A igreja católica em Portugal tem, ao todo, 43 bispos. Vinte, são bispos residenciais, um por cada diocese, que o poder eclesiástico é monárquico, por isso, de um só clérigo (in)vestido da plenitude do sacerdócio, em lugar da plenitude do humano, outro Jesus. É verdade que as dioceses em Portugal são 21. Só que uma delas é gerida por um bispo-administrador apostólico, uma situação tida como transitória, até que o papa nomeie um bispo residencial. Dos restantes bispos não residenciais, sete são auxiliares de bispos residenciais – só o do Porto dispõe de três! – um é coadjutor, por isso, com direito a sucessão nessa mesma diocese, e 14 são eméritos. Na semana finda, estiveram no Vaticano-Roma, não os 43, mas quase. Exactamente, 37. Faltaram alguns dos eméritos, devido às idades muito avançadas, já acamados, ou com grandes dificuldades de locomoção. De modo que o mais previsível é que venham a morrer sem voltarem a ver o papa, uma vez que o Direito Canónico impõe aos bispos da igreja católica estas visitas periódicas, chamadas “Ad limina”, mas não impõe ao papa que visite os bispos de idades avançadas e acamados. Uma tarefa, de resto, impossível, dada a enorme quantidade de dioceses territoriais que a igreja católica romana conta em múltiplas partes do mundo.
Segundo rezam os mais recentes dados conhecidos, a esmagadora maioria da população portuguesa – uns 88% – continua a declarar-se católica, mas os praticantes de missa ao domingo ficam muito aquém dos dois milhões dos mais de 10 milhões de portugueses residentes no país. Destes, a maioria é constituída por mulheres, e mulheres do norte do país, das áreas rurais, com idades acima dos 45 anos. São números que os bispos não puderam esconder do papa, do qual dependem e ao qual têm de prestar periódicas contas, obedecer e frequentemente citar nas suas homilias e noutras intervenções públicas, bem mais raras que as homilias. Ou não fosse verdade que na igreja católica romana predomina o pensamento único, em matérias canonicamente tidas como essenciais. Dissentir do papa, ter opinião própria, ainda que, porventura, evangelicamente sustentada, pode ser objecto de sansão canónica, inclusive, a perda do mandato de bispo residencial. Muito raramente algum deles se atreve. Se tal acontece, é de imediato advertido e pára o baile.
Estes números referidos pela agência Ecclesia, são reveladores. Se, entretanto, a estes números, acrescentarmos o dado mais do que manifesto de que as novas gerações, em Portugal e na Europa, nascem e crescem cada vez mais fora da igreja católica, esta bem pode continuar a apresentar estatísticas elevadas de pessoas que, nos recenseamentos, se declaram católicas, mas, na verdade, não são. É bom sublinhar, a este propósito, que ser católico romano não é igual a ser igreja-movimento de Jesus, o filho de Maria. Basicamente, ser católico romano é ter sido baptizado em criança, por decisão-imposição dos respectivos pais, frequentar as catequeses paroquiais até à “comunhão solene” ou até ao “crisma” e, nesse mesmo dia, desertar da igreja paroquial, tornar-se agnóstico, ateu, ou, simplesmente, não-praticante, nem sequer da missa ao domingo.
O primeiro dia da semana que os bispos portugueses estiveram em Roma, para verem o papa, começou – vejam só! – com uma “emocionada” missa concelebrada por todos, junto ao túmulo de S. Pedro, na basílica do mesmo nome. Bastariam estes pormenores para se perceber, ao fim dos dois mil anos de cristianismo, que a Missa, repetida milhões e milhões de vezes até à náusea, é a rotunda negação das comidas compartilhadas por Jesus Nazaré e, sobretudo, da chamada “última ceia”, que, a ter historicamente ocorrido, é a ceia da consumação da traição dos “Doze” a Jesus. Tem sido apresentada, através dos 20 séculos de cristianismo, como a expressão máxima da fé cristã católica romana, mas, a julgar pelos frutos que produziu e continua a produzir, manda a verdade objectiva que se diga que a missa, ou o “santo sacrifício da missa” é o grande pecado da igreja, nas múltiplas igrejas em que esta se concretiza. Precisamente, porque não passa de mera doutrina dogmática que alimenta-reforça o poder hierárquico do papa, dos bispos residenciais e dos respectivos párocos, seus funcionários de confiança nas paróquias. Ao mesmo tempo, contribui decisivamente para desumanizar as populações que insistam em frequentá-la. São, regra geral, as piores pessoas em cada paróquia, a fazer lembrar os fariseus contemporâneos de Jesus Nazaré. Com a agravante de tudo ainda tem de ser pago por elas, para proveito exclusivo dos clérigos que presidem a toda esta ignomínia institucional.
Entretanto, a propósito do “túmulo de S. Pedro em Roma”, tem de se dizer que, hoje, é praticamente consensual entre os historiadores dos diversos cristianismos, que Pedro, o chefe do grupo dos Doze, escolhidos no início por Jesus Nazaré para andarem com ele e o prosseguirem, mas que, depois, no final, acabaram todos por traí-lo e abandoná-lo em Jerusalém, nunca esteve em Roma. Impossível, por isso, que tenha sido sepultado em Roma. Mas que importa isso? Uma coisa é a verdade histórica, outra, muito diferente, é a verdade católica romana imperial. E para esta instituição religiosa mais poderosa no mundo ocidental e até no resto do mundo, só a verdade católica romana conta. Já a verdade-realidade histórica e científica só atrapalha e muito.
É por isso que existe o Credo católico, recitado ao modo duma cassete nas missas de domingo. Enuncia as verdades fundamentais da instituição religiosa. Só que nenhum daqueles enunciados da fé católica romana corresponde à verdade-realidade histórica. São meras formulações doutrinais dogmáticas, para serem simplesmente acreditadas. À força de as repetirem, durante anos e anos, as populações são levadas a pensar que todos aqueles enunciados doutrinais e dogmáticos correspondem à verdade objectiva, assente em factos reais, palpáveis, cientificamente comprovados. Quando manda a verdade que se diga que todos eles não passam de engenhosas e sofisticadas doutrinas construídas sobre mitos, sucessivamente impostas, a ferro e fogo, aos povos da terra, no estilo, Ou crês, ou morres. E com o rolar dos séculos, as chamadas tradições dos antepassados acabaram por fazer o resto. Pelo que a grande pergunta que hoje se formula é – Por quanto tempo mais é que as coisas vão continuar a ser assim?!
De certeza, nem o papa, nem os bispos que andaram de turismo religioso na capital do império católico romano, se põem este tipo de questões, sem dúvida, as que, neste início do terceiro milénio, mais urge formular. Nunca o farão, até por uma questão de sobrevivência pessoal e corporativa. São homens sós, sem afectos, escandalosamente atrofiados no seu desenvolvimento de dentro para fora, especializados em rotinas religiosas e eclesiásticas, meramente habilitados a falar “ex cathedra”, na sé catedral de cada um, sem que alguém dos presentes tenha direito à palavra, ao contraditório. Incapazes, por isso, de formular estas e outras pertinentes perguntas. Quando, por fim, a nossa irmã Morte os resgatar destas rotinas estéreis e, até, letais em que, para seu mal, são especialistas, verão, então, como num relâmpago, que tudo o que fizeram-disseram como clérigos (in)vestidos da plenitude do sacerdócio foi mentira.
Felizes, pois, todas aquelas pessoas que, ao contrário dos clérigos sagrados ou laicos (sim, também há clérigos laicos!), vêem-praticam a verdade-realidade ao longo da sua visibilidade histórica. Tais pessoas são fecundo tsunami político que torna mais humano o nosso mundo. É assim, paradigmaticamente, com Jesus Nazaré. É assim com as mulheres, os homens que o prosseguem e praticam a sua mesma Fé. Vidas, porventura, historicamente crucificadas, mas politicamente fecundas.
Para alem das passeatas, do culto exagerado aos mortos (os vivos não lhes interessam a não ser para as suas manipulações) do qual fizeram gala, de prestarem continhas financeiras e bajularem o Papa o que é que essas pessoas produziram mais?
Há entrevistas que melhor seria nunca tivessem sido divulgadas, de tão vazias de conteúdo e de interesse humano:
Para alem das passeatas, do culto exagerado aos mortos (os vivos não lhes interessam a não ser para as suas manipulações) do qual fizeram gala, de prestarem continhas financeiras e bajularem o Papa o que é que essas pessoas produziram mais?
Há entrevistas que melhor seria nunca tivessem sido divulgadas, de tão vazias de conteúdo e de interesse humano:
http://www.agencia.ecclesia.pt/noticias/vaticano/ad-limina-bispos-de-portugal-valorizam-confianca-e-dialogo-do-papa/
https://www.youtube.com/watch?v=JjrwXRB9K1c