ESTÁ A CHOVER por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

Está a chover, o dia está sombrio.

As ruas labirínticas do Bairro eram de terra.

A chuva transformava a terra em lama.

Pingava nas casas de telhado de zinco.

Os algerozes, entupidos com folhas das árvores, encaminhavam a chuva para os telhados da escola. A escola das rosas, como um jornalista um dia escreveu.

Os meninos que se autonomeavam de “cambojanos”, que roubavam, que batiam, que atiravam pedras aos carros da polícia, esses, nunca arrancaram uma rosa…

Eram as flores da sua escola.

 As aulas começavam com o colocar de um balde de plástico no chão ou em cima de alguma mesa por causa da chuva que divertia meninos e meninas ainda com os pés encharcados, com a roupa molhada e com gotas de água a escorrer pelos cabelos.

Não te sentes aí. Não vês que está molhado!

Não faz mal, eu gosto.

A tosse e a rouquidão das vozes confirmavam que estas crianças andavam à chuva, sem nada para as proteger.

 Vinham molhadas da rua, sem que as mães ou os pais se importassem.

Não havia água quente nem toalha para os confortar, havia sim um corpo frio e revoltado.

Quando as mães sabiam que chovia dentro da sala do filho entravam de rompante na escola e insultavam todas as pessoas.

Em casa ou na rua não fazia mal, mas na escola…. a escola não podia deixar que os seus filhos passassem o frio que passavam em casa, não podia deixar cair a chuva no chão da sala como caía nas suas casas, às vezes até em cima da cama.

A escola era o orgulho daquelas crianças. Era bonita e estava “guardada” não fosse aparecer alguém com más intenções.

Era o refúgio de muitas rusgas. Quando a polícia ia à escola era assobiada pelas crianças dentro ou de fora da escola.

As roupas e os cabelos continuavam molhados. As poucas crianças que levavam o guarda-chuva, já quase todo desfeito pelo vento, aproveitavam para bater nos colegas,

para fazer batuques em cima das carteiras…

O Pio, era a sua alcunha, tremia de frio, os seus olhinhos olhavam no vazio, perdido no mundo; perdido entre a casa e a escola, entre duas realidades diferentes

O Pio sentava-se na carteira sempre com ar ausente, como que a pedir desculpa porque já tinha oito anos e não sabia ler…

A Escola era boa para as crianças e para as suas famílias. Tinham orgulho nela e nos seus professores. A escola também era deles. Estávamos nos anos oitenta, anos  em que a Educação começava a surgir nas agendas políticas dos governos.

Acabámos de votar em diferentes partidos, qual deles tinha na sua agenda valorizar a Escola, devolver a dignidade aos professores?

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