Foi numa tarde ensolarada de um dia muito azul do século passado. Um ar suave e fresco entrava pelos janelões da sala de aula do Colégio Estadual Julio de Castilhos, de Porto Alegre. Recém saídos do Ginásio, frequentávamos o Curso Clássico e o professor de Português, temido e irascível, acabara de nos surpreender com uma prova de redação que não estava no programa. Escolhera um tema aparentemente livre, sobre “um companheiro ou companheira constante”, e explicava que podíamos escrever sobre um amigo, um cachorro, um parceiro das últimas férias, pouco importava a personagem, mas as palavras-chave eram companheiro e constante.
Olhares assustados foram trocados entre os colegas, principalmente entre os rapazes, que resmungaram seu desagrado. Algumas moças, ao contrário, depois de comentários mais ou menos animados, começaram a escrever. A colega ao meu lado, porém, fez um muxoxo e cruzou os braços. Estranhei sua atitude porque sabia que ela gostava de escrever e recebia, quase sempre, as melhores notas das redações. Eu admirava a sua inteligência, sua altivez e sua aparente segurança. Um pouco mais velha do que eu, já possuía um ar de mulher que eu certamente ainda não tinha e talvez invejasse.
Ah! O dia estava tão lindo: o céu de Porto Alegre, como o de Lisboa, é de um azul puríssimo, que os uruguaios chamam de despejado, lavado, depurado. Tinha-se vontade era de sair daquela sala que, apesar de arejada e ampla, parecia nos aprisionar e tolher. Bom seria perambular pelas ruas, pelo Parque da Redenção, ler um livro sob uma árvore, ir ao cinema, qualquer coisa menos escrever sobre um companheiro constante! Minha colega estava visivelmente contrariada: olhava para o teto, para as janelas, para a folha em branco. E não se decidia.
Eu terminei um pequeno texto sobre um cachorro muito querido, que deixara longe, na fronteira, na casa de meus pais. Logo percebi que vários colegas haviam começado a entregar suas folhas mais ou menos sofridas e preenchidas. O tempo da aula estava acabando. Todos os demais se empenhavam em cumprir a tarefa e entregar os textos.
De repente, sentindo-se acuada, a colega começou a escrever rápido, cada vez mais rápido e só terminou quando o som da campainha para a próxima aula já ressoava alto nas salas e nos corredores. O professor colocou as nossas folhas na pasta, despediu-se lacônico como sempre e saiu sem olhar para trás, mas ela correu e entregou-lhe a folha com a bendita redação.
Só teríamos Português na semana seguinte. E na semana seguinte, quando cheguei à esquina do Colégio, vi muita gente na rua, um movimento estranho, inusitado. Um colega conhecido veio ao meu encontro, e disse:
– Não soubeste? O “Julinho” (era o apelido carinhoso do Colégio) acabou! Houve um incêndio! Não sobrou quase nada. Quando cheguei mais perto, a triste e aterradora verdade se impôs: nosso Colégio estava em ruínas! O incêndio fora, de fato, devastador.
– E agora? Para onde vamos? Ver o nosso Julinho destruído, arrasado, foi uma das experiências mais tristes da juventude de muitos dos meus contemporâneos.
Passaram-se semanas. Então soubemos que o Colégio, ou sua alma havia sido transferida para um prédio do Estado em outro bairro, um “caixote” feio e cinzento do Arquivo Público. As aulas recomeçaram e pouco a pouco, fomos nos adaptando.
Quando, de novo, tivemos aula de Português, o professor trouxe nossas redações corrigidas e qualificadas.
À medida que nos entregava os papéis, dizia a nota em voz alta. Ganhei, se não me engano, uma das poucas notas boas, um simples 8. Houve várias notas baixas. E a da minha colega foi a última a ser entregue, depois de vários elogios. Ela merecera a melhor nota: um rotundo 10!
Por que? Aparentemente, ela até havia fugido do assunto, pois começava por dizer que não tinha gostado do tema. Se bem me lembro, sua redação era mais ou menos assim:
Neste belo dia de sol e céu azul, quando poderíamos estar velejando no rio Guaíba, ou fazendo uma longa caminhada nas Três Figueiras (um parque afastado, da cidade), o professor Cardozo nos pediu uma redação sobre um companheiro (ou companheira) constante. E eu olho para os meus colegas tão aplicados e não posso imaginar sobre o que é que eles resolveram escrever. Eu não tenho ideia alguma, nada me inspira, nada me ocorre. Não creio que possa chamar alguém de companheira ou companheiro, muito menos constante, pois não percebo nada permanente em minha vida. E devo confessar que achei o tema sentimental demais para o meu temperamento e gosto. Não tenho e não sei se quero ter um companheiro ou companheira constante, ao menos por enquanto. Quero descobrir a vida, quero conhecer o mundo. E assim, – que me perdoe o professor! , continuo a divagar e a fugir do tema proposto simplesmente porque não me senti inspirada. Nada posso fazer ou escrever. Contudo, ah! sim, eis que ouço uma sirene ao longe, uma sirene de ambulância. E me dou conta de que a minha, e também a nossa, a de todos nós, a mais constante companheira é a Morte, a que em todos os minutos da nossa vida está presente, não apenas como ameaça, como possibilidade plausível, inelutável possibilidade, a mais inescapável e “constante companheira”.
Nunca mais vi aquela colega. Décadas mais tarde, soube que se tornara jurista e desembargadora.




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