UMA NOVA VAGA DE MIGRAÇÕES – 2 ª parte – A MUNDIALIZAÇÃO ASSUMIU O ROSTO DA OCIDENTALIZAÇÃO – por PIERRE LE VIGAN

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Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

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Uma nova vaga de migrações- 2ª PARTE

A mundialização assumiu o rosto da ocidentalização

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Pierre Le Vigan, UNE NOUVELLE VAGUE D’IMMIGRATION, La mondialisation a pris le visage de l’occidentalisation

Revista Metamag,  29/09/2015

 

A Ocidentalização do mundo, assumida pela Europa, pela América mas agora também por outras potências que se têm tornado “modernas” (a China também é um factor de ocidentalização, para ela própria e para os outros), leva as pessoas a sonhar com o modo de vida ocidental, acessível primeiro, por facilidade, numa Europa ao lado da África e às portas da Ásia.

Aqui também, as advertências não faltaram, incluindo de homens altamente  respeitados sem nunca terem sido ouvidos nem lidos. Assim, Pierre Mendès-France afirmava: “Os bens e serviços assim como as prestações que podemos pôr à disposição dos países subdesenvolvidos, é a eles que cabe determinar. Não se trata de americanizar ou de europeizar tal ou tal república africana ou de organizar a evolução dos mais deserdados para um modelo ocidental único. É necessário permitir a todos de progredirem de acordo com as suas concepções, a sua cultura e as suas aspirações. Resultará uma nova forma de relações internacionais em que os países em causa deixariam de estar complexados e alienados, porque mantidos sob a dominação dos mais fortes, incluindo a dominação cultural. (…) Para terminar com o Terceiro Mundo, quero sobretudo reafirmar que não temos de impor a dois mil milhões de homens deste planeta (e que em breve serão mais numerosos ainda) os nossos princípios e as nossas doutrinas, como o pretendem seja os colonialistas (nova forma) e os esquerdistas, cada um à sua maneira. Estes homens têm o direito de decidir eles mesmos o que farão das suas vidas e das suas orientações”.

A mundialização tomou o rosto da ocidentalização e ela  é a fascinação pela  sociedade de consumo, misturada com crispações identitárias que são caricaturas da identidade dos povos. É assim que se desenvolvem as religiões sem cultura que seduzem precisamente os mais desenraizados.

Mas quem vem para a Europa? Diziam-nos dantes: “migrantes”. Dizem-nos agora, desde que eles começaram a chegar em massa, “refugiados”. História de desactivar as recusas de uma nova vaga de imigração, no único continente até  este ponto submerso. Nem todos, no entanto, são refugiados de guerra. Migrantes? Não nasceram gentes migratórias. Não deixavam o Iraque quando estava sob o regime duro mas estável de Saddam Hussein, onde as crianças não morreriam de fome e iam a escola, nem na Líbia, que tinha a mais  elevada taxa de acesso aos estudos superiores em África, antes da organização da sua evicção e do consequente  assassinato de Kadhafi pelo Ocidente e pelo governo da França, com o apoio de todos os partidos ditos “de governo” em conjunto.

Há na verdade todas as espécies de imigração, do verdadeiro refugiado, cujo pedido de asilo deveria poder ser examinado (sem estar a ser imposto), tendo em conta critérios como a proximidade de civilização, à imigração económica e a imigração de conforto (investigação de cuidados dentais e outros), que se podem compreender, naturalmente, mas que certamente não se pode aceitar (milhares de trabalhadores franceses nunca puderam, por falta de dinheiro, tratar correctamente dos dentes sem que isso tenha comovido ninguém, mas é uma realidade que se encontra frequentemente nos estaleiros da construção, e não nos corredores dos ministérios).

A realidade das migrações actuais, é que são imigrações de povoamento. São transplantações massivas de populações numa Europa cada vez menos europeia. Ora, podem-se assimilar pessoas (em certa quantidade e até certo ponto em todo caso) mas não povos. As populações que chegam vêm de povos. Dois casos exemplares e que são ambos bem inquietantes. Seja que estas populações reconstituem na Europa povos não europeus e de uma religião não procedente da Europa, e a Europa então é privada de si‑própria. Seja que estas populações permanecem atomizadas. Não há, então, para falar correctamente nenhum perigo comunitário mas perfila-se um outro perigo. É a anomia social, é a zombificação, o grande desenraizamento, o reino “dos desfavorecidos” (François Xavier Bellamy).

A desfiliação, a ruptura da transmissão? Ninguém de seriedade diz que os franceses (“de cepa” escapam, obrigatoriamente, a isto. Mas a imigração aumenta este perigo, para os imigrantes assim como para os Franceses de cepa, porque é o desenraizamento. E este provoca outros. Ao lado estes dois perigos, do comunitarismo e anomia, produz-se às vezes a assimilação. Qual é a diferença entre a integração e a assimilação? A integração é minimalista. Trata-se simplesmente para um indivíduo de ter em conta os direitos e os deveres de cada um. A assimilação vai bem mais longe: consiste em participar no nosso modo de vida e de civilização, em  fazer seus uma série de usos e costumes do país de acolhimento. Cria-se assim uma síntese cultural entre a cultura de origem e a da França. Neste sentido, pode-se certamente ser muçulmano e francês (da mesma maneira que judeu e francês, budista e francês, etc.). E muito felizmente, isto encontra-se ainda, ainda que nada disto se deva, seja o que for, ao trabalho das nossas elites e faz-se mesmo contra tudo o que elas representam e o que elas fazem, tanto em política internacional como em política social.

Para a relocalização mental

É aqui que nós nos encontramos uma grande  dificuldade para que a assimilação se produza, é que as elites políticas francesas são elas mesmas a conduzir o desafrancesamento do nosso país. Estas elites deixaram de acreditar no nosso país. A sua incultura é a base para a sua linha de conduta. Decidiram afogar o nosso país no grande banho da mundialização liberal. Enquanto que noutros lugares, a auto-estima e a consciência nacional se despertam (e são frequentemente acompanhadas de salutares lutas sociais). Enquanto que, em muitos países, os cidadãos mais patrióticos se opõem à deslocação do seu povo e se batem, sobre os seus lugares de vida, para salvar o que pode ser salvo e reencontrar a esperança. Neste mesmo tempo, as nossas elites traem.

As vagas de transplantação e a perda de marcadores, no tempo (a história) e no espaço (a terra natal de cada um de nós) tornam o re-enraizamento e a relocalização económica, humana, mental necessária para os homens e para os povos de todos os continentes, incluindo a Europa. De todos os países, incluindo a França. Em termos políticos, isto significa dizer que o patriotismo é uma ideia de futuro. Não o esqueçamos: não temos pátria de substituição.

Pierre Le Vigan, Revista Metamag, UNE NOUVELLE VAGUE D’IMMIGRATION [2/2] – La mondialisation a pris le visage de l’occidentalisation. Texto editado a 29 de Setembro de 2015. Texto disponível em :

http://metamag.fr/metamag-3222-UNE-NOUVELLE-VAGUE-D%E2%80%99IMMIGRATION-%5b2/2%5d-La-mondialisation-a-pris-le-visage-de-l%E2%80%99occidentalisation.html

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