Só quem ainda vive movido por ideologias-teologias do poder, em vez de por afectos, política praticada, maiêutica que nos fazem pessoas organicamente ligadas às maiorias, é que reage de modo agressivo, perante os desgraçados resultados eleitorais de domingo. A grande pergunta que se levanta e urge escutar com a nossa inteligência cordial, é, Quem acusar – as populações ou o sistema? Constato que a generalidade das pessoas ideologicamente mais capazes de resistir às ininterruptas investidas reaccionárias dos media, dos párocos-pastores de igreja, dos caciques que dominam as populações nas aldeias, é que vem a terreiro nas redes sociais e noutros locais partidários ou não, acusar as populações, por elas, mais uma vez, votarem nos seus próprios algozes. Cujos, no crasso analfabetismo político em que a maioria delas é criminosamente mantida, de geração em geração, sem a mínima capacidade para distinguir entre a direita e a esquerda, a máscara e a face, a publicidade e a verdade-realidade, vê como os seus salvadores. Melhor seria que batêssemos a mão no próprio peito. Temo-nos por mais esclarecidos e iluminados, mas ainda não somos fecundamente sabedoria, ternura, política praticada, maiêutica, inteligência cordial, militância orgânica com as maiorias condenadas a viver do nascer ao morrer sem sol, sem projectos, sem qualidade de vida, porventura, até com excesso de coisas, porque completamente apanhadas pelo Mercado. E, sobretudo, sem pastores que dêem a vida por elas. Só mercenários. Acusá-las, em lugar de nos deixarmos interpelar pelos resultados das eleições, nas quais a maior “coligação” silenciosa é a de quantas, quantos sabiamente já se recusam a entrar neste viciado jogo do sistema – é revelador de quão longe ainda somos do plena e integralmente humano e reféns da ideologia-teologia do sistema de poder que nos faz cruéis até com as suas maiores vítimas. Choremos. Por nós. Pelas populações indefesas que como requintados fariseus acusamos-desprezamos!
7 Outubro 2015
