Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Departamentais: o Valls das etiquetas
Evidente, foi o PS que ganhou
Jérôme Leroy, Départementales: le Valls des étiquettes – Evidemment que le PS a gagné…
Revista Causeur, 24 de Março de 2015
Como é que se deve fazer para tornar os resultados eleitorais ilegíveis ou, na falta disso, como é que os podemos tornar o menos legível que seja possível? A primeira volta das primeiras – e quem sabe se são as últimos – eleições departamentais, as de Março de 2015, permanecerão, a esse respeito, um modelo do género em termos de fumaça democrática. Os peritos da praça Beauvau, sob a influência de Bernard Cazeneuve, foram, é necessário reconhecê-lo, ultrapassados. O vosso servidor, que cumpriu o seu dever eleitoral logo muito cedo na manhã sobre o cantão de Lila-2, antes de apanhar um comboio para Annecy, só pôde tomar conhecimento dos resultados muito tarde, pela noite dentro. E, mudando constantemente de canal sobre as cadeias de notícias e consultando febrilmente os sítios de Internet que ofereciam bonitos mapas interactivos, ouvindo ao mesmo tempo de uma forma quase que distraída as declarações dos grandes líderes ou ainda as de um Primeiro ministro, que atingiu o cume dos Himalaias em termos de auto-satisfação. E a minha surpresa foi crescente…
Não é complicado, Valls tinha salvo a República. A abstenção menos forte que previsto? Deve-se a ele. O quase desaparecimento da FN? Ainda a ele se deve. A bela “resistência” do Partido socialista, é sempre a ele que se deve. Sabe-se assim que a FN, com a sua infeliz taxa de 25% dos votos estava distanciada por dois blocos equivalentes: a direita republicana, como se diz agora e a esquerda. Primeira surpresa, a esquerda estaria por conseguinte praticamente à igualdade com a direita e com o centro. A pergunta é então a de que esquerda é que estamos exactamente a falar para chegar a um total tão mirífico e inesperado? Não há problema, a esquerda, é certamente o PS, os radicais mas também “diversos à esquerda”, a Frente de esquerda e sejamos ainda loucos, os ecologistas também. Terá escapado a Manuel Valls que a sua nomeação a Matignon transformou a Frente de Esquerda e os ecologistas em oponentes resolutos contra a sua política, e que a adição agora sob o rótulo de esquerda a que ele se permite assemelhava-se à operação que consiste em somar maçãs, peras e scoubidous para fazer acreditar que existe sempre um cesto de frutos.
Do mesmo modo, adicionando direita e diversos de direita, isto permitia aos “republicanos” relegar a FN para uma terceira posição. Mas é no detalhe dos resultados que o surrealismo e a imaginação só podem suscitar a admiração de toda a gente, dos grandes e dos pequenos. Era a valsa das etiquetas , como quando se queria falar, no mundo de outrora, de inflação. Praticamente em cada cantão, a nomenclatura alterar-se-ia . Às vezes, seria a União da direita, ou UMP ou União centrista contra, à escolha, União da esquerda, Maioria departamental, PCF, EELV ou diversos de esquerda. Havia apenas a FN que seria sempre chamada de FN, e ainda, se não se encontrasse em presença dos irmãos inimigos da Liga do Sul de Jacques Bompard.
Para tomar o exemplo muito concreto do meu cantão, o meu voto foi contabilizado bem como Frente de esquerda (o binómio era exclusivamente PCF) mas no cantão vizinho de Lila-3, um misterioso binómio “diversos de esquerda” obtinha mais de 20%. De facto, estes diversos de esquerda eram constituídos de uma candidata PCF e dos ecologistas. Mas sobretudo não teria sido necessário fazer aparecer esta situação sob qualquer rótulo que pudesse levar a pensar que uma candidatura da esquerda da esquerda alcançava um resultado mais que honroso, como foi o caso por toda a parte onde esta união vermelha e verde funcionou.
Resumo. Para a FN, relativiza-se e para a esquerda da esquerda, mascara-se. Uma vénia para o artista! Vou por conseguinte sugerir, para a segunda volta, que Manuel Valls e Cazeneuve afinem melhor ainda a sua taxonomia propondo-lhes as etiquetas seguintes:
– FN-RBM para a FN azul marinho que poderia ser melhor afinado em FN-RBM-N e FN-RBM-S, respectivamente para Norte e para o Sul dado que não é de forma alguma o mesmo eleitorado.
– FN-diss. : seguramente que se irão encontrar alguns candidatos bem delicados para com a Frente Nacional por razões locais.
– FN-app., para aparentados, tipo extrema-direita que não dizem o seu nome francamente.
Para a UMP, será ainda mais fácil:
– UMP- sarkozysta para os ninistros
– UMP-juppé-istas para os partidários da Frente Republicana aos quais se virão acrescentar os UDI, os eleitores de Modem, os UC (União Centrista) ou ainda, com um pouco de sorte os VG (velhos adeptos de Giscard )
-UMP-CH para a UMP canal histórico (os últimos simpatizantes de Chirac , frequentes na sua região , em Corrèze.)
Para a esquerda da esquerda ainda presente na segunda volta, não hesitar a dividir entre FDG, PG, PCF, juntos ou mesmo TS (não para tentativa de suicídio mas para Trotskismo e Diálogo.), EELV, Écologistas, Amigos dos animais.
Em contrapartida, evidentemente, para o PS mantém-se exactamente a etiqueta PS.
Assim, na noite da segunda volta, o PS terá ganho de facto a maioria relativa dos departamentos franceses. E Manuel Valls poderá precisamente orgulhar-se de uma aprovação maciça do povo francês face à sua política o que, de resto, cada um de nós constata diariamente.
Jérôme Leroy est écrivain et rédacteur en chef culture de Causeur.
Jérôme Leroy, Revista Causeur, Départementales : le Valls des étiquettes.Evidemment que le PS a gagné…
Texto disponível em:
http://www.causeur.fr/departementales-valls-fn-front-gauche-31980.html
*Photo : BEBERT BRUNO/SIPA. 00708644_000026.


