Pela terceira vez em oito meses, “a voz rouca das ruas”, como a chamava Ulisses Guimarães, se fez ouvir em todo o Brasil, em 16 de agosto de 2015. Não foi mais forte do que em 15 de março, mas ressoou mais alta do que em 12 de abril. Isso, porém, não é o que importa, o que importa é que desta vez outras palavras foram ditas e ouvidas. Sem violência, com indignação. Sem incidentes, mas com inequívocos sinais de rejeição à presidente, ao ex-presidente e ao Partido dos Trabalhadores. Foram só os que não favoreceram a reeleição de Dilma Rousseff? Só a elite, só a burguesia? Então, esses quase 900 mil que protestaram nas ruas pertencem, todos, a uma imensa elite burguesa? Precisamos de interpretações menos simplistas do que as dos que continuam iludidos até hoje. “Para se eleger pela primeira vez, governar apesar do escândalo do mensalão, Lula valeu-se do discurso de ser um perseguido pelas elites, (…) Falso! Lula pode posar de pai dos pobres, mas não pode negar que foi uma mãe para as elites. Essas mesmas elites que, hoje, preferem Dilma ao desconhecido.” Foi o que escreveu, com sua habitual contundência Ricardo Noblat, no jornal O Globo do dia seguinte.
No sábado, em artigo de luminosa compreensão da realidade atual, Rosiska Darcy de Oliveira escrevera: “O país não está partido ao meio como se apregoa. A desaprovação do governo é tão ampla que fala por si e desmente a lógica da divisão. Os milhares que protestam nas ruas são a ponta de um iceberg feito de milhões que, dentro de si, partilham o sentimento de revolta. Para esses, a questão que realmente importa é como reconstruir a terra arrasada.”
E o deputado federal Chico Alencar, ex- PT, agora do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), procura ampliar o desejo de impeachment que muitos manifestam: “Impeachments urgentes, no plural mesmo, são os do sistema político sequestrado pelo poder do dinheiro, da (des)ordem tributária injusta, da continuada desigualdade social, da cultura do individualismo. E, de imediato, dos que tornados réus, ocupem funções de mando no Legislativo ou no Executivo. Seria o elementar, mas alguns se aferram aos cargos para fazer da imunidade impunidade.” O deputado se refere, notadamente, aos presidentes da Câmara e do Senado. O primeiro, que usa de todas as artimanhas imagináveis para escapar à acusação de ter recebido cinco milhões de dólares como propina da Petrobras, e o segundo, que apesar de ter sido alvo de sete pedidos de cassação, soube livrar-se de todos para, passado algum tempo, retornar triunfante e poderoso a ponto de ter-se transformado muito recentemente no mais importante baluarte do governo Dilma.
O deputado ex-PT também se referiu à continuada desigualdade social. Sim, pois para a suposta “nova classe-média” tão apregoada pelo governo, cujos salários mal chegam a dois mil reais por mês, as carências nas áreas do saneamento, da saúde, da educação, do transporte, da segurança e do acesso à cultura continuam as mesmas. O analfabetismo real e o funcional continuam os mesmos. A criminalidade, a violência urbana e o sistema carcerário cruel, vergonhoso, injusto, absolutamente inaceitável, continuam os mesmos. O desrespeito ao patrimônio histórico e cultural continua o mesmo. Mas haveremos de ter olimpíadas e muitos carnavais.
Duas figuras sobressaíram nas últimas passeatas realizadas em todos os estados do país: o ex-presidente Lula e o Juiz Sérgio Moro, que dirige a Operação Lava-Jato, a nossa redentora campanha das “mãos limpas”. Em plena esplanada dos ministérios, em Brasília, foi inflado um imenso boneco de Lula, vestido de presidiário e com os números 13 – 171! Treze é o número do PT e 171, no Código Penal, significa crime de estelionato e, popularmente designa ladroagem, roubalheira. Lê-se hoje, 17 de agosto, na coluna de Ricardo Noblat, o que já é sabido há algum tempo: “A Operação Lava-Jato investiga as relações de Lula com as empresas que mais lucraram superfaturando contratos com a Petrobras e pagando propinas a agentes políticos. Pois bem: a empresa de palestras de Lula arrecadou em quatro anos R$27milhões, sendo R$10 milhões de empreiteiras envolvidas com a roubalheira que causou à Petrobras o maior prejuízo de sua história.”
O Juiz Sérgio Moro não teve boneco inflado, mas camisetas com seu rosto pintado e as palavras Vai Moro, além de incontáveis cartazes e faixas com os dizeres: Sou Moro, Je suis Moro, Somos Moro. “Juiz da Lava-Jato tem dia de herói no Rio”, diz uma manchete, mas ele foi louvado e exaltado em todas as cidades, como um contraponto positivo a todos os protestos, como a esperança saída do fundo da caixa de Pandora.
As Instituições não foram atacadas nem abaladas, o povo esteve nas ruas pacificamente, civilizadamente, com maturidade e consciência. Os que defenderam uma intervenção militar foram pouquíssimos, insignificantes mais uma vez e, apenas tolerados, não convenceram ninguém. Ninguém pregou o golpe ou a deposição da presidente. Acenou-se com o impeachment, sugeriu-se a renúncia. Mas a confiança na democracia é incontestável. Apesar das tentativas do governo de minimizar o significado das passeatas e apesar de no Rio, por exemplo, o prefeito Eduardo Paes, aliado de Dilma, ter mantido fechadas diversas ruas da Zona Sul com o pretexto de proteger eventos-teste das Olimpíadas de 2016. Nada adiantou. Milhares de manifestantes conseguiram encher a Avenida Atlântica, na orla de Copacabana.
Feitas as contas, o saldo foi positivo inclusive para a Presidência da República, que se limitou a emitir uma nota com apenas uma frase: “O Governo viu as manifestações dentro da normalidade democrática.”