O HOJE por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

O dia de hoje não volta mais, não se repete.

Vivemos uma época cujo tempo já não é o tempo de há vinte anos. Num pestanejar outros valores se levantam.

Muitos homens, muitas mulheres têm vindo a assistir, a fazer, a construir caminhos de mais incertezas para o futuro próximo.

O que era considerado boa educação, há cinquenta anos, agora é esquecido ou substituído por comportamentos que ainda não são aceites pela sociedade, mas já são criticados, para logo se dizer, agora é assim, eles fazem o que querem, eles querem…

Falamos dos jovens e dos menos jovens, de gerações atravessadas por vidas difíceis, por sonhos, por utopias tornadas realidade.

Nos anos sessenta era uma utopia viver-se num Portugal democrático.

E agora que é democrático veio à flor da pele uma sensação de inquietude.

O hoje é hoje e não prepara o amanhã. O hoje é para consumir, viver o melhor possível, alcançar algo com que sonhamos, o hoje é uma passagem para o desconhecido. Quando pensamos que ainda é hoje já estamos no amanhã.

O sistema educativo muda sem saber como o foi hoje.

O que sabe, é que, de repente muda de cartilha e ao desfolhar a cartilha outra cartilha se impõe.

Estuda-se como os finlandeses ou como os alemães, porque estes estão no cimo do ranking europeu. A Finlândia ou a Alemanha vivem hojes diferentes do hoje português. O Ministro da Educação quer deixar a sua marca fechando escolas, estabelecendo metas curriculares, dificultando a vida aos professores ao burocratizar as escolas, transformando-as em escolas ineficazes, com professores desmotivados, com alunos cada vez mais diferenciados, com turmas com excesso de alunos, com poucos recursos humanos. Enfim, com uma Escola para Todos desfeita em cacos.

A Educação é o espelho de um povo. Quando olho para o espelho fico perplexa porque quarenta anos de Liberdade deveriam ter tido muitos hojes de aprendizagem em Cidadania. Esses hojes foram transformadores em relação à sociedade, às famílias, às escolas, à saúde e, foram-no de facto.

 Mas os hojes não se transformaram em amanhãs sonhadas. Houve, e há algo mais forte, que nunca deixou de estar presente, o medo que vem da ditadura e tarda em cair de podre.

No dia 4 de Outubro o medo saiu à rua e foi votar na continuidade da austeridade, na falta de respeito pelos cidadãos, por uma escola elitista, num Serviço Social de Saúde cada vez mais com menos saúde.

Como é possível um professor, um desempregado, um pobre votar na austeridade?

O medo instalou-se nos dedos de uma grande parte dos votantes e a cruzinha caiu directamente na austeridade.

A população mais envelhecida viveu a sua meninice e adolescência embrulhada em pobreza, em ditadura, em guerra colonial, mas sempre com medo.

Hoje vive melhor, mas com medo da mudança.

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