Não gosto do substantivo “democracia”. À letra, tem a ver com poder (=cracia) do povo (= demo). Mas, neste tipo de mundo dos financeiros, o poder nunca é do povo. Aliás, povo não existe. Existe o conceito que parece dizer tudo. Não diz nada. Falar, por exemplo, em “força do povo” – a expressão é conotada com o poder dos partidos políticos – é, na prática, falar em poder dos partidos que dela usam e abusam. Povo não existe. Existem povos das mais diversas nações, línguas, culturas. Existem seres humanos concretos, mulheres, homens, cada qual com o seu nome, a sua identidade, as suas potencialidades, as suas fragilidades. Sobretudo, as suas fragilidades. Só religados uns com os outros, somos. Cada um, entregue a si próprio, uma vez cortado o cordão umbilical, morreria, logo ao nascer. Nenhuma, nenhum, de nós sobrevive, sozinho, a esse corte. Tão pouco, sobrevive sem esse corte.
Depois de cortada a ligação umbilical com a mãe, somos, se religados uns com os outros. Politicamente religados. Não religiosamente religados. As religiões religam-nos, não uns com os outros, mas com um mítico deus, mais ou menos projectado-criado pelos respectivos fundadores, com fome e sede de poder, de domínio, nenhuma fome e sede de Liberdade, de Autonomia. O que, nestes dias, pós-eleições legislativas de 4 de Outubro, está a passar-se em Portugal, é, no mínimo, surrealista. Só não vê quem não quer ver. Ou é condenado, por toda a vida, a não poder ver. É o caso das maiorias empobrecidas, governadas por mercenários ao serviço dos financeiros. Uma vilania que este tipo de sociedade dos financeiros mascara com o sonante substantivo “democracia”. Democracia dos povos, ou dos financeiros?
Pelos vistos, só há democracia, se for constituída por uma maioria estável de direita no Parlamento. Se de esquerda, cai o Carmo e a Trindade. Quando decidimos sair da letargia política e, de uma vez por todas, assumimos em mãos os nossos próprios destinos, como povos religados uns com os outros? Quando?
16 Outubro 2015

