A dívida portuguesa também é insustentável – por Erico Matias Tavares I

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

 

 

Nota ao texto de Erico Matias Tavares intitulado Portugal’s Debts Are (Also) Unsustainable. Texto disponível em: https://www.linkedin.com/pulse/portugals-debts-also-unsustainable-erico-matias-tavares e também publicado por Zero Hedge.

Em Junho passado editámos um texto com o título ESQUEÇA A GRÉCIA, PORTUGAL SERÁ O PRÓXIMO PAÍS EM CRISE NA ZONA EURO, utilizando um texto de MATTHEW LYNN. Com este texto publicava-se um gráfico bem elucidativo:

Pela parte que me toca como cidadão esperava ver o assunto tratado na nossa imprensa, mas em vão. Esta, mais preocupada em servir o regime passa em silêncio o que o pode incomodar. Seria esta a leitura banal a fazer deste silêncio. Mas também não vi as gentes do PS pegar no tema, a dar a ideia que o tema é fogo e que sobre o tema,   para não incomodar Bruxelas e, sobretudo, para não lançar alarmes sobre Portugal, é melhor silenciar o problema! Não sei se foi isto mas se o foi não tem nenhum sentido pois a busca dos grandes investidores é procurar saber quem atacar e por onde podem atacar. Silenciar é pois um trabalho em vão. Ainda agora um fundo americano acaba de ganhar numa semana e sobretudo num só dia a módica quantia de mil milhões, exactamente porque são especialistas em atacar posições débeis e em descobrir o caminho mais rápido para o ataque. Disso também a imprensa nada falou, que eu desse por isso.

Mas em tudo isto, e nestes silêncios incompreensíveis, o que é estranho é que se deixe repetir até à exaustão o slogan de que a coligação livrou Portugal da bancarrota e que a oposição é o caos, o retorno à situação de crise do tempo de José Sócrates! O mesmo slogan que levou Cameron a ganhar na Inglaterra. Será que também utilizam o mesmo estratega de campanha que aquele utilizou?

Ora o que as análises sérias nos mostram é que não deixámos nunca de estar à beira do abismo,   com o país cada vez mais arruinado económica e socialmente   e, se ainda não caímos no abismo, é porque…o Banco Central Europeu nos vai protegendo, ao contrário do que fez e faz com a Grécia. Vejam-se as taxas de Portugal, dos Estados Unidos e da Grécia relativamente aos Bunds alemães e percebemos bem porque é que estando com ratings de lixo, temos taxas de juro sobre a dívida pública que são um verdadeiro luxo! Mas nós não somos a Grécia, é o que todos dizem. Sendo tudo isto verdade, não estamos longe. Continuamos a não entender o silêncio da oposição sobre o tema central na campanha eleitoral da Coligação: livrámos Portugal da bancarrota e não ganharmos com maioria absoluta é abrir o caminho para se cair no caos outra vez. Será que os homens que lideram no PS são capazes de o explicar?

A lembrar o tema publicamos mais um texto sobre a (in)sustentabilidade da dívida em Portugal, o que contradiz o discurso oficial em Portugal, venha ele de Belém ou de S. Bento ou dos medias pelo poder sustentados.

 

Coimbra, 6 de Setembro de 2015

Júlio Marques Mota

 

A dívida portuguesa também é insustentável

Erico Matias Tavares de  Sinclair & Co.

 

A dívida de Portugal é também ela insustentável

Toda a gente parece estar centrada na Grécia nos dias de hoje – um país tão endividado que precisa de ainda mais empréstimos para pagar apenas uma fracção dos seus gigantescos créditos. É evidente que esta dívida é insustentável e qualquer coisa tem de ceder, algo tem que ser feito. Mesmo o FMI concorda que a dívida seja parcialmente perdoada.

Mas, e os outros países do Sul da Europa?

Na verdade, a situação financeira da Portugal está a mostrar-se particularmente instável e um qualquer soluço poderia ter graves repercussões transfronteiriças, desde Madrid até Berlim, atingindo todos os outros países pelo meio.

A narrativa dominante é que Portugal tem sido um bom aluno em comparação com a Grécia, com a austeridade a mostrar que se teve resultados muito melhores:

  • O governo, uma coligação de um partido de centro e do partido de centro-direita que, juntos, têm mantido a maioria dos lugares no Parlamento desde a sua eleição em 2011, praticamente seguiu todas as principais exigências formuladas pelos seus credores (a famosa “Troika”) nos termos da ajuda financeira prestada em 2010, e tem sido mesmo muito elogiada por isso.

  • As exportações têm-se comportado excepcionalmente bem, dado tudo o que se estava a passar no plano interno e externo; os gestores de pequenas e médias empresas em Portugal são verdadeiros heróis, operando em condições difíceis e com acesso limitado ao crédito.

  • Portugal tornou-se recentemente um país preferido pelos investidores internacionais em imobiliário   e pelos turistas.

  • Os cidadãos do país têm estoicamente suportado uma série de duras medidas de austeridade com surpreendentemente pouca perturbação social.

Por isso, é compreensível que as esperanças de Portugal para o futuro sejam muito mais optimistas do que na Grécia … e, no entanto, a sua situação financeira é também insustentável!

Percebemos que esta é uma declaração bastante ousada. Então, para apoiar a nossa afirmação, vamos utilizar uma matemática simples para mostrar em que situação estão as finanças do governo depois de se estar a aplicar fortes politicas de austeridade desde há cinco anos .

 

 

Simples Matemática, Duras verdades

O Banco de Portugal (“BdP”), o banco central de Portugal, publica estatísticas da dívida dos sectores-chave da economia em bases trimestrais. O link para a mais recente publicação pode ser encontrado aqui. (http://www.bportugal.pt/en-US/Estatisticas/PublicacoesEstatisticas/BolEstatistico/Publications/K.pdf )

Em Março de 2015, a dívida do sector público não financeiro era de 288 mil milhões . ou seja 166% do PIB. Ao ler-se estes números pode-se ser levado a pensar que há algo estranho aqui mesmo, porque se está acostumado a ouvir que o governo Português “apenas” deve 130% do seu PIB. Isso porque os media geralmente usam os cálculos estabelecidos pelo Tratado de Maastricht, e não o montante total que o governo deve, como um todo (o que inclui empresas públicas, por exemplo). Mas o que são 36 pontos percentuais do PIB entre amigos?

OK, vamos fazer um pouco de matemática:

  • Começamos por dividir   288 mil milhões de € por 166% e ficamos a saber que o PIB nominal do BdP utilizado no seu cálculo é cerca de 174 mil milhões.

  • Em seguida, vamos supor que o custo da dívida e por toda a dívida pública é de apenas 1%. Neste caso, a despesa pública anual em juros (a carga da dívida teórica neste caso) deve ser de 1% x € 288 mil milhões de euros, ou seja, 2,88 mil milhões. Sabemos que este valor é muito baixo uma vez que a despesa de juros real em 2014 foi de quase € 7 mil milhões (e provavelmente não é toda a despesa mas as contas do governo podem ficar muito turvas);

  • Então admitamos que o PIB nominal de Portugal cresce em 1%, que não é uma taxa anual espectacular mas é certamente melhor do que a dos anos recentes – desde Dezembro de 2011 até Dezembro de 2014, a taxa de crescimento nominal média estava na verdade na casa dos -0,6% (dados do BdP). Deste modo, seja 1% x €174 milhões , ou seja, temos €1,74 mil milhões de crescimento do PIB ;

  • Finalmente, nós comparamos os custos assumidos em juros com o crescimento nominal do PIB : €2,88 mil milhões de juros contra €1,74 mil milhões de crescimento.

Veja-se o que mostramos aqui?

(continua)

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