Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
(conclusão)
Zoé cumpre os procedimentos. É importante para a democracia, os procedimentos. Deve-se conhecer o quadro no qual as coisas se desenrolam. Alguns são incomodados por todo este chichi… isto são detalhes… não há tempo a perder… e, seguidamente, estamos cansados… (Zoé mantém-se sempre presente, mas bom…) A Assembleia decide que o debate durará três horas e vinte minutos.
“Fiz mal, aquando do meu discurso de entrada em função como Presidente, ao dizer que este Parlamento não votará nenhum memorando”, diz Zoé e cede o lugar ao Vice-Presidente, Mitropoulos. É um antigo deputado Pasok (e actualmente Syriza) que presidirá… Mitropoulos, especialista do direito do trabalho… deste direito que não praticamente já não existe … Zoé é apupada pelos deputados de Nova Democracia…
Euclide Tsakalotos (ministro das Finanças) toma a palavra e explica-nos porque é que é urgente dar o nosso acordo à liquidação do país: é necessário pagar ao BCE a 20 de Agosto… e assegurar o financiamento dos nossos créditos para os próximos três anos. Assim, acrescenta-se 80 mil milhões à nossa dívida. Esplêndido, não é?
Passo por cima dos detalhes … Zoé toma a palavra agora enquanto deputada .
“O projecto de lei é anticonstitucional pelas razões já apresentadas a 7 de Novembro de 2012, o 14 de Janeiro de 2013, a 30 de Março de 2014, e nos discursos do Primeiro-ministro actual de 14 de Dezembro de 2010, de 23 de Fevereiro de 2012, e aquando de várias outras ocasiões… Nós somos não o que dizemos, mas sim o que fazemos…”
“Nós seremos originais, tínha-nos dito o Primeiro ministro, respeitando depois das eleições o que dissemos antes”
“Não é suficiente dizer que Syriza tem princípios quando estes são violados… Quero ser o que sei fazer de melhor, defender as pessoas que são perseguidas ou cujas direitos são violados, defender a verdade, defender os camaradas quando canibalizados … defender o povo, o património público que os abutres do totalitarismo europeu têm doravante nas suas mãos …. Defender o interesse público… Mas não defenderei mais o Primeiro-ministro porque me persuadiu ele mesmo que eu não devo fazer mais nenhuma declaração publica dizendo que isto é puro surrealismo, ou seja, uma espécie de fantasma, da loucura, dizer que eu o apoio enquanto que recuso votar tudo o que ele assinou sob chantagem . Ao mesmo tempo, disse-me que não é um miúdo e que tem outros meios para se defender … certamente, ele não apreciou o facto que na sua pessoa eu não defendo unicamente o camarada mas também o primeiro e o mais jovem primeiro-ministro de esquerda do país assim como o capital político que representava e que ele não tinha o direito de destruir e de desfazer em fumo, porque este capital representa as espectativas e a esperança de todo uma povo. A sua escolha de se acrescentar aos primeiros ministros dos memoranda entristece-me e fere-me. Da mesma maneira que o facto que ele tenha escolhido “ser defendido” pelos representantes do regime mais antigo e corrompido que se conheça. … Senhores do governo, não tem o direito, e é o momento final de assumir esta responsabilidade, de fazer com que o país carregue com o peso de um novo empréstimo aceitando reembolsar uma dívida ilegal… no dia seguinte ao da chantagem, o Primeiro ministro pediu que lhe propusessem alternativas. Um mês já passou desde então. Um mês passou enquanto que eu pessoalmente disse-lhe que estou convencida que existem alternativas. O Parlamento, com a comissão Para a verdade sobre a dívida pública, tinha criado alternativas. Uma comissão que procede à auditoria da dívida, auditoria que faz parte das obrigações dos países sob memorando de acordo com o regulamento 492. E não tenho resposta, porque é que as conclusões desta comissão sobre a dívida ilegal, odiosa e insustentável não se tornaram o ferro de lança das reivindicações do governo! Nunca saberei porquê, enquanto que as conclusões da comissão são saudadas pelos órgãos competentes das Nações Unidas, o governo faz como se estas conclusões não existissem! Nunca saberei porquê, enquanto que sob pedido de 55 membros de Syriza, desde o 25 de Junho, este relatório devia ser debatido no Parlamento, o que abriria um novo debate internacional- temos muitos aliados – e isto seria um acontecimento mobilizador para apoiar o governo. Não saberei porquê, porque não se estabeleceu uma data para a discussão destas conclusões. Não saberei porquê, não saberei porquê enquanto que a Comissão de Contabilidade Estatal publicou um relatório sobre as pretensões da Grécia relativas às reparações de guerra e ao empréstimo forçado, que atingiu o valor de 340 mil milhões de euros, porque é que esta pretensão não é inscrita no orçamento. Nunca saberei porquê, não sei porque é que o meu pedido relativo à violação do funcionamento da democracia (após o golpe de Estado em Bruxelas) foi rejeitado, anticonstitucionalmente, pelo Presidente da República que me disse que se tratava da minha opinião pessoal ….Tudo isso, bem como o recurso aos fóruns internacionais competentes, como o Conselho da Europa, eram alternativas… “
Ela disse ainda muitas outras coisas. …antes de ser tomada a palavra pelo presidente da Nova Democracia…
Alexis falou em último lugar… eram quase nove horas da manhã… para dizer coisas neste tipo: “… o dilema que tinha sido posto (aquando desta noite de negociações em Bruxelas) era ou “memorando com o euro ou memorando com o dracma” (ah, bom? , eis pois notícias!). “Alternativas que supostamente teríamos ignorado, não existem . De acordo com o que sei, além disso, não existem sempre!” (de acordo com o que tu sabes, Alexis… não estás por conseguinte bem informado) . “E, obviamente, denunciar a dívida e acreditar que, quanto mais a denunciamos, mais ela se reduz automaticamente, não é uma alternativa”. Daqui se conclui que para Tsipras ( a Comissão do Parlamento para a Verdade sobre a dívida era “um brinquedo” para Zoé, e todos os que nela participaram, fizeram-no para se divertirem …). “ Porque este governo, no dia 25 de Janeiro (dia em que foi eleito ) não recebeu o mandato para sair o país da zona euro e esta saída não era também não a questão do referendo de 5 de Julho, ainda que a quase totalidade da oposição tenha considerado a questão nesses mesmos termos” . (Assim, todos nós espetámos o dedo no olho até à omoplata dizendo OXI e pensando que levarias isso em conta!). “E considero que a fissura não é negligenciável, nem é difícil de ver, que se abriu e faz aparecer o conflito, que evolui mesmo à fraca intensidade neste momento, opondo as forças conservadoras às forças progressistas da Europa, a Europa do neoliberalismo, os bancos, de um lado, à Europa do trabalho, da solidariedade social e da igualdade, do outro…”. (…) “ Nós reivindicamos um percurso alternativo ao adoptado pela Europa hoje. Esta posição não se altera. Mas não pode ser servida evadindo-nos (da realidade) e através de fantasmas”… (ainda uma referência a Zoé e ao seu “sonho”, feita por Alexis?)… “Tenho a consciência absolutamente tranquila que (este acordo) é o melhor que podíamos obter sendo dado a relação actual de forças na Europa. ”…
Transcrevi ainda uma pequena parte do discurso de Alexis… mas não insistirei… o projecto de lei que assegura a destruição final do país fui adoptado… com algumas perdas para Syriza… mas, “felizmente”, Nova democracia e os outros estavam lá…
O acordo foi salvo… o país pode pois sucumbir …
Boas noites, a Grécia! Amanhã é um outro dia… há ainda quem não tenha dito a sua última palavra… Em todo caso, Zoé foi recta e como estes antigos cariátides que sustentam o tecto dos antigos templos gregos…
Texto original:
http://www.okeanews.fr/20150817-grece-la-nuit-des-dupes-une-nuit-qui-dure-depuis-cinq-ans-et-demi

