É este um slogan que circula com força cada vez maior entre os venezianos mais empenhados na salvaguarda da sua cidade, ostentado em bandeiras penduradas às janelas de casas e palácios, mas é também o título de uma pequena obra narrativa que acaba de sair em e-book, da autoria do autor veneziano Roberto Ferrucci (Venezia è laguna, Feltrinelli).
A quantidade de obras publicadas sobre Veneza a cada ano é impressionante, como demonstram as estantes das livrarias que sobrevivem na cidade, incluindo uma ou outra especializada sobre o tema. São livros sobre a história da “Sereníssima”, a sua arte, arquitetura, jardins, tradições, cozinha, dialeto… Não faltam porém obras literárias que, na esteira de uma tradição já bem consolidada, usam Veneza como pano de fundo ficcional. Depois, de vez em quando, surgem obras em que Veneza é a verdadeira protagonista, como no extenso conto de Roberto Ferrucci.
O autor, como a própria capa do volume revela, encara o grande problema dos inúmeros navios de cruzeiro que entram e saem da cidade diariamente, ameaçando um ecossistema muito delicado e o equilíbrio de uma cidade tão especial. Roberto Ferrucci, aliás, foi um dos primeiros, já no começo dos anos 90, a entrever as consequências de permitir a circulação de grandes navios pela laguna, oferecendo aos passageiros a magnífica experiência de ver do alto a Praça de São Marcos e outros encantos, alimentando por outro lado o mercado turístico da cidade.
Venezia é laguna narra a passagem dos grandes navios por Veneza, os sentimentos que estes provocam na maioria dos venezianos devido às consequências por enquanto invisíveis que as lobbies ligadas ao turismo de cruzeiros teimam em negar. Provavelmente, só a força dos sentimentos autênticos da cidade, da época, dos valores, pode preservar Veneza da arrogância e da ignorância que pretendem transformá-la num grande centro comercial ao ar livre.
Como salienta o autor ao contestar o grande e pesado movimento de “monstros marinhos” que abalam as pedras da cidade, deixando só aparentemente intacta a água à sua volta, “Veneza não é uma cidade marítima, Veneza é laguna. […] A laguna não é mar. […] Só se voltarmos a pensar nela e a respeitá-la como cidade lagunar, aceitando a sua preciosa e única fragilidade, Veneza poderá continuar a ser a cidade mais bonita e mais amada do mundo”.
Da mesma forma, outras cidades bonitas e outros ecossistemas peculiares noutras latitudes deveriam manter-se igualmente alerta perante o perigo de subserviência a lógicas de mercado turístico, que dão a ilusão de enriquecer um lugar mas mais facilmente o transformam num não-lugar (como diria Marc Augé), ativando mecanismos agressivos de rapina de que, num mundo globalizado, é cada vez mais complicado defender-se.