A OPINIÃO DE DANIEL AARÃO REIS – VIZINHO E INIMIGOS

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Içada devagar, como convém, a bandeira chegou ao topo do mastro e tremulou, agitada pela brisa. Acompanhando, um coro de vozes entoava o hino nacional cubano, com seus convites habituais à coragem, ao sacrifício,  à guerra e à morte pela pátria. Aconteceu em Washington, capital dos Estados Unidos da América, em 20 de julho deste ano. Após menos de um mês,  seria a vez da bandeira estadunidense agitar-se ao vento de Havana, capital de Cuba, acompanhada por hino e unção semelhantes.

Quase meio século depois, estavam restabelecidas as relações diplomáticas entre os dois Estados.

Um longo percurso desde janeiro de 1959, quando triunfou em Cuba uma revolução nacional e democrática. Os guerrilheiros no poder,  liderados por Fidel Castro, apoiados pelo povo armado, passaram a decidir em praça pública os destinos da sociedade, anunciando o apocalipse em terras latino-americanas. Decretavam ousadas medidas e políticas: dissolução das forças armadas da ditadura, justiçamento dos torturadores,  reforma agrária, reforma urbana, soberania nacional.

As autoridades estadunidenses, incrédulas, indagavam-se: quem aqueles cucarachas pensam que são? O puteiro de empresários, turistas e traficantes queria fazer uma revolução? Só podia ser piada, e de mau gosto.  Haveriam de provar da real correlação de forças. Começaram as represálias. Até chegar ao 3 de janeiro de 1961 quando o governo dos Estados Unidos rompeu relações diplomáticas. Cerca de um ano depois, decretou o embargo nas relações econômicas Sucederam-se outras providências: estímulo à emigração de descontentes, financiamento e armamento de oposicionistas, patrocínio de invasão armada, planos de assassinar lideranças.

Mas nada dava certo. Ou funcionava às avessas, tendo efeito oposto ao desejado – contra cada retaliação, uma radicalização. Como disse um escritor na época, havia um furacão no ar no Caribe.

Abençoando o confito, a União Soviética entrou no jogo, tentando capturar aquela revolução pela qual nada fizera e que estava entrando na sua órbita como se empurrada pela força da gravidade. A coisa toda esquentou tanto que o planeta se viu, em outubro de 1962, na iminência de um conflito nuclear. Se tivesse acontecido, e o mundo acabasse, seres remotos, chegando à Terra, teriam dificuldade de compreender como um conflito entre Estados Unidos e Cuba conduzira ao fim de uma civilização que, afinal, tinha alguns aspectos promissores.

Como sabemos, não ocorreu o fim dos tempos, mas o improvável, mais uma vez, acontecera. Graças, em grande parte, à arrogância e à imprevidência dos Estados Unidos,  Cuba tornou-se um país socialista, a menos de 170 km da Flórida.

Seguiram-se décadas de escaramuças. Mesmo depois da derrota da onda revolucionária na América Latina e do assassinato  do Che Guevara,  expressão maior desta aventura, em 1967; e da morte de Salvador Allende,  defensor de uma alternativa pacífica para o socialismo, em 1973,  Golias não desistiu,  mantendo a intenção de eliminar David.

Enquanto isto, e  apesar de notáveis realizações em vários campos, evidenciadas pelos altos índices de desenvolvimento humano,  a gesta cubana, aninhada – e armadilhada – na aliança com a URSS,  foi perdendo impulso, definhando.  A ditadura revolucionária transformou-se numa ditadura de caráter pessoal, esfumando-se os sonhos democráticos de revolução libertária. O povo armado deu lugar a um exército profissional, treinado e equipado pelos soviéticos. O Estado-partido, centralizado, arbitrário,  agigantou-se, absorvendo as atividades econômicas, políticas, culturais. A liberdade política desapareceu, sendo meras fachadas os comitês e assembleias controlados pelo alto. E inexistem as liberdades partidária e sindical, de imprensa e do poder judiciário.

Quando se desagregou a União Soviética, em fins de 1991, e a Ilha pareceu balançar na falta do grande aliado, os EUA  renovaram as tentativas de asfixia, apertando-se o cerco imposto no início dos anos 1960 com os parafusos de novas leis (Torricelli, em 1992; Helms-Burton, em 1996), como se nada fosse capaz de  alterar aquela sanha de décadas.

Avaliou-se, porém,  muito mal, a força do nacionalismo cubano. As pressões, paradoxalmente, reforçaram a ditadura. A cada aperto, apesar de uma situação desesperada, a população cubana cerrava fileiras em torno de seu ditador, que, nesta altura,  tornara-se o símbolo vivo do país – uma tragédia histórica, como sempre acontece quando as gentes amam e idolatram os seus ditadores.

Quando Barak Obama anunciou o fim da política de isolamento de Cuba, a classificou como “antiquada e ineficaz”. Não lhe ocorreram as melhores palavras para designá-la: desinformada, preconceituosa, prepotente e injusta. E terminou de modo ainda mais vago: “agora, não seremos inimigos, mas vizinhos.” Vizinhos, EUA e Cuba sempre foram. Daqui a cinquenta anos, veremos se deixaram de ser inimigos.

 

Daniel Aarão Reis

Professor de História Contemporânea da UFF

Email: daniel.aaraoreis@gmail.com

 

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