Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Não contem com Merkel
Loren Balhorn, Don’t Count on Merkel – The German left must fight for a solution to the refugee crisis that doesn’t involve more fences, border guards, or racist demagoguery.
site Jacobin, 4 de Setembro de 2015
(continuação)
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Quem são os racistas
Como a preocupação pública sobre a reação anti-asilo tem crescido, da mesma forma tem também crescido a discussão pública sobre as origens da violência constatada. Muitos políticos alemães são rápidos em apontar o dedo para o leste, ou seja, para os cinco estados da antiga República Democrática Alemã.
É verdade que a violência racista ocorre desproporcionalmente nos estados do leste – particularmente na Saxónia, onde foram registrados mais de 20 por cento de todos os ataques racistas na Alemanha este ano. Embora o maior número de ataques incendiários tenha na verdade ocorrido na Baviera, uma das regiões mais ricas da Alemanha, quando medido relativamente à população a leste tem havido mais violência racista e níveis mais elevados de apoio aos partidos políticos de extrema-direita.
O ministro do Interior da Renânia-Palatinado, Roger Lewentz, recentemente atribuiu essa discrepância com os níveis mais elevados de xenofobia a leste por uma histórica falta de contacto com não-alemães. Mas este tipo de explicação é tanto problemático empiricamente como é analiticamente enganosa por várias razões.
Em primeiro lugar, assume-se que o racismo e a xenofobia são simplesmente produtos de uma falta de contacto multicultural (o reverso de um outro argumento que os principais políticos alemães gostam muito, que é o de considerar que o racismo é um produto de muita imigração e do multiculturalismo), ignorando-se intencionalmente o papel desempenhado pelos media e pelos políticos ao alimentarem sentimentos anti-imigrantes. Isto também sugere que na ausência de contacto com culturas estrangeiras, as pessoas são racistas por causa dessa ausência. A linguagem utilizada por Lewentz, ou seja, que a coexistência multicultural “deve ser aprendida”, reforça essa ideia.
No início deste ano, o intelectual de esquerda Raul Zelik também contestou esta lógica, argumentando que não é um nível mais elevado de migrantes que torna a sociedade mais tolerante, mas que é sim a própria actividade política dos migrantes que torna as ideias racistas menos aceitáveis e menos poderosas no interior de uma sociedade mais ampla.
Em vez de atribuir os níveis relativamente baixos de violência racista a oeste ao facto da sociedade alemã ocidental ser aquí mais esclarecida ou tolerante, é o papel vital desempenhado pelos próprios migrantes na organização de auto-defesa anti-racista que leva a que se tenha essa ideia. No leste, onde vinte e cinco anos de desindustrialização e de-despovoamento fizeram da região um destino económico relativamente pouco atraente, esta história e capacidade organizacional é muito menos prevalecente.
São precisamente os processos de desindustrialização e de despovoamento – com o desemprego duas vezes mais elevado a leste, e muitas vezes muito mais elevado nas áreas rurais, onde a extrema-direita é mais forte – que levou a privação generalizada dos direitos e à frustração no leste da Alemanha, oferecendo uma base material sobre a qual as visões do mundo muito simplificadas e racistas podem prosperar.
Numa região onde a política socialista está associada com o legado do estalinismo por um lado, e as políticas relativamente mansas do establishment do Partido do Socialismo Democrático (a maior componente do que é agora Die Linke), por outro, deve aparecer como não sendo nenhuma surpresa que as explicações aparentemente radicais de extrema-direita são capazes de atrair um público maior na Alemanha a leste do que poderia acontecer em qualquer outro lugar.
Ao mesmo tempo, a força da extrema-direita é reforçada pela tendência histórica do estado alemão (particularmente na Saxónia) de ignorar e subestimar o perigo representado pela extrema-direita, enquanto dedica desordenadamente recursos para monitorar e processar as actividades da extrema-esquerda – a polícia da Saxónia continua a perseguir os antifascistas que lideraram os bloqueios não violentos anti-nazis em Dresden, há cinco anos, mas não prendeu um único dos racistas saqueadores de há duas semanas em Heidenau.
Agentes da polícia alemã – particularmente no leste – são tão profundamente entrelaçados com as estruturas neonazis que se poderia argumentar que a polícia contribui mais para criação da extrema-direita do que para a sua desconstrução.
Na verdade, a última vez que o estado alemão tentou proibir o Partido Nacional Democrático (NPD, a coisa mais próxima que a Alemanha como partido nazi moderno), a acusação acabou por fracassar porque muitos dos principais funcionários do NPD eram de facto agentes pagos pelo Estado. Isto permitiu que profundas redes neo-nazis se estabelecessem em algumas regiões do leste, como na região conhecida como a Saxónia Suíça, e estas redes muitas vezes servem como as únicas alternativas culturais juvenis em áreas rurais empobrecidas.
Por último, e mais importante, a extrema-direita pode ser mais forte no leste, mas também está viva e bem, a ocidente. Enquanto a maioria dos sucessos eleitorais do NPD desde a reunificação tenham ocorrido a leste, muitos dos seus quadros dirigentes são alemães ocidentais, que viram aqui uma oportunidade de crescimento no início dos anos 90 e se mudaram então.
A Alemanha Oriental tinha muitas das suas próprias estruturas de extrema-direita antes da queda do Muro de Berlim, mas foram organizações ocidentais que financiaram e profissionalizaram as suas operações, e estas organizações continuam a operar em ambos os lados da antiga fronteira inter-alemã. Por exemplo, Dortmund, uma cidade de classe trabalhadora no fundo do coração industrial do oeste, é notória pela violência da direita contra os imigrantes, os esquerdistas, e até mesmo contra os políticos burgueses.
Retratar a xenofobia como o domínio de sub-proletários desclassificados da Alemanha Oriental, como muitos o fazem, distorce a realidade no terreno e obscurece o perigo muito real do que a violência de extrema-direita representa para todo o país – especialmente para os imigrantes e para os que falam em pedidos de asilo.
O clima anti-refugiados que surgiu na Alemanha é mais complexo e está ligado a tendências de longo prazo na sociedade, nomeadamente o que o cientista social Oliver Nachtwey descreve como uma “sociedade nervosa.” A Alemanha permanece relativamente isolada dos efeitos da crise europeia, mas ainda está a sofrer o mesmo declínio de longo prazo na mobilidade social e participação democrática que o resto da UE está a enfrentar.
Como os salários estagnam e os partidos da democracia capitalista se tornam cada vez mais homogéneos, o medo de um maior declínio social é ainda maior, assim como é a percepção de que o sistema está a tornar-se permanentemente disfuncional. Na falta de uma alternativa de esquerda visível, e alimentado pela retórica racista do establishment político da Alemanha, este medo é projectado em vários “outros” – os gregos preguiçosos, os refugiados criminosos dos Balcãs, etc.
Na verdade, o isolamento relativo da Alemanha a partir da crise europeia, na verdade, agrava essa dinâmica – muitos alemães estão com medo que o seu nível económico e social vá diminuir devido às políticas com que o governo alemão tem forçado a aplicar na periferia europeia, e de verem os imigrantes e outros grupos como ameaças à sua relativa prosperidade.
É por isso que a nova direita da Alemanha tem sido capaz de se esconder atrás da linguagem da lei e da ordem, dos direitos humanos, do secularismo, e questões similares. Ao invés de organizar as massas de pobres alemães atrás de slogans de superioridade racial ou da expansão oriental, a direita alemã tem-se tornado crescentemente atractiva para largos estratos da classe média educada do país.
Hoje, a extrema-direita fala de democracia participativa (apenas para os brancos, é claro), de protecção dos padrões vida da classe média e da defesa dos direitos das mulheres contra os refugiados invasores do leste.
As cenas altamente desagradáveis de xenofobia galopante e a massiva contra-resposta por parte do establishment político e, muito mais importante, da mais ampla população alemã, provavelmente irão impedir este crescimento, pelo menos temporariamente. Mas isto não é nenhuma garantia para o futuro. Tanto quanto a Europa prossegue na sua espiral descendente politica e economicamente estas tendências vão pois continuar – e levar possivelmente a que se organize uma ampla alternativa de esquerda que é cada vez mais necessária.
(continua)
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Ver o original em:
https://www.jacobinmag.com/2015/09/european-union-refugee-crisis-germany/
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