AS NOSSAS ENTREVISTAS – AS RESPOSTAS de CARLOS DE MATOS GOMES

entrevista1

Imagem2

1 – Nas sua crónicas, os Biscates, tem abordado diversos problemas da realidade nacional e internacional. Hoje pedimos-lhe que nos indique, numa lista, quais são, no seu entender, os principais problemas que afectam o nosso país.  Se desejar organizar a lista por ordem de prioridade, faça favor. A referência a cada problema terá de ser necessariamente sucinta, mas não se autolimite caso achar que deve desenvolver a(s) referências que decidir incluir.

O grande problema de Portugal, ao longo da História, tem sido o da afirmação. Somos demasiado pequenos para nos afirmarmos como uma potência autónoma e liderante. A nossa afirmação como nação independente tem sido feita através da conjugação de alianças, de dependências que nos assegurem alguma autonomia de decisão. A necessidade de afirmação faz com que hoje nos defrontemos com um problema de nem sabermos quem somos, nem para onde vamos, nem com quem. Somos um navio perdido no nevoeiro, comandado por gente que não sabe da arte da marear e por isso navega à vista segue acriticamente quem está mais perto e parece mais forte. Portugal tornou-se insignificante em todos os sistemas de relações internacionais. É irrelevante na União Europeia, por seguidismo acrítico, é insignificante no Atlântico, enquanto parte do mundo das potências marítimas, é até insignificante no seio da Comunidade dos que falam português.

A primeira questão para a afirmação de Portugal passa pela alteração da atitude “hímen complacente” que os dirigentes portugueses têm tomado como princípio.

2  – Como vê o espectro partidário actual em Portugal? Acha necessário haver mais partidos? Por outro lado, acha necessário dar mais espaço às candidaturas individuais e aos movimentos sociais? Que alterações acha necessário introduzir neste campo?

Mais do que aumentar o número dos partidos julgo ser necessário mudar a relação dos portugueses com a política. Os atuais partidos resultam da vontade dos portugueses e reflectem os portugueses. Julgo que devemos fazer uma distinção entre partidos políticos e movimentos sociais. Nem todos os movimentos sociais devem ser transformados em partidos, e isso está a acontecer com grande ligeireza e pouca eficácia. Julgo preferível, na medida do possível, que os movimentos sociais integrem os partidos, em vez de se transformarem em partidos.

3 – Ao nível internacional e mundial quais são para si os principais focos de tensão actualmente? Pedimos que nos resuma as suas previsões relativamente a cada um. E que delineie como vê o (des)equilíbrio na ordem mundial  futura.

O primeiro, o conflito entre Estados Unidos e a Rússia, em que a Europa se envolveu através da Ucrânia e da NATO. A Europa perdeu uma oportunidade de se alargar, de se reforçar, de se tornar num grade ator mundial. Os Estados Unidos impediram que assim fosse. A Rússia sguirá o seu caminho com a China, com alguns países emergentes e a Europa será cada vez mais uma região secundária dos Estados Unidos;

O segundo diz respeito à crise do arco islâmico – o arco que “abraça” a Europa do Afeganistão a Marrocos, que inclui o Médio Oriente e a margem sul do Mediterrâneo. É o mais persistente e complexo problema mundial.

O terceiro grande foco de tensão é a própria União Europeia, a mais rica região do planeta, que está em implosão a vários níveis: a nível político, pela incapacidade de ser uma união política – a saída da Grã Bretanha pode decretar o seu fim; a nível económico, financeiro e, o mais grave de todos, a nível do simbólico: deixámos de ser europeus e voltámos aos nacionalismos, o que tem uma consequência muito comprovada: a guerra.

4 – Como militar, um militar que participou no 25 de Abril de 1974, que papel acha que as Forças Armadas devem desempenhar no Portugal presente e futuro?

Sinceramente não sei se Portugal ainda tem Forças Armadas, se tem apenas um pequeno aparelho militar. As Forças Armadas integram valores morais e capacidades materiais. Para existir Forças Armadas tem de se ter resposta para a pergunta: batemo-nos porquê?

A ideologia dominante do neoliberalismo ao transformar todos os valores em valores de mercado, retirou a razão de ser à existência de Forças Armadas. Hoje o que existe são consumidores e fornecedores, são credores e devedores. Não há lugar para soldados, apenas para agentes de segurança, se possível privada.

5 – Acha que Portugal pode continuar na União Europeia? Em que condições? Em caso de opção pela saída, quais as condições que se deveria tentar obter?

A questão é a da existência da União Europeia. A UE nos atuais moldes, com os atuais tratados e com a liderança da Alemanha não é viável. Está, aliás, em processo de desagregação. A questão é a de Portugal, com um novo governo, poder dar um contributo para restaurar uma nova União, ou até a mais do que uma. Admito que existam na Europa várias conjugações políticas e económicas. Uma União Federal com alguns estados, uma zona de comércio livre com outros. O sonho europeu, a ideia de uma identidade europeia, em que todos os membros se sentisse cidadãos do mesmo grande desígnio, esse morreu com a crise grega. Os membros do Eurogrupo ficam para a história como os seus coveiros.

6 – Uma questão teórica. Como distingue, em termos práticos, democracia representativa, democracia participativa e democracia directa?

A democracia representativa assenta em partidos políticos representativos de interesses que recebem um mandato de “largo espetro” daqueles que representam e se instalam de modo estável e duradouro numa instância de poder, o parlamento.

A democracia participativa, que pode coexistir com a representativa, permite e exige a intervenção dos cidadãos em assuntos constitucionalmente pre-determinados ou a pedido dos cidadãos, com a obrigação da sua vontade ser respeitada. Caso dos referendos.

A democracia direta é típica de sociedades de pequena dimensão. É a democracia de proximidade. Julgo ser eficaz e desejável em pequenas comunidades, mas que tem o risco do populismo e do caudilhismo em sociedades mais complexas.

Leave a Reply