CALÇADA A PRETO E BRANCO por Luísa lobão Moniz

olhem para mim

Acordei para o silêncio feito barulho das calçadas das ruas.

O silêncio fez-se ouvir, senti duas canadianas que não conseguiam acertar o passo, pois iam sempre as duas, ao mesmo tempo, para a frente ficando os meus pés para trás. Reparo que as canadianas e os pés, que pisam as ruas, podem tropeçar no silêncio dos nadas que ficam entre pedras. Entre pedras brancas e pretas, quase todas cúbicas, quase todas separadas por nadas, por nadas que são a consistência do chão.

O chão que piso tem uma história…era uma vez…….era uma vez um chão de uma rua inclinada para baixo que me levava a ver o mar….O mar acabava ali, mas o ali nunca mais chegava e os meus pés saltavam ora um, ora outro ou os dois ao mesmo tempo. Primeiro só saltavam nas pedras brancas, depois só nas pedras pretas e finalmente nas pedras, brancas e pretas e ao mesmo tempo.

Que contentamento conseguir tão brava proeza, pousar os pés só no branco ou só no preto, mas querendo nas pedras brancas e pretas ao mesmo tempo!

O branco e o preto, sozinhos, não fazem o mundo. Os olhos no azul do mar, o coração no vermelho das crateras vulcânicas, o corpo nos verdes matizados que só uma ilha consegue proteger.

Estas pedras não são as pedras que agora piso com a ajuda das canadianas.

Agora, que passaram tantos anos, percebo que as pedras guardam segredos invioláveis… a criança que chora, o bébé que dorme num caixotinho à espera que alguém o leve para o conforto de uma casa, uma criança que dorme em cima das redes do metro, onde está mais quentinho.

Quando a rua me levava até ao mar eu queria ver tudo e perceber a igualdade das diferenças. Não precisava de palavras. A Natureza, rebelde de uma ilha, fazia-me sentir, no corpo e na alma, a multiplicidade cromática da minha existência.

Nasci, não para atirar pedras, mas sim para ser Natureza. E nesse sentir, imenso e doce, vou reconhecendo a vida das pedras que são o chão de uma cidade outra.

As pedras que a minha inocência não me permite estragar.

As pedras que seguram as casas pobres de gente explorada e sofrida.

As pedras que foram atiradas em nome da conquista da Liberdade, aqui ou em qualquer outro mundo.

As pedras que esfolam a pele macia dos joelhos das crianças.

As pedras fazem a alegria das crianças que não têm brinquedos, das crianças que nada têm para guardar nas suas mãozinhas.

As pedras que escaldam a nossa pele nos dias de sol intenso. A pele, nos dias de sol intenso, não sabe proteger-se. A pele chora calor e reclama com o frio que lhe dá bofetadas.

Se me atiram uma pedra eu choro, e logo a sua existência fica marcada na pele clara e sardenta. A pele fica negra.

Se separam as cores da Natureza eu choro. Vem-me à memória as pedras da rua que me levava até ao mar. Como ela se encantava com os pés de uma criança…

O chão, de uma cidade outra, perde a sua Natureza. As pedras fazem fronteiras verdes que as separam. Quando o verde não é suficiente para ficarem isoladas criam a terra de ninguém. Quem quiser passar além do verde cai. É mais frágil do que uma pedra dura que vê o tempo passar.

A pedra, preta ou branca, vai ficando cada vez com menos rugas, fica lisa, brilhante e escorregadia…para fazer tropeçar o mais frágil.

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