CARTA DE ÉVORA – FRAGMENTOS… SOBRE POLÍTICA – por Joaquim Palminha Silva

carta de évora

 

            Não me venha o leitor para cá falar agora da vida espiritual dos partidos e da imprensa escrita, da ginástica mental, do esplendor das ideias!

            O que eles querem é discussão, palavrório à rede solta, piadas, pitoresco, “diz que disse”, gestos e gritos, e uma dose de má-língua, para ajudar a esmoer o pensamento crítico dos ouvintes e dos leitores. Ora atentem para este nível cultural…

            Um cavalheiro, que também é candidato a deputado e professor no ISCTE, a finalizar uma prosa publicada no jornal (Público,16/9/2015), sobre as eleições legislativas encontra esta desportiva expressão: «[…] depois de 4 de Outubro a bola estará muito provavelmente no campo das esquerdas». De facto, somos muito industriosos em matéria futebolística… Até um editorialista de um diário de referência (Público, 9/9/2015) saca do bestunto, a propósito do debate entre os chefes dos dois maiores partidos, a lengalenga dos adeptos do futebol: «… António Costa e Passos Coelho devem jogar para o empate no debate de hoje? Seguindo a gíria futebolística, quem não marca golos arrisca-se a sofrer e ninguém gosta de assistir a uma disputa em que os contendores se rementem sistematicamente à defesa.».

            No conjunto, imprensa e televisões escreveram e falaram do debate entre os dirigentes dos dois partidos (PSD e PS) como se tal fosse jogo de futebol, atirando para a atmosfera política do País, já de si bastante poluída, uma série de expressões que costumam municiar as imagens dos estádios, com a agravante da dicotomia simplória do “ganhou/perdeu”… Enfim, através desta gente “iluminada”, a imagem que os portugueses formam e retém da política recorta-se dentro de uma moldura de vulgaridade, e arrasta multidões para comparações de candonga mental.

            Nesta ordem de ideias, a programação de três jogos de futebol no dia das próximas eleições legislativas, pela Liga Portuguesa de Futebol Profissional, não tem nada de escandaloso, como querem os partidos e alguns intelectuais desprevenidos. Quem anda a dar aos cidadãos a imagem de que o futebol é a coisa mais importante deste mundo, não foi o próprio futebol, mas sim os media, os dirigentes políticos e os intelectuais da treta que, como vimos, “roubaram” aos relvados comparações disparatadas.

            «Porque reparas no argueiro que está na vista do teu irmão, e não vês a trave que está na tua vista? […] Hipócrita, tira primeiro a trave da tua vista e, então, verás melhor para tirar o argueiro da vista do teu irmão», (Mt., 7; 1-5).

*

            Apercebemo-nos todos os dias, com perplexidade e tristeza, que o primado do espiritual está transformado numa recordação histórica ou num vago vestígio de um passado não muito remoto, todavia ultrapassado pelo “progresso”, enquanto se torna ascendente o primado do económico.

            À semelhança de um monstro que irrompesse de faunas pré-históricas, e portanto há muito extintas, o económico coloniza todas as áreas de actividade humana, mesmo as mais avessas à sua existência materialista, como seja a solidariedade a prestar ao nosso semelhante. Veja-se…

            O vice-chanceler alemão defendeu (18/8/2015) que os países que se recusem a aceitar refugiados deveriam deixar de receber o dinheiro de Bruxelas… Isto é, defende-se a ideia de solidariedade europeia imposta autoritariamente, e com recurso à chantagem económica! Naturalmente, tal medida é preconizada em nome do combate ao egoísmo de alguns países da União Europeia (UE) …

            Não sei se a UE está na iminência de ser dominada pelos indiferentes e impassíveis, pelos fraudulentos e astuciosos, pelos ateus praticantes e pelos materialistas triunfadores, pelos hipócritas bem-pensantes e pelos políticos racionalistas e calculistas, mas sei que não é obrigando os Países a cumprirem com o dever de solidariedade humana, sob risco de sancções económicas, que se ganham discípulos para o idealismo humanitário, tão necessário nos dias que correm… – Equívoco importuno e flagelador, assim só se produzem Países ressabiados e, a longo prazo, povos inimigos da União Europeia no seio da própria UE!

            Na verdade, a UE chafurda num lameiro, besuntando-se de lodo fronteira após fronteira!

a grande porca
Caricatura de Rafael Bordalo Pinheiro, 1900

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