Grécia – Uma nova moeda é possível, por Ludovic Fillol

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Grécia- Uma nova moeda é possível

Face à crise a economia de troca via Internet explode



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Ludovic Fillols. Revista Causeur

29 de Setembro de 2015

 

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Na Grécia,  enquanto que o Estado se procura desembrulhar dos seus problemas económicos e políticos, alguns desenrascam-se para encontrarem meios para continuar a viver e trocar apesar da rarefacção da moeda. Assim, a troca directa tomou uma amplitude nova apoiando-se nomeadamente sobre a Internet.

“Na Grécia, temos um enorme problema de liquidez” declarou Thodoris Roussos ao New York Times. Este talhante adiou por muito tempo a reparação do seu camião por falta de meios financeiros. Graças à troca directa, pôde trocar a sua carne contra os produtos de que tinha necessidade, nomeadamente rodas novas para o seu veículo. O homem a quem Roussos deu em troca um mês de carne do seu talho utilizou parte desta carne para obter um iPad.

Os diferentes protagonistas encontraram-se sobre um novo serviço de troca directa em linha, chamado Tradenow. A plataforma, instalada em Atenas, criou a sua própria moeda: os tradepoints. Estes permitem continuar a comercializar sem estar a recorrer à verdadeira moeda que, como o explica o Sr. Roussos, “não está facilmente disponível”.

Suprimindo o intermediário monetário, as trocas reiniciam-se. No talho do senhor Roussos, as vendas estavam quase paradas. Mas, a partir do momento em que começou a propor a sua carne contra tradepoints, relançou a sua actividade. Os Gregos, se é verdade que têm pouca liquidez, têm numerosas coisas a trocar e propõem todas as espécies de mercadorias. Alguém, por exemplo, propôs-lhe um CD de Madonna. “Mas disse não, explico o talhante. Um CD de Madonna não vale definitivamente um frango.” A troca directa ensina-nos por conseguinte a valorizar os produtos, além de redinamizar as trocas em geral.

Para Yiannis Deligiannis, o fundador de Tradenow, o desenvolvimento da troca directa deve-se à conjuntura: “A economia continua a degradar-se ”, assegura ao New York Times. De acordo com o fundador de Tradenow, a política actual da Grécia não pode recuperar a economia, o país. Também se propõe desenvolver novos meios para fazê-lo: “O controlo dos capitais foi a última bola na nossa cabeça. As pessoas devem encontrar novos meios para fazer funcionar a economia. Oferecemos-lhes uma alternativa.”

A imposição do controlo dos capitais, em todo caso, acelerou a proliferação da troca directa. Depois da entrada em vigor desta medida, em Junho, 6000 novos utilizadores juntaram-se a Tradenow. Mesmo as pequenas empresas, que durante muito tempo têm olhado a troca directa como um sistema utópico, começam a aderir às ideias do senhor Deligiannis.

No seu site, um tradepoint vale um euro. A partir daí, diferentes possibilidades se oferecem aos utilizadores. Podem-se trocar directamente os produtos, podem-se comercializar em tradepoints ou, se quisermos, introduzir euros nas transacções. É esta flexibilidade, acrescentada às potencialidades das novas tecnologias, que permitiu fazer reconhecer a eficácia do sistema.

Contudo, esta actividade permanece relativamente marginal e não pode ser concebida como a solução final para a crise monetária excepcional que se vive na Grécia. Faz apenas parte das ideias nascentes para agarrar um futuro incerto. Para Helen Panagiotopoulos, investigadora na Universidade de Nova Iorque, que trabalha precisamente sobre este assunto, “há um sentimento urgente segundo o qual temos necessidade de trabalhar juntos para formar algo que nos ligue a todos, porque não sabemos o que se pode passar no futuro”.

Logicamente, alguns tentam por conseguinte pôr em marcha e desenvolver a troca, não somente para remediar face à crise actual de liquidez, mas para não se encontrarem completamente desprovidos no caso de saída do euro. Mesmo tendo o novo governo de coligação dirigido por Alexis Tsipras prometido continuar na zona euro, as turbulências do mês de Julho deixaram uma profunda e incomoda lembrança no país.

A troca pode por conseguinte ser vista como um meio credível para construir alternativas ao sistema actual. Jorge Kazianis, um electricista de 59 anos no desemprego desde 2010, reencontrou trabalho graças a uma outra plataforma: “Desde os tempos antigos, quando não havia dinheiro, as transacções faziam-se pela troca directa. Não tenho confiança no que a moeda se tem tornado hoje. A crise é o subproduto, quando muita moeda está nas mãos de alguns e que quase nenhum está nas mãos de muitos. ”

Num mundo sem moeda, ou sem confiança nela (o que significa o mesmo), as soluções do passado poderão tornar-se as do futuro.

 

 

Ludovic Fillols. Revista Causeur. Grèce : une autre monnaie est possible -Face à la crise, le troc sur Internet explose, publicado a 29 de Setembro de 2015. Texto disponível em :

http://www.causeur.fr/grece-euro-troc-crise-monetaire-34777.html?utm_source=Envoi+Newsletter&utm_campaign=c84d432b2f-Newsletter_28_09_15&utm_medium=email&utm_term=0_e89bc7d32d-c84d432b2f-55311133

 

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