SEJA BEM-VINDO AO ESPAÇO PIQUE-NIQUE – CRÓNICA ESTIVAL SOBRE A BIBLIOTECA NACIONAL DE FRANÇA – por LAURENT CANTAMESSI

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

BNF - ISeja bem-vindo ao espaço   pique-nique

Crónica  estival sobre a BNF

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Laurent Cantamessi, Bienvenue dans l’espace pique-nique, Chronique estivale de la BNF

Revista Causeur, 19 de Agosto de 2015

Improvável conjunção geométrica, fantasia extraterrestre, palácios de meter medo à Lovecraft  do conhecimento, a Biblioteca Nacional de França, BNF, é um fascinante enigma arquitectural plantado à beira do  Sena sobre a base de uma  pirâmide truncada enquadrada por quatro altas torres ornamentando, como as arestas  de um sarcófago monstruoso,  o vestíbulo de verdura  que entra pelo  coração deste  incrível monumento. Mas o monstro de aço  abriga um lugar mais enigmático ainda, cuja existência foi recordada ao autor desta crónica há já algum tempo  por um leitor cuidadoso. É uma destas antecâmaras do segredo que parece, com o único fito de desafiar a razão, ter-se deslizado nos interstícios do espaço e do tempo para ser uma ratoeira  para  o visitante inconsciente que confusamente saberá que avança tal como um funâmbulo sobre o fio da invisível fronteira que separa duas dimensões. O mais pequeno passo em falso  precipitá-lo-á  para sempre nas malhas  eternas do  esquecimento, no universo do inconcebível, sem a  menor esperança de rever  um dia a raça dos homens. Este lugar estranho e assustando é:

O espaço pique-nique

À esquerda da entrada, justamente  antes dos vestiários da biblioteca,   dissimulada por detrás de quatro alinhamentos de pesadas portas de metal e uma ponte de aço orwelliana,  esconde-se  esta estranha aberração de que o projectista deve, é certo, ter conhecido um fim trágico ou misterioso. A literatura fantástica e o cinema deixaram-nos certamente bons  exemplos de lugares malditos: A Câmara Forrada de Walter Scott,   a  aterradora casa de Haunting of the Hill House, de Robert Wise, A Casa da Bruxa de Lovecraft ou a Casa Usher, de Poe e mesmo a terrível sala de banho dos Subjugados, de Gombrowicz, com a sua toalha assombrada. À esta ladainha dos territórios do estranho, convém hoje acrescentar o espaço piquenique.

Seja  que os projectistas da  BNF tenham sido  admiradores de Dario Argento, seja que  a biblioteca foi construída realmente  sobre as  ruínas de um antigo templo satânico, há algo no espaço piquenique que recusa deixar a alma do visitante em descanso. De resto, antes de se chamar  “espaço piquenique”, esta sinistra antecâmara sem nenhuma janela, inteiramente forrada  de madeira sombria e quase que inteiramente deserta, chamava-se  “espaço de relaxamento ”, mas a direcção de BNF  foi avisada de  que era impossível alguém distender-se nesta decoração digna do Black Lodge de Twin Peaks, a menos que esteja já a meio caminho   da psicose. Este lugar, por isso mesmo,  foi rebaptizado  discretamente mas  contudo, tal como antes não   evocava a ociosidade e o relaxamento, o espaço piquenique não consegue inspirar hoje ao visitante a mais pequena  imagem propícia ao abandono bucólico na erva verde ou de  uma sesta feliz debaixo dos castanheiros.  Na verdade, o salão de entrada do Overlook Hotel de Shining poderia passar para um espaço bem  mais caloroso  que esta vasta peça quadrangular, mobilada de uma dezena de mesas vazias, de quatro caixotes de lixo e de  uma máquina de  café, supostamente para  conferir ao  lugar a sua razão social. O tecto que está  acima do solo umas dezenas de metros  suporta uma floresta de lâmpadas suspensas  que evocam o ambiente de uma igreja ortodoxa ou do Santo-Sepulcro de Jerusalém enquanto uma olhadela sobre a decoração das paredes nos  leva já  para dimensões mais esotéricas ainda.

Como explicar exactamente o sentido e a presença das obras que ornamentam os muros cegos  do espaço piquenique e fazem tremer o visitante,  até o fazer queimar os dedos e entornar  metade da sua chávena de café sobre os seus sapatos? A esquerda, ao entrar, encontra-se um imenso quadro de Hervé Télémaque, artista haitiano inspirado pelo surrealismo, o POP arte e a arte vudu, intitulado La Cache. Sobre o mesmo muro, progredindo para o fundo deste espaço, encontra-se uma grande representação em relevo, feita por Jean-Paul Réti, do sítio de Khibert-Qûmran, onde foram reencontrados os manuscritos do Mar Morto, numa caverna escondida durante séculos aos olhos dos homens. Sobre a parede da  direita, uma outra  grande tela está  exposta frente-a-frente com o diorama bíblico, o quadro  Mot disparu n°1,  de Gérald Thupinier. Duas vastas manchas de tinta acinzentada enquadram uma mancha  mais sombria que evoca ao mesmo tempo a forma ameaçadora  da Ilha dos  Mortos e de uma silhueta encapuçada que levanta um véu  maléfico  sobre a expressão pintada no meio da tela em letras  cinzentos: “Mot Disparu”. A este nível,  a função esotérica da lugar não oferece  com efeito mais nenhuma dúvida. Há um sentido escondido em tudo  isto, a solução de um enigma murmurado ao ouvido do visitante pelo  inquietante ronronar  dissimulado algures por detrás dos grandes  painéis de madeira. A chave do terrível enigma encontra-se talvez na última obra, que ocupa a porção do muro situado à direita da entrada,  no lado oposto ao fundo da sala.  Trata-se de La Porte Ouverte, de Bernard Rancillac, enorme  quadro de inspiração POP Arte que representa, sobre fundo amarelo canário, uma espécie de divindade guerreira que brande uma lança em direcção de dois pequenos cavalos de báscula, não figurados mas bem reais  e fixados ao quadro numa posição que evoca um acoplamento. Na ponta do quadro à direita, uma mulher em roupão, inclina-se, o ar abatido, à porta  de um apartamento cujos móveis distinguimos, representados por uma  miragem   por  detrás da mulher e da porta que tem aberta.

Nesta fase, uma angústia surda envolve o visitante. A porta pintada parece abrir-se sobre um universo infernal de que se tenta escapar a mulher em roupão de banho e os dois pequenos cavalos de báscula acoplados, enquanto a  terrível divindade com uma máscara de Kali esforça-se por levar  essas figuras grotescas de  danados à dimensão  maléfica do apartamento miragem. Largando o seu café, o seu piquenique e a sua  saúde mental, o visitante, em seguida, tenta salvar a sua alma da condenação pictórica eterna fugindo da área de piquenique e dessas evocações demoníacas financiado pela DRAC Ile-de-France e pelo  Ministério da Cultura. Mas se, no  seu pânico,  comete o erro de ir para o fundo das salas de investigação  para aí se encontrar ao  abrigo do silêncio e do estudo, então ele saberá,  levantando os olhos que só estava ainda  no limiar do horror.  No fundo da sala W, cobrindo toda a parede, estende-se  uma representação viva do pandemónio, assinada por Martial  Raysse. Por uma decoração com motivos aparentemente simples e de personagens vagamente orientais  estão personagens com rostos ameaçadores e obscenos, virados uns para os  outros ou para o espectador  numa espécie de conciliábulo mudo e insano. ” Martial Raysse, define o pequeno livreto de apresentação, propõe uma verdadeira alegoria da palavra, da riqueza da linguagem e da leitura através do seu Mais Dites  seulement une parole.

BNF - II

Os personagens e os  símbolos parecem dispensar a palavra,  trocando gestos que as transformam em figuras vivas do projecto espiritual e artístico do pintor.” Mesmo Godot sem sequer esperar e pegaria nas suas pernas  e por não estar nada interessado   no   “projecto espiritual e artístico do pintor,” os visitantes traumatizadas também correm  até ficarem sem fôlego, agarrando-se às prateleiras e atirando algumas pilhas de livros ao chão, para a outra extremidade do edifício, a sala de filosofia, sala  K, onde o seu destino pode ser selado para sempre. A sua fuga desordenada e  frenética vai levá-lo  de facto ao pé da obra de Jean-Pierre Bertrand, Partitions métalliques aux tâches de lumières: 14 linhas de 2,50m a 3m de comprimento e 85 pontos  de metal amarelo lacado de dez centímetros de diâmetro, fixos  em intervalos regulares sobre a parede em betão, uma “encomenda  do estabelecimento público da Biblioteca Nacional de França, sob o item do  1% em arte.”

BNF - III

No ano passado, um dos pontos amarelos caiu sem que se tenha gritado  Atenção  e não caiu  sobre a cabeça de nenhum dos leitores, mergulhados na leitura de Kierkegaard ou de Nelson Goodman. A direcção de BNF tomou imediatamente medidas de urgência para circunscrever este perigo, estendendo barricadas de contraplacado destinadas a reter a queda de um ou outro ponto em suspensão ou, mais perigoso  ainda, de uma linha direita a correr o risco de se tornar tragicamente secante com o crânio de um qualquer  leitor. Não houve até agora vítimas a lamentar mas  quem sabe   se um infeliz, tornado louco de angústia por uma passagem a mais no  espaço piquenique não arrisca um dia, na sua fuga, de meter a sua cabeça  sob  “uma Partição metálica” que uma força obscura e maliciosa terá entretanto  descolado  do muro nesse momento preciso em que o leitor está a colocar a sua cabeça. A menos que, por um justo retorno das coisas, uma mancha  de luz de metal lacado se solte  deliberadamente para encontrar, com toda a velocidade permitida  por uma queda de vários metros, a cabeça de um criador  contemporâneo, que nesse dia terá vindo trabalhar num qualquer novo projecto e pôr um ponto final na sua carreira

Laurent Cantamessi, Revista Causeur, Bienvenue dans l’espace pique-nique-Chronique estivale de la BNF. Texto disponível em. http://www.causeur.fr/bnf-mitterrand-espace-pique-nique-34201.html

*Photo: Sipa. Numéro de reportage : 00710677_000024.

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