Aura Miguel, a jornalista portuguesa mais fatimista e mais papista de Portugal, acaba de entrevistar, em exclusivo para a Renascença, o papa Francisco. Os bispos portugueses têm mais do que motivos para temer que, se não fizerem nada de maquiavélico junto do papa, o meu livro FÁTIMA S.A. ainda possa vir a ajudá-lo a discernir os acontecimentos relacionados com as chamadas “aparições” de Fátima e, em consequência, a sua já anunciada vinda ao santuário em Maio de 2017 acabe por não se concretizar. Aproveitaram, por isso, a sua recente presença em massa no Vaticano, por ocasião da canónica visita “Ad Limina”, para conseguir que as portas da Cúria romana se abrissem à Rádio Renascença e à sua jornalista de eleição para assuntos relacionados com os papas de turno e com Fátima, esta última, a grande referência da igreja católica católico em Portugal, séculos XX e XXI. E a verdade é que a desejada entrevista com o papa acaba de acontecer. Para vergonha do papa Francisco, que ingenuamente confia nos bispos fatimistas portugueses e não vê que eles estão a ser para ele um “demónio”, tal como, em seu tempo, Simão Pedro, o chefe dos “Doze”, foi para Jesus Nazaré. Com uma substantiva diferença. Jesus, ao contrário do papa Francisco, resiste a Pedro e não hesita em chamar-lhe de caras, e aos outros onze, “Satanás”.
Nesta entrevista, o papa é posto a dizer, na abertura de um dos extractos, editados pelo Portal Sapo, «Portugal é “privilegiado” por ter o santuário de Fátima». Assim mesmo, sem tirar nem pôr. O que é objectivamente uma vergonha, uma humilhação das populações católicas ainda não evangelizadas pelo Evangelho de Jesus e, por isso, insistem em confundir fé com ancestrais medos, é, para o papa Francisco, também ainda não evangelizado pelo mesmo Evangelho de Jesus, tão-só pelo de S. Paulo, “um privilégio”. Esta postura papal é de bradar aos céus e à Fé-teologia de Jesus. Sobretudo, de bradar à esmagadora maioria da humanidade, condenada à eterna condição de vítima de minorias espertalhonas, entre as quais se incluem os chefes das religiões, das igrejas cristãs e dos governos das nações.
Ainda assim, no corpo do texto da entrevista, o papa é posto a dizer, a propósito da sua possível vinda a Fátima em 2017, “Quanto a Portugal, [já] disse que tenho vontade de ir e gostaria de ir. É mais fácil ir a Portugal, porque podemos ir e voltar num só dia, um dia inteiro, ou, quanto muito, ir um dia e meio ou dois dias. Ir ter com a Virgem. A Virgem é mãe, é muito mãe e a sua presença acompanha o povo de Deus. Por isso, gostaria de ir a Portugal, que é privilegiado.” Como se percebe, ter vontade de vir e gostar de vir não é a mesma coisa que vir. O anúncio deste desejo do papa Francisco de vir a Fátima está mais do que feito e divulgado, mas, daqui até Maio de 2017, muita água correrá sob as pontes. Nada está garantido. Até porque, neste tipo de assuntos rascas, como são todos os assuntos eclesiásticos e de “aparições da virgem”, a hierarquia católica romana põe e a progressiva lucidez dos povos e da Ciência dispõe.
Uma coisa preocupante, até, assustadora, nesta entrevista à RR, como, de resto, em muitas outras concedidas a outros órgãos de informação, é vermos que o papa Francisco insiste em dar uma no cravo e muitas mais na ferradura. Conforme os momentos e os humores. Quer ser pastor, mas não deixa de ser o papa de Roma, o poder monárquico absoluto, por isso, a negação do pastor, do ser humano. A visão moralista-cristã-mítica que ele tem da realidade do mundo de hoje e da igreja católica romana chega a ser confrangedora, tantas as contradições em que incorre. Desde logo, a de querer ser pastor, igual entre iguais, sem deixar de ser o papa. O mais doloroso disto é que nem o próprio chega a dar-se conta da manifesta contradição. Como é igualmente manifesta a nenhuma eficácia do muito que ele diz e faz. Porque é sempre o papa que diz e faz. Não o ser humano simplesmente.
A sua palavra pode ter e tem uma repercussão universal, mas é completamente estéril. Ruído. Manchete nos grandes media. Que tem o terrível condão de deixar o mundo mais às escuras e os povos das nações mais à deriva. Entregues a todo o tipo de mercenários, disfarçados de governos e de sacerdotes-pastores de igrejas cristãs, ao serviço do poder financeiro global. Para os quais, os seres humanos e os povos das nações não têm lugar, não têm voz, não têm vez. Quando muito, alguma assistência social, sob a frorma da humilhante esmola, no lugar da justiça social. Só o papa de Roma e os outros grandes agentes do poder, nos três poderes, sem dúvida, os grandes carrascos dos seres humanos e dos povos das nações, têm voz e vez. Que, para cúmulo, as suas vítimas ainda têm de adorar-idolatrar, aplaudir, dar o seu voto, em sucessivos actos eleitorais.
Nesta entrevista à RR, o papa chega a meter dó. Confunde alhos com bugalhos. Teologicamente, não acerta uma. A esmagadora maioria das populações e dos povos das nações não dá conta, porque a ideologia-teologia do cristianismo católico e protestante é uma ideologia-teologia que anestesia-cega-mata quantas, quantos a seguem. Sem terem como lhe escapar, já que ela está em todo o lado, como um demónio, inclusive, na mente-consciência de cada qual, ateus incluídos, enquanto não for expulsa por nós, cada uma, cada um de nós. Não fosse assim e tudo seria diferente, como quis, quer Jesus, o filho de Maria, em total sintonia com o Projecto político original de Deus Abba-Mãe de todos os povos por igual.
Porém, como chegar a Jesus e, por ele, com ele e nele, a Deus que nunca ninguém viu, se, logo a seguir à sua morte crucificada, o cristianismo se intrometeu neste processo histórico e, desde então, tem estado aí, superactivo, a impor por todos os meios a sua ideologia-teologia de poder absoluto e invencível? É precisamente nesta corrente satânica – a classificação “satânica” é do próprio Jesus Nazaré (cf. Marcos 8, 32-33) – que se insere a entrevista dada pelo papa à jornalista Aura Miguel, da RR. São crimes e crimes instigados-alimentados pela fé cristã religiosa, negadora da Fé maiêutica de Jesus Nazaré, a única que levanta e faz viver de pé os seres humanos e os povos das nações que a acolhermos-praticarmos.
Sublinhe-se, por fim, que o papa denuncia, nesta entrevista, a “corrupção”, como um dos grandes males-pecados do nosso tempo. Mas não vê que o maior exemplo de corrupção em Portugal, é precisamente o santuário de Fátima com sua mítica senhora, que ele admite vir visitar. Vejam só a confusão-cegueira que anda na cabeça do papa Francisco, como na dos bispos católicos que regularmente frequentam o santuário e co-presidem àquelas vergonhosas e humilhantes “peregrinações” mensais, ano após ano! Sem quererem saber das multidões e dos seus múltiplos penares quotidianos. Menos ainda de quem fraternalmente os adverte. Acabam por ser todos objectivamente cínicos, cruéis. Para cúmulo, ainda se orgulham disso! Até que, de tudo aquilo em Fátima, não fique pedra sobre pedra. Como não ficou do faustoso templo de Jerusalém, covil de ladrões, no ano 70.