa no caso muito mais provável de transferências financiadas pelo imposto. Tal não é mais o caso no sistema planetário: a procura global diminui sob o efeito de países que se mantêm na zona sob o regime de austeridade obrigatória. A oferta estando inalterada, a tendência planetária à recessão confirma-se….excepto se noutros pontos do mundo a dívida se puder expandir.
Agora é bem evidente que os Estados mais eficientes poderão num espaço deprimido planetário tirar as suas castanhas do lume. A Alemanha pode assim continuar a prosperar com base num mercantilismo aberto. Em relação ao exemplo da Região Parisiense, de que se considerava impossível a exportação por contrapartida à perda de mercados na bacia carbonífera, a Alemanha não sobrecarregada com o peso das transferências pode ter um excedente até de mais de 7 pontos de PIB.
As políticas de austeridade no Sul terminam por inflar o que é já um excedente da zona no que diz respeito ao resto do mundo (2,5 pontos de PIB da zona). Uma política e os seus resultado contestados pelo resto do planeta que considera que não tem de estar a sofrer com a moeda única.
O leitor deste blog, porque a viver num sistema politico-mediático que fez do euro uma religião, pode ainda duvidar do conjunto do raciocínio que se acaba de fazer e considerar que é necessário permanecermos optimistas e que a solução 5 é finalmente redentora: a Grécia pode ser salva pelo sangue e pelo suor. E certamente é possível apresentar o caso da Irlanda cujo crescimento é hoje o mais elevado do conjunto da zona. Argumento desonesto de um país que devido ao seu peso e à sua situação tem como pratica o dumping fiscal em princípio combatido pelas autoridades europeias.
Mas sobretudo, para regressarmos à Grécia, é esquecer a barreira que lhe opõe o euro. Certamente a Grécia já dispõe apenas de vantagens comparativas, mas com a vontade, com a inteligência, com capitais abundantes que permanecem guardados no estrangeiro, e um poder político mais adequado, o sucesso não poderia ser ele alcançado no fim deste difícil caminho? A resposta é claramente não, porque o sistema de preços prevalecente na Grécia não é propício ao desenvolvimento de actividades que podem eliminar o défice. O primeiro elemento de um sistema de preços é a taxa de câmbio: é esta e este sistema de preços que fixam o perímetro das actividades, ou seja, o que é necessário produzir, o que é necessário importar, o que ele é possível exportar, etc. Porque o euro proíbe a construção de um sistema de preços que alimente as actividades internas (taxa de câmbio completamente imprópria), bloqueia toda e qualquer actividade que permita sair do torniquete depressivo. A Grécia, devido à sua história nunca foi muito favorecida . A sua adesão à eurozona conduziu à devastação da sua economia. A sua manutenção concluirá a obra de destruição da sua economia. Sempre mais sangue e mais suor. Com que consequências políticas…
[4] Veja-se principalmente : http://cib.natixis.com/flushdoc.aspx?id=86184
[5] Quando se supõe um excedente primário para reembolsar a dívida (saldo orçamental positivo com exclusão da carga da dívida ) está-se a diminuir a procura global e o PIB reduz-se. Para mais detalhes, veja-se : http://www.lacrisedesannees2010.com/2015/07/peut-on-enfouir-la-bombe-atomique-grecque.html
[6] Assim como o confirma “o relatório dos 5 sábios”, conselheiros do governo alemão, que publicaram no dia 28 de Julho passado um documento intitulado: “Sobre as consequências da crise grega”, documento que elimina radicalmente qualquer “união de transferências”.
Les crises des années 2010, Le “monstre euro” expliqué aux citoyens qui veulent comprendre, texto disponível em : http://www.lacrisedesannees2010.com/
Ver o original em:
O “monstro euro”, explicado aos cidadãos que querem compreender – por Jean Claude Werrebrouck I

