A GALIZA COMO TAREFA – Vocabulário Ortográfico Galego – Carlos Durão, Ernesto V. Souza

Sei que há muito tempo que não me tenho assomado à vossa janela argonauta, sempre simpática com a Galiza: mea culpa…

… mas penso que talvez possa interessar aos leitores a apresentação da edição impressa do Vocabulário ortográfico da Galiza (da AGLP, portanto), dentro do quadro do recente SIPLE em Santiago, e para a que escrevi este artigo introdutório.

Um abraço,

Carlos Durão

Um pouco de história recente

A elaboração de um Vocabulário Ortográfico da Galiza, como contributo ao Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa, previsto no texto do Acordo Ortográfico (e ratificado em Lisboa pelos Ministros da Educação e da Cultura dos países membros da CPLP, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), foi tarefa assumida pela delegação de observadores da Galiza já nas sessões de trabalho das negociações do Acordo Ortográfico, primeiro do 1986 no Rio de Janeiro, e depois do 1990 em Lisboa, hoje vigorado nos países signatários.

O comunicado que, em nome dos Estados lusófonos, anunciava o Acordo da Ortografia Unificada de 1990, dizia assim: “As delegações de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, S. Tomé e Príncipe e Portugal com a participação de uma delegação de observadores da Galiza, reunidas em Lisboa…”; e no Diário da República Portuguesa (I Série-A, no 193, 23-8-1991, p. 4370), publica-se a Resolução da Assembleia da República no 26/91, aprovando o Acordo para ratificação, e mais uma vez mencionando: “com a adesão da delegação de observadores da Galiza“.

Anos depois, quando foi constituída a AGLP, essa tarefa passou a ser encarregada à sua Comissão de Lexicologia e Lexicografia (CLL), a qual já elaborara um primeiro Léxico Galego, que partilhara com academias e empresas culturais da Lusofonia, a título de mostra, com aproximadamente 2 000 vocábulos de léxico peculiar galego, o mais característico da variante nortenha do português europeu. Muitos desses vocábulos estão hoje recolhidos em dicionários lusófonos diversos, que se podem consultar na Rede, ou em vocabulários ortográficos em papel, como o da Porto Editora; e são reconhecidos no corretor ortográfico FLiP8 da Priberam.

Cabe mencionar aqui que dous destes particularismos lexicais galegos foram incluídos no texto do Acordo Ortográfico do 1990, na sua Base XI, 2º, a), como exemplos de proparoxítonas com vogal tónica fechada, passando então a figurar em dicionários portugueses como «regionalismos»; trata-se de “brêtema” e “lôstrego” (>tirados por sua vez do “Prontuário ortográfico da língua galego-portuguesa das Irmandades da Fala”, especial nos 2/3 de Temas de O Ensino, Braga, 1984, p. 65).

O presente Vocabulário Ortográfico da Galiza

O Vocabulário Ortográfico da Galiza, apresentado publicamente em 27 de junho de 2015, dentro do programa do Seminário “Língua, sociedade civil e ação exterior” da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP), na Casa da Língua Comum, em Santiago de Compostela, chega agora à fase da sua edição definitiva em papel.

Este vocabulário, agora impresso pela Tórculo, inclui mais de 154 000 entradas, número que foi considerado como termo médio razoável no que coubesse o vocabulário considerado propriamente galego, junto com o corpus geral da nossa língua, num amplo vocabulário patrimonial, naturalmente partilhado na sua quase totalidade com toda a Lusofonia, como não podia deixar de ser, sendo a velha Gallaecia (lato sensu, a Galiza e o N de Portugal) a matriz da língua.

Entram nele a fauna e flora galegas, bem como os topónimos, antropónimos, gentílicos etc., mais peculiares da Galiza, nela incluída a Galiza estremeira, com numerosas variantes galegas que em muitos casos são também comuns ao Norte português, e que em muito boa parte estão recolhidas no Dicionário Estraviz da Língua Portuguesa da Galiza (na Rede: o dicionário e-Estraviz), mas também noutros dicionários ou vocabulários galegos, como os de Eladio Rodríguez, Aníbal Otero e outros. Também há algum vocabulário tirado diretamente da literatura galega escrita, incluída a de tradição popular, e oral.

Incluem-se por vezes, dentro dos parâmetros do Acordo Ortográfico, variantes puramente ortográficas, devidas à hesitação na pronúncia considerada culta da Galiza, ou a alguma outra razão na recolha da palavra, sendo também incluído algum arcaísmo, dialetalismo ou popularismo.

Para além dos antropónimos e topónimos mais frequentes na Galiza, também figuram muitos do resto da Lusofonia, com os gentilícios correspondentes. (Cabe assinalar que, nesta categoria, numerosas entradas são logicamente coincidentes acima e abaixo da Raia galego-portuguesa, como também além-mar, e que ademais um topónimo pode ser ao mesmo tempo antropónimo, e não só na Galiza.)

Do léxico mais geral da Lusofonia, entra aquele que facilmente pode ser empregado por autores de textos galegos, só deixando fora aquele vocabulário mais propriamente peculiar dos outros países lusófonos. (Foram tidos em conta outros Vocabulários Ortográficos da Lusofonia, entre eles o da Academia das Ciências de Lisboa (ACL), o da Academia Brasileira de Letras (ABL), o do Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC), e o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Porto Editora, assessorado pelo professor Malaca Casteleiro; como também outros corpora do português nortenho).

Do vocabulário propriamente científico, entra o que é de domínio comum, mas não o mais especializado de, por exemplo, a química orgânica, a física atómica e demais. Mas entra, sim, o principal das espécies de todo o domínio linguístico, e naturalmente o mais peculiar à Galiza, da sua fauna, flora, etc.

Ortografia empregada

Em todo o caso, a ortografia empregada neste vocabulário ortográfico galego é descritiva ou indicativa, digamos recomendada ou orientadora, mas não prescritiva. Por outras palavras, a escolha é a da norma galega escrita, inclusa no padrão português como a forma galega do português europeu, segundo os parâmetros do Acordo Ortográfico. Por isso, é claro que não obriga ninguém a escrever o seu nome, ou o da sua vila, de uma determinada maneira, e menos ainda a o pronunciar com uma determinada fonética, pois esta corresponde a cada realização concreta dentro do domínio linguístico. (Podem consultar-se algumas indicações fonéticas no mencionado dicionário e-Estraviz).

Tendo em conta que se trata de um vocabulário puramente ortográfico, é claro que não leva definições: só a breve indicação da categoria gramatical, e ainda esta em abreviatura e reduzida ao mínimo para não cansar na sua leitura. Por exemplo, quando a uma entrada correspondem várias categorias gramaticais, estas ficam reduzidas de regra a duas como máximo.

Das famílias de palavras, entra o mais representativo, indicando-se a seguir se é substantivo (com o género), pronome, verbo, advérbio, adjetivo, preposição, conjunção, interjeição, etc., e sempre tentando evitar uma multiplicidade de formas quando bastam as fundamentais, sendo as demais facilmente deduzíveis delas.

Incluem-se também alguns símbolos de elementos químicos, e abreviaturas gerais. Também o formato é propositadamente mínimo: trata-se de um elenco de palavras em ordem alfabética, e sem maior variação de tipos de letra, fácil e rapidamente consultáveis.

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Carlos-DubrovnikCarlos Durão Rodrigues (1943)

Há pessoas pelas que sentimos, para além de grande admiração intelectual pelo seu longo percurso e trajetória, imenso carinho e grande respeito pelas suas boas qualidades e pelo seu jeito de estar no mundo. O também argonauta e colaborador deste blogue, Carlos Durão é dessas pessoas: discreto, afável, comprometido, generoso (especialmente com o seu tempo), elegantemente mundano, sólido nas suas convicções e firme em manifestá-las, tolerante, erudito, meticuloso, trabalhador incansável, cordialíssimo conversador e entusiasta companheiro.

Nasceu em Madrid, de família galega com tradição emigrante (Brasil, Catalunha, Cuba, Venezuela), com a que morou nos primeiros anos em diversas localidades galegas, o que lhe forneceu uma clara perspectiva da variedade das falas galegas. Estudou em Vigo (bacharelato), Santiago e Madrid (licenciatura de Filosofia e Letras, ramo de germânicas), donde partiu para Londres, em intercâmbio universitário por dous anos, que se converteu em exílio até à morte do general Franco.

Professor de idiomas em colégios ingleses, redator radiofónico no Serviço Espanhol e Português da BBC, trabalhou regularmente como tradutor técnico em organismos britânicos e para a ONU.

Escritor e bom poeta, estreou-se como narrador, lá em 1973, com A teima (romance) saída naquela emblemática e patriótica coleção de Galaxia “Illa nova” desenhada para publicar os novos valores e na que apareceram muitos dos que depois seriam alguns dos grandes romancistas da literatura galega contemporânea. Seguiu com O internado (relato, premiado no 1° concurso “Pedrón de Ouro”, 1975) (1977), Galegos de Londres (romance) (1978); a crónica satirizada O silencio, nós (1988). É também autor de Poemas do não (1987); Focagens/Fogagens, (1991) e Paralaxes, (1994).

Divulgador da cultura galega em Londres, foi colaborador em programas de rádio da BBC e organizador e colaborador de eventos de todo tipo associados à emigração galega, assistente a numerosos congressos de língua. Colaborador habitual em publicações emblemáticas da cultura galega: Grial, Teima, A Nosa Terra, Agália, O Ensino, NÓS, Cadernos do Povo, Hífen, membro das Irmandades da Fala, da Associação de Amizade Galiza-Portugal, da Associaçom Galega da Língua, da AELG (até 1986); académico da Academia Galega da Língua Portuguesa colabora ultimamente no Boletim da AGLP.

Em 1970 foi fundador do Grupo de Trabalho Galego de Londres, que publicava um Boletim para familiarizar os mestres rurais galegos com a primeira Lei do Ensino: ao seu Suplemento contribuíram os professores portugueses Agostinho da Silva e Rodrigues Lapa, e nele fizeram-se uns primeiros ensaios de adaptação de textos galegos à ortografia internacional. O Grupo de Trabalho Galego de Londres publicou um Plano Pedagógico Galego (1971).

Com Guerra da Cal teve uma relação assídua quando este residiu em Londres nos anos 90. Também durante muitos anos com o galeguismo do interior em geral, e mais tarde particularmente com o reintegracionismo.

Em Londres participou em diversos movimentos dos anos 60, com bascos, catalães, galegos e portugueses; manteve contatos com o derradeiro cônsul da República española, com membros do Conselho de Galiza e com outros exilados.

Como membro do Comité de Cultura do Centro Galego de Londres, organizou durante muitos anos atividades como o Dia das Letras Galegas, o Dia da Pátria Galega, a biblioteca e a revista do Centro, participando também em revistas da emigração, conferências, etc. E deslocou-se para atividades similares a otros centros da emigração galega na Europa (Amesterdão, Genebra, Groninga, Munique). Representou o CGL na IV Reunião da Federação Mundial de Sociedades Galegas da Emigração (Santiago, 1984), no Comité Britânico pró Jacobeu (Londres e Santiago, 1993), e na 1st Oxford Conference on Galician Studies (1991).

Membro das Irmandades da Fala da Galiza e Portugal, da Comissão Galega do Acordo Ortográfico, da Associação de Amizade Galiza-Portugal, e da AGLP desde a sua criação, publicou o Prontuário Ortográfico das IF (autor e redator principal) (1984), que introduziu no movimento reintegracionista grafias como “Castelão”, e que forneceu duas palavras específicas galegas para incorporar no Acordo da Ortografia Unificada, de Lisboa, 1990.

O Vocabulário Ortográfico Galego, que hoje apresenta é uma obra imensa que coloca a Galiza em posição de contribuir ao Vocabulário Ortográfico Comum, com os outros países de língua portuguesa.

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