Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Eleições contra a Democracia
Dimitris Konstantakopoulos
ÉLECTIONS CONTRE DÉMOCRATIE
“Tornamo-nos, nós os Gregos, os ratos de uma grande experiência na história europeia: “como convencer toda uma nação a suicidar-se ”, porque é disso que se trata . “
1 Setembro de 2015
Dimitris Konstantakopoulos *
Tudo isto é bem penoso como o é ter que escrever e falar destas s coisas. Para todo e qualquer patriota Grego, é penoso (e nem sempre sem perigo) fazer a anatomia da realidade trágica que vivemos, de retirar a máscara dos acontecimentos e dos homens, de desmistificar os homens políticos e as entidades nas quais todo o mundo acreditou , ou mesmo, em que o próprio autor também ele acreditou. Mas, que outra via existiria? Praticamente tomaram-nos quase todo o nosso país. Tentemos, pelo menos isso, preservar a nossa razão. É é somente tendo a coragem de olhar de frente para a realidade que se pode lutar contra ela.
A tragédia deste Verão é um pesado golpe de Estado contra a vontade do povo grego e um grande triunfo do Império. As eleições são apenas um elo suplementar na cadeia de golpes de Estado perpetrados contra a democracia na Grécia, desde o referendo.
Começa-se por assinar o acordo apesar do mandato do povo grego mas também apesar do parecer dos órgãos eleitos de Syriza. Seguidamente, aprova-se uma incrível legislação expressa em várias centena de páginas que ninguém teve o tempo de ler, através de procedimentos degradantes através de uma paródia de Parlamento. Actualmente que isto está feito, esforçam-se, pelo enviesamento das eleições, em condições de choque absoluto, de confusão, de luto e de desorientação do povo grego o o todo provocado pelas acções dos seus líderes que são adequadamente manipulados – temo-lo- pelos estrangeiros – a fim de “reinterpretar ” o resultado do referendo.
Quer-se enterrar tão profundamente quanto possível o pesadelo e as suas Eínias, o NÃO do 5 de julho. Querem cobrir com um ar de legalidade o regime que resultou da violação do mandato do povo grego. Querem salvar, enquanto for ainda tempo, “o Syriza de Tsipras” que, a partir de agora, enquanto existir, é então:
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o instrumento mais eficaz para fazer aprovar os memorandns e abater o centro-esquerda grego,
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o candidato encenador o mais complacente da política americana na nossa região e sobre “as questões nacionais”, para fazer aprovar pontos “crónicos” da agenda de Washington, tais como o desmantelamento do estado cipriota por meio de um novo plano Annan.
Juncker disse-o há alguns minutos depois de Tsipras ter anunciado as eleições. O Presidente da Comissão Europeia exprimiu o desejo de que as eleições alargarão o apoio dos Gregos ao acordo com os credores. As eleições fazem parte da solução, não do problema, disse Merkel que, algum tempo antes, não queria sequer ouvir falar de e eleições.
Juncker bem como toda a Europa tacharam por bem mostrar o contrário: sabem que impuseram uma ditadura na Grécia por meio de um acordo directamente oposto à vontade directamente expresso pelo “ povo soberano”. Esforçam-se, por meio das eleições, “de re-interpretar ” o resultado do referendo. Dirão que os Gregos votaram de novo pelos partidos pró- memorando e, por conseguinte, os gregos apoiam o memorando. Querem legitimar o seu golpe de Estado mas também querem legitimar a destruição de um país europeu pela política que lhes impuseram.
Se Juncker e os seus parceiros , da mesma maneira que Tsipras, querem efectivamente uma legitimação democrática, existe também uma só via democrática para inverter o processo 5 de Julho: realizar um novo referendo e perguntar-nos se estamos de acordo com que o que foi assinado. Com as eleições que eles provocaram, convidam-nos, na verdade, não a decidir se quisermos ou não o seu acordo, mas a decidir quem vai gerir a nossa catástrofe.
Tanto Juncker como Merkel que nos enfiam o dedo no olho até chegar à omoplata! Quaisquer que sejam os resultados das eleições, a questão grega não será encerrada . Antes pelo contrário, isto abrirá o caminho para a fase mais perigosa e mais trágica!
O triunfo do Império
Não existe maior vitória do que transformar em instrumento e instrumento de propaganda na prática da nossa política o próprio líder das forças rebeldes, neste caso o líder da oposição grega, o líder do povo grego que se levantou pacificamente contra o regime neocolonial dos memoranduns, votando Syriza e Anel, em Janeiro, e votando NÃO, com uma maioria esmagadora, no referendo de Julho.
Não existe maior sucesso do que o de obrigar um partido que se chama “da esquerda radical” a aplicar o plano neoliberal da direita mais extrema nunca aplicado até agora. Não existe maior sucesso do que o de forçar os dirigentes de um partido que, independentemente das acusações que se possam diriges-lhes, que terá dado de bandeja rios de sangue de sacrífico pela democracia e pela independência nacional do país, que terá espezinhado, pela primeira vez na sua história, os princípios mais fundamentais. De desprezar também violentamente o mandato do 5 de Julho, de introduzir em pleno verão, textos de má tradução “google, centenas de páginas de legislação, votadas durante o decorrer de noites em branco degradantes, para validar pela bula dos “representantes do povo grego” a vontade dos estrangeiros, que conclui a transformação do país em colónia, protectorado e propriedade destes mesmos estrangeiros. De utilizar o partido como uma propriedade do seu chefe.
Todos os que deram a sua vida pela democracia e a independência nacional da Grécia deveme star às voltas nos seus túmulos .
Porque é que Tsipras caiu na armadilha?
Não entraremos nunma análise em detalhe no tema muito interessante dos factores complexos que explicam a transformação ovidiana de um primeiro ministro, uma obra de Circé que Homero, se vivesse , incluiria certamente na sua Odisseia.
Alexis Tsipras nunca acreditou nas forças do seu partido nem do país nem da sua capacidade em poder conduzir com sucesso a obra de resistência e de renascimento nacionais que ele próprio reivindicou para tomar o poder que tanto queria. Mas, não se trata, de modo algum, de um imbecil, como se poderiam qualificar outros primeiros ministros. Sabia que devia encontrar algo contra Merkel. Obviamente, apoiou-se sobre o que pensava poder resolver o problema: uma parte do estabelecimento financeiro americano e internacional. É daí que vinham – ou, pensava que vinham os apoios que alimentaram o seu super-optimismo até ao último momento a propósito de um acordo. Ignorou o senso comum, as advertências de todos nós, mesmo as advertências de Lafontaine e dos líderes de Die Linke que estavam bem melhor colocados que todos os outros para prever exactamente o que fariam Merkel e Schäuble. Ficou cheio de medo, nunca se quis preparar e não se preparou, Nem preparou a ruptura que provocaria quase que inelutavelmente a reivindicação de interromper o percurso dos memoranda ou que tornaria necessária a tarefa que consiste em salvar o país.

