EDITORIAL – PORTUGAL, O PROCESSO ELEITORAL E O DIA 5 DE OUTUBRO DE 2015

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Domingo, há eleições para a assembleia da república. Temos sido submersos em sondagens e comentários, reportagens e entrevistas, com o objectivo aparente de nos informar e incentivar à participação. É duvidoso que seja conseguido, pelo menos da maneira que se aparenta pretender. Vários factores parecem querer conjugar-se para fazerem com este acto político (usemos uma expressão pomposa), independentemente do resultado das votações, venha a agravar ainda mais o sentimento de marasmo (do pântano, se preferirem) que domina os portugueses. A abstenção vai ser alta, apesar de a grande maioria dos nossos concidadãos ter preocupações grandes quanto ao futuro. Mas mesmo muitos dos que forem meter o voto na urna, vão sentir-se cada vez mais defraudados, mesmo que a força política porque optarem no domingo vença. O sentimento de viver num mundo à parte dos negócios políticos vai crescer, na medida em que estes darão cada vez mais a sensação de não dizerem respeito à vida dos cidadãos comuns.

As sondagens e o modo como foram dadas a conhecer asfixiaram o debate político ao longo de toda a campanha. Esta opinião foi expressa por várias pessoas, incluindo a insuspeita Manuela Ferreira Leite. Os debates à volta dos programas dos partidos, da segurança social, da dívida pública, da devoluções dos cortes nas pensões e dos salários, do emprego, da educação, que até houve alguns menos maus, para além de algum episódio mais retumbante (em termos de agressividade, não de profundidade que se tenha alcançado), ficaram na sombra dos anúncios das previsões das votações, quase que fazendo esquecer que não substituem estas. E é inteiramente lícito concluir que vieram condicionar o voto, dando praticamente como certo que só duas das forças concorrentes poderão aspirar à vitória, conjugando-se sondagens com opiniões de comentadores e dos próprios apresentadores dos programas, que chegaram a ser apresentadas em autêntico estilo de relato de futebol, ou até de combate de box. As intervenções destes últimos, comentadores e apresentadores, foram de tal ordem que não é preciso ser excessivamente irónico para avançar com a previsão de que, após a época dos políticos que se tornaram comentadores, será a vez dos comentadores e de outros personagens do espectáculo avançarem em peso e em grande número para a política.

Quantas pessoas poderão ter formulado uma opinião minimamente fundamentada após uma campanha semelhante? Com certeza de que terá havido quem se tenha esforçado, entre políticos, comentadores e apresentadores, para esclarecer e informar. Mas no meio da balbúrdia, quem o poderia conseguir efectivamente?

Agrava ainda mais este estado de coisas a promessa do senhor presidente da república, no regresso de um passeio às Américas, de não comparecer às comemorações do 5 de Outubro. Não será com certeza por já não ser feriado e algumas pessoas darem menos consideração à proclamação da república. Parece que será antes por estar a pensar no novo governo. Preparem-se: o espectáculo vai continuar, mesmo depois dos votos contados.

 

1 Comment

  1. Enquanto a tarefa política da População não for a de, com toda a insistência, solicitar às Forças Armadas que ponha termo à burla democrática que a Europa tem estado a impor a Portugal nada de bom sucederá aos portugueses. Na História Contemporânea Nacional nada de significativo aconteceu que não fosse sob a égide das Forças Armadas mas para que o 28 de Maio – as suas consequências – não tenham repetição cabe à População definir o programa da intervenção militar e pedir, muito democraticamente, às Forças Armadas que façam cumpri-lo.CLV

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