CRÓNICA DE UMA VIAGEM PELA RÚSSIA – APRENDER ALGUMA COISA COM O PASSADO – por ANTÓNIO GOMES MARQUES

 

Será que Warren Buffett leu Lénine? - por António Gomes Marques

Foi em Abril de 1990 que, pela primeira vez, pisei terras da Rússia, então ainda União Soviética; agora, 25 anos e alguns meses depois, voltei à Rússia. Nessa viagem de 1990 visitei também a Estónia e a Letónia, não tendo sido difícil percepcionar que o império soviético estava em derrocada, tendo ficado com a certeza de que a separação dos países bálticos da União Soviética não tardaria. Agora, a viagem de Julho de 2015 deixou-me com a convicção de que a Rússia caminha, numa democracia musculada com o todo-poderoso Vladimir Putin ao leme, rumo à consolidação de uma economia desenvolvida, reforçando assim a grande potência que já é.

É minha intenção desenvolver várias crónicas para o blogue, seguindo o modelo utilizado para a segunda viagem à Turquia, que deu origem ao longo texto «Em Viagem pela Turquia», aqui publicado durante 62 dias. Agora vou procurar escrever de vez em quando um texto ou outro sobre esta viagem tendo em conta que o texto mais longo que pretendo escrever será de demorada conclusão e, não menos importante, a minha habitual preguiça para escrever necessita de ser combatida por compromissos que assuma.

Este primeiro texto nasceu ao repegar no livro de Tony Judt, «O Século XX Esquecido – Lugares e Memórias» (Ed. 70, Setembro/2010, págs. 13/14), relendo as primeiras páginas e, nomeadamente, estes pequenos excertos:

«Nós no Ocidente, com os nossos entusiasmos maniqueístas, apressámo-nos a dispensar, sempre que possível, a bagagem económica, intelectual e institucional do século XX, e encorajámos outros a fazer o mesmo. A crença de que isso era dantes, e agora é assim, e que do passado só precisávamos de aprender a não repeti-lo, abarcou muito mais do que as instituições defuntas do comunismo da Guerra Fria e a sua membrana ideológica marxista. (…)

Ao escrever nos anos 90, e novamente a seguir ao 11 de Setembro de 2001, fiquei diversas vezes espantado com esta perversa insistência contemporânea de não perceber o contexto dos nossos dilemas actuais, no país e no estrangeiro; de não escutar com mais atenção algumas das mentes mais sábias das últimas décadas; de procurar activamente esquecer em vez de lembrar, (…)

O que realmente pretendo, com este escrito, é activamente lembrar. Vamos devagar.

Ora, no centro de Moscovo, num lugar privilegiado da cidade, na margem alta do rio «Moskvá», próximo do Kremlin, o centro histórico da cidade, existia o Templo de Cristo Salvador, a igreja ortodoxa mais alta do mundo, construído no século XIX, como homenagem aos heróis da guerra contra Napoleão, projectado pelo arquitecto Konstantín Ton, demorando cerca de 44 anos a construir, iniciando a sua função religiosa em 26 de Maio de 1883, na coroação do Czar Alexandre III. Num local tão privilegiado haver um tal símbolo da «religião, ópio do povo» era ofensivo, sobretudo agora que se propagandeava que era o povo, a sua vontade colectiva, quem mandava, tornava-se necessário substituí-lo por um símbolo mais representativo –o Palácio dos Sovietes!-, determinando Estaline a sua destruição até aos alicerces com explosivos, o que aconteceu em 5 de Dezembro de 1931, embora a ordem tenha sido dada pelo Presidente do Comité Executivo da União Soviética, Mikhail Kalinin, em 13 de Julho de 1931, ao mandar construir o Palácio dos Sovietes no local da Catedral de Cristo Salvador, devendo, no entanto, referir-se não ter sido este o primeiro local escolhido.

Em meados da década de 1930, o governo stalinista previu a construção de 08 (oito) arranha-céus em homenagem ao VIII centenário da cidade de Moscou, o qual seria comemorado em 1947. O principal deles seria o Palácio dos Sovietes – projetado por B. Iofan com 389m de altura e coroado com uma estátua de Lenin com 100m de altura –, mas acabou sendo o único não executado. As demais torres foram construídas até o início da década de 1950 – todas historicistas, com elementos tanto clássicos como góticos – com alturas variando de 133 a 240m, passando a ser conhecidas como as SETE IRMÃS de Moscou. (http://arquitetura.weebly.com/)

Rússia - I

Demolição do Templo em 1931 (V: es.wikipedia.org)

O Palácio dos Sovietes não foi ali construído, embora se tivesse dado início à construção dos alicerces do que se pretendia fosse o maior edifício do Mundo, desejo este que viria a ser impossibilitado pela II Guerra Mundial e pelas dificuldades económicas. Nos anos 60 do século passado, Nikita Krustchev mandou ali construir uma enorme piscina pública, a que deu o nome de «Moskvá» (Moscovo, em russo), aproveitando os alicerces do projectado Palácio dos Sovietes. Fossem eles conhecedores profundos da obra de Anton Tchékhov e talvez tal destruição não tivesse sido levada a cabo, recordando eu o que Vladimir Nabokov escreveu nos seus estudos de literatura russa sobre este grande escritor: «… uma pessoa que prefira Dostoiévski ou Górki a Tchékhov nunca chegará a compreender a essência da literatura russa e da vida russa, e, o que é ainda mais importante, a essência da arte literária em geral.» (V. Prefácio a «Contos de Tchékhov – volume I, Relógio d’ Água Editores, Julho de 2001).

Esqueceu-se Estaline e os membros do Comité Central do Partido Comunista da União Soviética de que aquele Templo, para além de um local de culto religioso ortodoxo, culto seguido por milhões de russos, era também um símbolo da vitória na Grande Guerra Pátria contra Napoleão em 1812-14. O Czar Alexandre I, mais inteligente ou melhor conhecedor dos sentimentos do povo russo do que Estaline, quis, como escreveria Fiódor Dostoiévski, «glorificar precisamente esta vitória».

É-me difícil compreender este acto criminoso, que não tem qualquer justificação, encontrando paralelo nos crimes que os fundamentalistas islâmicos estão agora a perpetrar nas ruínas de Palmira.

A questão religiosa, nomeadamente no que ao poder da Igreja Ortodoxa diz respeito, foi uma das preocupações do primeiro governo revolucionário, como o demonstra em um dos seus primeiros decretos impondo a separação da Igreja e do Estado, tentando cortar cerce um poder que se vinha acentuando, nomeadamente nas grandes influências exercidas no reinado de Nicolau II, o último Czar, por sua vez dominado pela Imperatriz e esta por Rasputine, o tal, segundo aquela, «a quem Deus diz tudo», o qual acabou assassinado por familiares da corte sem que a influência da Igreja Ortodoxa diminuísse, embora a Revolução já estivesse em marcha e as pressões sobre Nicolau II a intensificar-se e este «na noite de 15 para 16 de Março (de 1917) abdica em favor de seu irmão o grão-duque Michel, que não chega a reinar» (Jean Bruhat, «História da URSS») e aquele decreto tratou o problema como devia ser tratado, não devendo esquecer-se que ao leme estava Lénine. No entanto, há uma outra referência que não pode deixar de ser feita e que se refere ao que se seguiu à insurreição clerical na cidade de Shuia e que, na estimativa do historiador Orlando Figues, 8 mil sacerdotes e leigos foram executados, mas a crueldade numa guerra civil, seja em que país for, é sempre uma constante. O professor Christopher Read («Lenin», London, 2005, Routledge) afirma que, apesar de o terror ter sido utilizado na Guerra Civil, «de 1920 em diante, a apelação ao terror foi muito reduzida e desapareceu dos discursos tradicionais de Lénine e na prática» (v. https://pt.wikipedia.org/wiki/Lenin).

O ateísmo marxista é inerente à própria filosofia. Escreve Roger Garaudy («Marxisme du XX.eme Siècle», Ed. La Palatine, Paris-Genève, 1966), que «O ateísmo, no marxismo, é uma consequência do humanismo e um aspecto da luta contra o dogmatismo», mas convém, no entanto, falar um pouco dos seus antecedentes, a começar pelo ateísmo do século XVIII –dos socialistas utópicos- e no seu combate, nomeadamente, contra a Igreja que justifica o despotismo como um direito divino. «A sua luta contra a religião é uma luta pela liberdade contra a tirania» (R. G., o. c.), é uma luta política. O ateísmo do século XIX combate a religião não aceitando a sua explicação não científica do mundo. O ateísmo marxista provém de uma análise mais profunda da história, a qual nos mostra não só a autonomia do homem como também que a Igreja sempre considerou como uma vontade de Deus “todas as dominações de classe: escravatura, servidão, assalariado, e os mais recentes chamamentos da «doutrina social» mantêm esta orientação fundamental. Esta experiência histórica irrecusável Karl Marx resumiu-a numa fórmula lapidar: «A religião, é o ópio do povo.»” (R. G., o. c.).

Sendo verdade que a «fórmula lapidar» é da autoria de Karl Marx não pode olvidar-se o facto de que essa ideia é comum a autores anteriores a Marx, muito presente em autores do século XVIII e XIX, como acima escrevemos, em filósofos como Kant e Feuerbach, nomeadamente, mas outros poderiam ser referidos, como o Marquês de Sade. Ora, não há nada na filosofia marxista que permita combater a religião dinamitando os seus templos, muito menos um templo com o significado deste para o povo russo, como também já referimos, esquecendo Estaline e os seus apaniguados do aparelho burocrático —que dominava já o Partido Comunista da URSS e onde os seus militantes tinham cada vez menos poder de intervenção—, com esta burocracia a separar-se cada vez mais da classe operária e dos principais actores da revolução, com estes a começarem a ser tratados como a inquisição tratava os hereges. Sabemos que a melhor forma de combater a alienação religiosa será criar condições para que as pessoas, o povo menos culto, vivam sem necessidade de entregar o seu direito à felicidade num orar a um deus, seja ele de que religião for, criando assim a ilusão de que esse deus será capaz de resolver os seus problemas, aprofundando a igreja a ideia de que, para se ser feliz, se torna necessário sofrer na terra como caminho para mais facilmente se conquistar o reino do céu. Para o oprimido, ou para os «humilhados e ofendidos» de que fala Fiódor Dostoiévski, a religião é a última oportunidade para manter alguma esperança em que a sua situação venha a ter alguma melhoria, será o seu último suspiro por uma vida melhor. Relembremos o que nos diz François Châtelet, em «O Pensamento de Hegel» (Editorial Presença, Lx., Julho de 1976), não olvidando que é o pensamento de Hegel que o autor comenta: «A religião de um povo não é simplesmente uma crença, é a expressão do conhecimento (e do grau de conhecimento) que ele tem de si e da sua relação com o mundo.» (pág. 170). Ora, convém lembrar que aquela fórmula de Marx tem de ser enquadrada no devido contexto histórico. Também não podemos deixar de lembrar que o marxismo é uma filosofia humanista e naturalmente contrária a qualquer dogmatismo e todos os crimes de Estaline não podem deixar de ter nesta filosofia uma evidente condenação.

O período do acontecimento que referimos era o da consolidação do poder de Estaline, poder esse que se foi cimentando graças à sua capacidade para a intriga, o aproveitamento da doença de Lénine, que o levaria à morte em 21 de Janeiro de 1924, na cidade de Gorki, que o impediu de acompanhar o dia-a-dia da governação desde, praticamente, 1920, estado de saúde que se agravou com vários acidentes vasculares cerebrais, em 26 de Maio de 1922, o primeiro, seguindo-se um outro em 16 de Dezembro do mesmo ano e um terceiro em 10 de Março de 1923. O estado de saúde de Lénine foi inclusive aproveitado por Estaline para explorar as divergências existentes entre Lénine e Trótski, falhando neste caso tal objectivo, bastando, para isso, recordar o chamado «testamento de Lénine», documento este que foi ocultado aos membros do Politburo, sendo Trótski nisso conivente com Estaline, erro que àquele iria sair muito caro.

Morto Lénine, torna-se «dono» da União Soviética no período de 1925-1927, por ele aproveitado para eliminar os dirigentes revolucionários mais importantes, os companheiros de Lénine. A capacidade para a intriga de Estaline mostra-se também no aproveitamento que faz para ir instalando o seu projecto de poder na própria guerra civil, iniciada em Agosto de 1918, e os seus crimes mais odiosos são também escondidos pelo secretismo que impõe e, depois, pela Segunda Guerra Mundial, sobretudo com o prestígio que a vitória lhe permite cimentar, como se fosse ele o seu único obreiro.

Voltando à questão religiosa, é um facto que até 1921 a Igreja Ortodoxa não foi molestada, assim como nenhuma outra religião; os problemas começam a acentuar-se com a entrega do poder totalitário a Estaline, o ex-seminarista, e, na época que estamos a tratar, 1930, não é indiferente a existência de problemas graves resultantes do primeiro plano quinquenal (1928-1932), problemas esses que procuraremos desenvolver no texto que temos projectado: «Em Viagem pela Rússia».

Com os documentos entretanto divulgados, dando origem a muitas obras de historiadores contemporâneos, julgo poder ousar afirmar que a dinamitação do Templo de Cristo Salvador era o aprofundamento do terror que Estaline já vinha a instalar na União Soviética e que levaria à morte de milhões de russos, aprofundamento esse que tinha sido antecedido de uma campanha contra a igreja, com o assassinato de muitos religiosos, e com a colectivização forçada que provocou o derramamento de muito sangue. «…, a linha política que acabou por ser adoptada em Maio de 1933 orientou-se noutro sentido, tornando o imprevisível “interlúdio” de 1933-1934 ainda mais digno de nota. Um país presa da fome não aceita a ideia de que o seu chefe supremo nada tem a ver com o assunto. Por isso, a situação económica teria de melhorar e o prestígio de Estaline de ser restaurado, antes do momento em que seria desencadeado o terror de massa, que deveria, por outro lado, assumir o aspecto de uma manifestação de firmeza. Estaline planeava um quadro de loucura assassina, mas fazia-o de modo extremamente metódico.» (Moshe Lewin, «O Século Soviético», Campo de Comunicação, Lx., 2004).

Várias gerações nasceram no regime comunista da União Soviética e, desaparecido este, de imediato surge de novo a igreja ortodoxa cheia de pujança. Com o fim da União Soviética, o desastre do método escolhido pelo aparelho do Partido Comunista para combater a religião foi claramente demonstrado. A Igreja Ortodoxa recuperou todo o seu poder, poder esse que nem sequer Putin parece ignorar, e hoje está bem presente em toda a vida russa, contando com a protecção da própria lei que impõe grandes restrições à actividade de outras religiões, ou seja, podemos dizer que, em matéria religiosa, a igreja ortodoxa russa detém um quase monopólio.

E foi com a maior das facilidades que membros importantes da Igreja Ortodoxa Russa criaram uma organização pública que levou à reconstrução, sob orientação do arquitecto russo M. Posojin, do Templo de Cristo Salvador, respeitando o projecto do século XIX, reconstrução essa que se iniciou em 1994 e, seis anos depois –o primitivo levou mais de 40 anos, lembremos-, com a presença de toda a hierarquia da Igreja Ortodoxa, aconteceu a cerimónia da sua sagração, ao que dizem uma réplica perfeita do templo dinamitado, o que não deixa de ter uma enorme carga simbólica. Há uma questão que não pode deixar de se colocar: que favoritismos, conivências do próprio poder, com Boris Yeltsin, tornaram possível esta reconstrução? Claro que o principal contributo veio, ao que parece, dos fundos estatais (80%?), dos fundos privados, daqueles que tinham adquirido as grandes empresas russas a preço de saldo, homens de negócios, a que se juntaram empresas ocidentais como a Philips, a McDonalds e o Presidente argentino Menem, como pode ver-se na inscrição existente no templo, só assim sendo possível reunir perto dos 500 milhões de euros necessários à sua reconstrução.

Rússia - IIIa

O Templo de Cristo Salvador e vista parcial de Moscovo a partir do Templo, com o Kremlin à esquerda (1)

É um templo impressionante, apresentado como o mais importante da Igreja Ortodoxa Russa, cuja reconstrução obrigou, naturalmente, a uma enorme investigação científica que tornou possível estarmos perante uma cópia do Templo original, para a qual foram utilizadas técnicas antigas para reconstruir os grupos escultóricos e os objectos de culto indispensáveis para o funcionamento do Templo, chegando-se mesmo ao ponto de fundar escolas de frescos, técnicas estas entretanto perdidas.

Rússia - IV

Vistas parciais do interior do Templo de Cristo Salvador (1)

No revestimento interno das paredes, por exemplo, há combinações de peças de pedra de vários tons e cores. Pode ver-se a recriação de um ícone em forma de capela octogonal feito de mármore branco, capela essa que tem um perímetro na base do octógono de 40 metros. Lembro também notáveis trabalhos de escultura e de incrustação de muitos metros quadrados, as galerias que rodeiam a zona interna do templo, sendo a primeira utilizada para recordar a guerra de 1812-14, referindo também o local do conflito, os nomes do seu comandante e dos mortos e feridos, os heróis condecorados. A segunda galeria é a do coro da igreja.

Não me é possível descrever a totalidade do templo, que me pareceu mais um museu do que um local de culto, admitindo que esta impressão seja uma consequência do meu ateísmo.

Lagos, 2015-09-13

NOTA:

(1) – Imagens retiradas de https://commons.wikipedia.org/wiki/

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

Leave a Reply

%d bloggers like this: