
Há alguns anos a editorial espanhola Crítica, publicou um volume de Fernando Wulff, intitulado “Las esencias patrias“. O livro, bem interessante sem dúvida, faz um percurso do século XVI até ao fim do franquismo, considerando o que entende por História antiga e o uso que dela se fez na construção nacional espanhola. Estabelecendo como leitmotiv da historiografia espanhola a continuidade da identidade nacional sobre dous elementos alegóricos centrais relacionados por efeito-causa: as invasões estrangeiras e a desunião.
Definido e assumido o facto da eternidade da nação espanhola e da centralidade territorial mesetária (e os mitos do Ibero e Castela) entre Cantábrico, Mediterrâneo e após Pirineus, as invasões romanas, bárbaras, árabes, francesas só seriam capítulos ou versões de um mesmo argumento: a narração da decadência e destruição da Espanha por causa da desunião, a corrupção, o nepotismo e a desorganização dos seus povos e filhos, incapazes de trabalhar e viver em comum; e a ressurreição após uma sequência trepidante de traições, desastres, autos de arrependimento e chacinas diversas.
Com muito sangue, sacrifício na cena e fitos-clímax memoráveis (Numância, Rocrói, Trafalgar, o 2 de Maio, Saragoça, o Desastre do 98) construiu-se e reinterpreta-se uma e outra vez este repertório teatral, narrativo, poético e ensaístico que continua rançosamente a ocupar as bocas e as reflexões dos graves próceres, políticos, académicos e dos tertulianos e opinólogos espanhóis.
De Quevedo a Pidal, passando por Masdeu, Cánovas, Altamira, Unamuno e os demais, a contemplação da decadência, da corrupção e o apelo à unidade e a reformulação do pacto nacional, têm sido discursos tomados e retomados fazendo ao mesmo tempo parte e degrau na construção da própria invenção do nacionalismo espanhol.
Profundamente enraizada esta sequência alegoria (desunião – decadência – desastre) na formação e na narração da história espanhola, ocupou também em décadas capitais, a centralidade na construção da ideia nacional espanhola, na história e no discurso político: no século XVI, em que se inicia, no XVII e no XVIII, em que se dá sentido contemporâneo, e durante todo o século XIX, e no Franquismo (tão próximo ainda) em que se reinterpreta em chave nacionalista e de “viva la muerte!” as fases anteriores e a história antiga.
O volumezinho de 2003, é parte daquela coleção com títulos memoráveis com que Crítica, e um interessante conjunto de historiadores e hispanistas, de uma ideologia de esquerda e perspectiva federal, reagiu a nova fase de construção do nacionalismo espanhol que se iniciou contra 1997 no segundo Governo de Jose Maria Aznar, e que dinamitou, primeiro aos poucos depois e cada vez mais atafegadoramente, os patos e equilíbrios de pluralidade e convivência territoriais, autonómicos e nacionais que procurara a Constituição de 1978.
É interessante, seguir no debate da historiografia espanhola desde 1995, o choque de posições que têm levado, entre outras cousas, até o cenário que estes dias alvoreja em Catalunha e que o nacionalismo espanhol pretende integrar neste discurso. Resulta curioso também, como este apelo à decadência e à unidade, inça de novo as páginas de jornais e discursos; e mais irônico talvez perceber como na Galiza, esse eco de necessária unidade, mais uma vez na fonte do nacionalismo espanhol, dá fôlegos ao discurso imitativo e às prioridades do nacionalismo galego.
