Quando me dói a existência tento fazer uma extensão de mim, com a minha força e a minha presença.
Olhem para mim, assim o queremos.
Mas quando dói na incerteza, bem cá dentro do nosso ser, refugiamo-nos na solidão dos interstícios celulares.
A pele separa a solidão interior do toque com o mundo.
Olhem para mim, não!
Queremos a alma a acariciar-nos por dentro sem ninguém ver, queremos as lágrimas transparentes a inundar-nos as veias e as artérias que nos alimentam.
Queremos um mundo, outro, feito à nossa medida.
Esse mundo não existe. Como seria mau se existisse!
A nossa medida corre o risco de ser complacência em vez de ser força.
A força de que necessitamos é feita de incompreensão e de solidariedade para com o nosso ser que não se quer deixar esvair.
A pele enrosca-se cada vez mais para dentro. Tenta perscrutar o mais pequeno átomo e, eis senão quando, sentimos vibrar outro eu, o eu desarrumado à procura de terreno para se instalar.
O ser vulnerável, amante da ordem natural, estremece e mobiliza-se para circunscrever esta nova realidade.
O ser que a natureza quis tranquilo, a nascer para a morte, vai lutando porque o fim do caminho não pode ser marcado por uma intrusa acumulação de células.
Ela sim será destruída porque não tem poderes divinos. Quem os tem?
Acredita-se que a vontade do nosso ser inteiro, envolto em fumarolas inconstantes, não terá a força de um vulcão, mas a constância das marés que continuamente se renovam.
O ser que se quer renovado pestaneja e, por entre as pestanas, vislumbra o avanço da ciência, fotografa os sorrisos amigos e revigora-se.
Dói a existência.
Quantas outras dores se estarão a mover enquanto me alimento de esperança e alento?
São tantas e tamanhas que não as podemos abarcar.
As minhas dores são as minhas e as outras e, por vezes, o meu corpo parece vazio de natureza, mas cheio de medos e de incertezas.
Viver novamente uma realidade dolorosa é quase insuportável, é como uma onda que se desfaz contra uma rocha, negra e dura, que de novo se enrola deixando sós e abandonadas, na solidão, as gotas salgadas que se desviaram do mar imenso.
Onde estão as gotas salgadas da minha alma?
Onde está o meu corpo inteiro dono de si?
A aprendizagem das leis da natureza é tão dolorosa como as das leis da vida!
Ninguém é dono de nada.
Tenhamos a sabedoria necessária para compreendermos que nada e tudo somos.
Saibamos fazer da vida momentos de fraternidade e de igualdade, entre todos, porque as fases da lua não nos defraudaram nem as marés nos falharam.
Viver novamente uma realidade dolorosa é quase insuportável…