Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
(conclusão)
Forças centrífugas
Os malogros económicos e sociais em cascata combinados com uma capacidade de manobra política limitada corroem a atracção para o projecto europeu e reactivam forças centrífugas através do continente.
A Europa é um das paisagens políticas mais complexas no mundo. Esta mistura idiossincrática de heranças fortes e contraditórias das tradições liberais, fascistas e comunistas, com uma governança estatal a vários níveis, legitimidades democráticas concorrentes, movimentos sociais dinâmicos e relações geopolíticas contraditórias, está uma vez mais em ebulição.
Num tal contexto, e qualquer que seja a evolução, a perturbação política na Grécia é já um indicador na história do continente. Este país, que no início dos anos 1980 testemunhava a capacidade da Europa em oferecer um sólido ponto de ancoragem na democracia liberal e a estabilidade socioeconómica a um regime pós-autoritário, tornou-se o símbolo do malogro e da desunião. A tentativa de Syriza de escapar à gaiola de aço neoliberal só teve como resposta as operações de sabotagem e vituperação por parte dos outros governos e das instituições europeias, que não lhe deixaram a escolha que não seja entre a capitulação e a ruptura, duas saídas negativas do ponto de vista da atracção da UE.
«O reforço das forças centrífugas aparece igualmente como a consequência do declínio do atractivo de Bruxelas. A Grã-Bretanha, que sucumbiu há muito ao canto das sereias atlantistas, reclama um recuo substancial na integração, ameaçando abandonar o navio. Na fronteira oriental da União, a desilusão quanto à integração europeia deixa campo livre às forças nacionalistas, embora estas contenham sentimentos contraditórios em relação à confiança geopolítica recuperada pela Rússia. No próprio seio do coração histórico da Europa, sente-se uma desorientação cada vez maior. Esta favorece o crescimento de partidos da estrema direita como a Frente Nacional em França, e também dá rédea livre a discursos racistas nos grandes meios de comunicação social. O texto recente de Berthold Seewald no principal jornal conservador alemão, Die Welt, invocando argumentos étnicos para afastar a Grécia da EU, é disso um exemplo abjecto. Recordando o contexto da guerra de independência grega dos anos da década de 1820, afirma que, nesse período, «a representação segundo a qual os Gregos modernos são os descendentes de Péricles ou de Sócrates e não uma mistura de eslavos, bizantinos e de albaneses, foi elevada a crença para toda a Europa (…) Foi por isso que aceitaram os gregos falidos no barco europeu em 1980. Podem-se admirar todos os dias as consequências».
Ao mesmo tempo, os sinais de desânimo entre os líderes tradicionais abundam. Estão reduzidos a cálculos complicados e privados de qualquer fonte de inspiração política, e a Europa alimenta nada mais a não ser apenas a acrimónia. A falta de solidariedade apareceu uma vez mais à superfície quando os chefes dos governos discutiram sobre a crise dos migrantes. Enquanto que milhares de pessoas que desejam juntar-se à Europa morrem no Mar Mediterrâneo, a resposta dos líderes europeus esteve de maneira tristemente reveladora focalizada sobre ataques militares. E aquando das discussões sobre a distribuição dos requerentes de asilo entre os países, foi o egoísmo que impôs, conduzindo Matteo Renzi, a pálida jovem estrela política italiana do centro-esquerda europeu, estrela que se desvanece, gritar : “Se esta é a vossa ideia da Europa, podem guardá-la. ”
Os recentes escrutínios em Espanha e no Reino Unido confirmam que a decepção para com a Europa se expressa no espaço nacional por uma diminuição dos votos para “o extremo centro”. Quer as suas convergências ideológicas se traduzam ou não por alianças nacionais, a ala direita e a ala esquerda do centro estão unidas estreitamente numa grande coligação europeia permanente. São os partidos supostamente social-democratas que pagam o preço extremamente elevado nesta erosão; como as suas posições tradicionais sobre as questões socioeconómicas se derreteram no dogma neoliberal, estes progressivamente tiraram ao seu eleitorado qualquer razão para votar por eles, e o eleitorado refugia-se assim na abstenção ou então desvia-se para novos tipos de movimentos políticos.
À esquerda, a emergência de novos movimentos políticos em diferentes países está vinculada ao mesmo tempo a factores estruturais tais como a intensidade da austeridade e de coordenadas nacionais do campo político. Mas para além dos seus destinos políticos a curto prazo, nenhum destes movimentos poderá diferir muito tempo as discussões sobre pontos estratégicos essenciais.
Dois anos antes de se tornar ministro das Finanças da Grécia, nas suas “Confessions of an Erratic Marxist”, Yanis Varoufakis endossava a missão de salvar o capitalismo europeu dele mesmo. A batalha da Grécia mostrou que isso corria o risco de ser mais difícil do que o que se tinha previsto. A dinâmica de desenvolvimento combinado e desigual na periferia europeia sublinha a necessidade para a esquerda de passar de uma luta defensiva contra a austeridade a uma ordem do dia positiva que delimite alternativas sistémicas. A experiência grega demonstra que, sobre este caminho, não há outras escolhas que não sejam a ruptura com as instituições europeias neoliberais e a reconquista da soberania democrática sobre as moedas nacionais.
Há aqui contudo uma dificuldade enorme. As populações extenuadas pela crise estão reticentes a suportar os custos transitórios da ruptura, ainda que possam estar convencidas das vantagens que obteriam a mais longo prazo. Formular propostas políticas que garantem uma rede de segurança durante esta transição será essencial para facilitar novas vitórias eleitorais, a começar pelas eleições na Espanha este outono. Podemos e os seus aliados dos movimentos têm aí uma oportunidade significativa de o fazerem e de ganharem. Como a experiência da Grécia o mostrou, pode-se esperar-se que a elite europeia possa ser tudo, mas nunca menos implacável do que o foi com a Grécia. Um membro da direcção de Podemos declarava-mo recentemente: “ é melhor estarmos preparados”.
Cédric Durand, The End of Europe – The crisis in Greece is part of a larger disintegration of the European project. Texto originalmente publicado no site Jacobin: https://www.jacobinmag.com/2015/07/tsipras-syriza-euro-austerity-debt/
Depois, traduzido por Ananda Cotentin, pour contretemps, aparece publicado em vários blogs em França.

