Na zona euro, o comportamento do desemprego de longa duração reflecte o enviesamento da politica de austeridade – por Bill Mitchell II

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

(conclusão)

 

Pessoalmente tenho-me já referido muitas vezes contra este argumento.

A abordagem neo-liberal, que domina a política económica, considera o desemprego de longa duração como sendo um constrangimento (linear) das possibilidades de uma pessoa obter um trabalho. “Os chamados efeitos “da duração negativa” são considerados actuar pela perda da eficácia na procura de emprego ou pela estigmatização, do lado de procura, dos desempregados de longa duração.

Isto é, estes transformam-se em preguiçosos e deixam de tentar encontrar trabalho e os empregadores por saberem isso não pretendem contratá-los. Durante este período, considera-se igualmente que se pode dar uma atrofia das suas capacidades profissionais.

Os pagamentos em termos de rendimento do apoio fortalecem esse sentimento de preguiça.

Pretende-se então que o desemprego de longa duração representa uma limitação nas possibilidades de uma pessoa obter um trabalho.

Assim tem sido geralmente aceite pelos economistas neoliberais e pelos decisores na política postularem que há uma relação formal entre a persistência do desemprego, entre, por um lado, “a dependência negativa da duração ” na situação de desempregado e, por outro lado, o desemprego de longa duração.

Esta é a chamada “hipótese da irreversibilidade”, segundo a qual se pretende que os desempregados de longa duração exigem um profundo e extenso programa de formação antes que estejam prontos para o trabalho.

Mais, se o governo tenta estimular o crescimento do emprego para reduzir a taxa de desemprego de longa duração, as propriedades da irreversibilidade significarão que o crescimento dos salários aumentará fortemente tanto quanto os empregadores disputarão os trabalhadores qualificados e ignoram os desempregados de longa duração e a inflação que daí resultará.

Os desempregados de longa duração representam assim uma limitação no crescimento não-inflacionário e a única solução é forçá-los a aumentarem a sua formação através de várias regras quanto à concessão de rendimentos de apoio, incluindo até o seu próprio cancelamento.

Embora a dependência negativa da duração (que sugere que os desempregados de longa duração apresentem uma probabilidade mais baixa de voltarem a ser empregados do que os desempregados de curto prazo) seja afirmada frequentemente como uma explicação para os persistentes níveis elevados de desemprego, nenhuma relação formal que seja digna de crédito foi até agora estabelecida.

Contudo, apesar da falta da evidência, toda a lógica do estudo de 1994 da OCDE sobre o trabalho, Jobs Study, que marcou o começo da agenda do chamado lado da oferta, supply-side, definida esta por programas activos do mercado de trabalho, foi baseada nesta ideia.

Uma vez que se examine a dinâmica dos dados rapidamente se conclui que as taxas de desemprego a curto prazo não se comportam diferentemente das taxas de desemprego de longa duração. A hipótese da irreversibilidade é pura e simplesmente infundada.

A relação entre o desemprego de longa duração e a taxa de desemprego é muito forte.

Enquanto o desemprego aumenta (diminui), a proporção de desemprego de longa duração relativamente ao desemprego total aumenta (diminui) mas com um certo atraso. Diversos estudos examinaram formalmente esta relação. Com o meu anterior trabalho encontrámos que uma proporção crescente de desempregados de longa duração não é um problema que esteja separado do aumento geral do desemprego.

Isto coloca algumas dúvidas na ênfase posto pela política supply-side que os governos da OCDE adoptaram durante as duas últimas décadas.

Enquanto a maioria dos economistas de profissão, os neoliberais, pretendem considerar que a eficácia da busca diminui e que esta diminuição contribui para o aumento das taxas de desemprego, a evidência opressivamente mostra que ambas as taxas são provocadas pela insuficiente despesa agregada na economia.

A resposta da política então é totalmente diferente e defende a aplicação de medidas de estímulo orçamental a serem utilizadas para criar o crescimento dos postos de trabalho.

Please read my blog – Long-term unemployment – stats and myths – for more discussion on this point.

A revista The Economist considera igualmente que “uma mais alta rotatividade no trabalho na América do que na Europa” leva a que o desemprego de longa duração seja mais elevado na Europa. Citam os dados da OIT que mostram que a “probabilidade de se movimentar de um emprego para outro no espaço de um mês era de cerca de 7% para os europeus e de 12% para os americanos. E as probabilidades de perder o seu emprego no mês seguinte eram de 0,8% e 1%, respectivamente”.

Obviamente, quanto mais altas as taxas de rotatividade dos trabalhadores no desemprego mais rapidamente os trabalhadores saem da situação de desemprego para entrarem de novo no trabalho.

Mas a taxa de rotatividade está principalmente ligada ao estado da situação macroeconómica. A probabilidade de obter um trabalho é largamente derivada de como o forte crescimento do emprego se está a verificar comparado com o crescimento na mão-de-obra disponível e que quer trabalhar.

O seguinte gráfico sintetiza porque é que o comportamento do desemprego de longa duração na zona euro foi diferente desde o aparecimento da Grande Crise Financeira do que o que se verificou nos Estados Unidos.

Este gráfico mostra a evolução da população activa e do emprego total (posicionados com o valor 100 no último trimestre em Dezembro de 2007) para os 19 países da zona euro e para os Estados Unidos.

Antes da crise, o crescimento em ambos os agregados eram amplamente similares, na zona euro e nos Estados Unidos. Com o início da crise, o crescimento da população activa reduziu o seu ritmo (com os trabalhadores a ficarem de fora da população activa) e com esse comportamento a ser similar na zona euro e nos Estados Unidos.

A redução no crescimento da oferta de mão-de-obra era assim similar na zona euro e nos Estados Unidos, o que ajudou a atenuar a subida das taxas de desemprego em cada uma destas regiões.

O crescimento total do emprego caiu dramaticamente nos Estados Unidos e cai menos na zona euro com o rebentar da crise. Mas enquanto que na zona euro se falhou largamente em recuperar o terreno perdido até agora, cerca de 7 anos depois do último pico, a expansão do mercado de trabalho dos Estados Unidos começava de novo a expandir-se, a partir de 2010 em parte devido ao grande estímulo orçamental introduzido pelo governo dos Estados Unidos.

O mercado de trabalho americano iniciou então a saída dos trabalhadores da situação de desemprego para o mercado de trabalho muito rapidamente e na zona euro é somente nos trimestres mais recente que tem havido algum sinal de que o crescimento do emprego tem estado a ser feito também pela redução do desemprego.

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O gráfico seguinte dá-nos uma outra maneira de compreender a relação entre o crescimento do emprego e o crescimento da população activa. Neste caso, mostra-se a mudança trimestral no desemprego (milhares) desde Dezembro de 2007 até Março de 2015, para os Estados Unidos e para a zona euro.

Assim uma barra positiva indica que o desemprego aumentou e diz-nos que o crescimento do emprego foi insuficiente para absorver o crescimento da população activa. Uma barra negativa indica o oposto.

É claro que os Estados Unidos começaram a reduzir massivamente o volume do desemprego criado nos primeiros meses da grande crise financeira. Mas para a zona euro este processo apenas começou e somente em 2014.

5.

Conclusão

A questão é que quando as entradas no desemprego foram maiores do que as saídas, é altamente provável que mais as pessoas se estejam a movimentar através das categorias dentro do volume total de desemprego para o valor limite de passagem ao desemprego de longa duração.

A incapacidade ou falta de vontade em parar este processo resulta num crescimento maior da taxa de desemprego global.

A América inverteu muito mais rapidamente esse processo em consequência da utilização da política orçamental enquanto que a zona euro se envolveu na aplicação de uma política de austeridade e tem uma grande distância a percorrer para ultrapassar os danos que essa errada política provocou.

O desemprego em massa reflecte um défice na despesa agregada, que sugere que o défice orçamental tem estado a ser sempre demasiado baixo, dado as decisões de despesa assumidas pelo sector não-governamental.

Bill Mitchel, Long-term unemployment behaviour reflects austerity bias in Eurozone, texto disponível em:

http://bilbo.economicoutlook.net/blog/?p=31478#more-31478

Publicação autorizada pelo autor.

Na zona euro, o comportamento do desemprego de longa duração reflecte o enviesamento da politica de austeridade – por Bill Mitchell II

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