14. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Europeísmo e nazismo… Das Jahr 2015 II

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

(continuação)

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“Quotidien des Rédacteurs”, Fevereiro 2015

 

“É um dia maldito, é o que eu penso, em todo caso, sobre este 21 de Dezembro de 1978 onde, supostamente, tivemos êxito em conseguir a nossa adesão na qualidade de membro a parte inteira na CEE. Lamentá-lo-emos muito amargamente, e disso estamos certos, salvo que já não nos será mais possível sairmos. As relações económicas são ainda mais sólidas que as alianças militares, entre os países. (…). Estes acordos não são feitos para nós, não estão em nada de acordo com a nossa história, nem com o carácter do nosso povo. Nem mesmo, com a situação real da Grécia neste momento. Apagar-nos-emos como países, como nação. E não é por ausência de suficientes outras perspectivas em vista, que nos vai ser necessário precipitarmo-nos nesta via (…)” “Não restará coisa nenhuma ao nosso país. Para já, ladrões sem escrúpulos temos já muitos, muitíssimos, e ainda, certos vigaristas internacionais sulcam o país para nos roubarem antiguidades e ícones. Assim, estes vigaristas e inimigos de quem trabalha, encontraram o filão para se enriquecerem facilmente e para viverem assim à grande e à francesa. E todos estes estetas da bela vida, estes parasitas, descobrem então uma nova maneira… de decorar os seus salões. Aí, vai ser necessário ser muito forte. E imagino o que se seguirá depois, precisamente, após a nossa … ligação com a CEE. Só Deus sabe que … “pérolas” internacionais, virão então até aqui, para se apropriarem do seu novo terreno.” “Vi por estes dias na televisão o filme “ Holocausto’, este filme sobre a exterminação dos Judeus da Europa. O seu tom comedido é para mim comovente, este mesmo tom que choca então as gerações mais novas. Salvo que penso ser insuficiente para evocar todo aquele horror, como eu o pude viver em 1943, em Salónica. Fora naturalmente, sequências autênticas e de época que este filme comporta. Na época era outra coisa. O horror, em toda a linha. Outra coisa, é impossível contar: estava-se em Abril de 1943, em Salónica sob a Ocupação negra, a ocupação alemã.” (Yórgos Ioánnou, “Fylládio” 3/4, 1978-1979).

 

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Cidadãos Cipriotas… acolhendo Mario Draghi, aquando de uma cimeira do BCE. Chipre, 5 Março.

 

Eis-nos pois aqui numa Europa (já do Sul), onde agora o ultraliberalismo dos financeiros, associado à política efectuada pelas elites da Alemanha, se assemelha às figuras “do novo nazismo”, consideram certos analistas nos países do Sul da zona euro, e, sobretudo, uma boa parte da opinião pública. O que é isto realmente? E porque então, esta reacção, porque é isto irrita tanto os jornalistas mainstream, a exemplo dos líderes da Alemanha (e da França) actuais? A um certo nível de análise, é necessário primeiro compreender a sobrevivência das memórias colectivas, tanto mais quanto o lugar actual do (quase) único grande país vencedor da arquitectura europeísta (a Alemanha), permite certas analogias, com o risco mesmo de alguns anacronismos. Salvo que os anacronismos se afirmam às vezes serem relativos, e que a história… se experimenta fundamentalmente nos tons de cinzento. Para Yórgos Ioánnou, de consciência humana marcada para sempre pelas mais sombrias das matizes de cinzento, a desconfiança tinha desde então passado a ser a regra. Com respeito à CCE, evoluindo seguidamente para União Europeia, o futuro deu-lhe razão. A Grécia perdeu as suas (já) margens estreitas de autonomia política e económicas, as suas indústrias periclitaram, 40% das terras cultiváveis são abandonados, e mais de dez mil pequenos e grandes caïques – estes barcos tradicionais feitos em madeira e utilizados pelos pescadores – foram destruídos desde 2010, na sequência das directivas da UE. Mais de dez mil engenheiros de resto deixaram o país em cinco anos, de acordo com a sua união profissional, (jornais gregos de 7 de Março). E eis que (parafraseando Ioánnou), ladrões sem escrúpulos, e muito numerosos muitos deles de cá de dentro, ou ainda com a cumplicidade activa de certos vigaristas internacionais (lobistas de Atenas, de Bruxelas, de Paris e de Berlim), prepararam suficientemente o país… com subvenções europeias e igualmente, obtiveram suculentos contratos, por exemplo de armamento (as duas faces da mesma medalha). Assim,… vigaristas e gente de alta roda encontraram aqui o filão para se enriquecerem facilmente e para se oferecerem uma bela vida, entre eles: jornalistas, universitários, escritores, sindicalistas e evidentemente, políticos e empresários. Estes últimos, constituem na Grécia a casta ligada ao poder clientelista e ao PASOK e à Nova Democracia.

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Schäuble e Merkel… a destruírem o monumento do Soldado Desconhecido em Atenas segundo um desenho de. “Quotidien des Rédacteurs” de 4 Março.

 

E na Grécia, para caminhar pelas analogias até aos detalhes, país de regime despótico da dívida imposta, através do mecanismo da arma absoluta contra a soberania e a democracia, a saber, o euro, o administrador delegado no local e imposto por Angela Merkel, Horst Reichenbach, (oficialmente, chefe “do Grupo de trabalho-Task Force ” na Grécia, mandatado pela Comissão europeia), festejava por exemplo o seu aniversário em Março de 2013 no bairro chique do centro de Atenas em Kolonáki, na presença de numerosos ministros e sob medidas de segurança draconianas (Rádio Real-FM, 07/032013). Outros tempos? O historiador e escritor inglês Mark Mazower, na sua obra “Hitler’s Empire. Nazi Rule in occupied Europe”, (Londres, 2008),, evoca este artigo: “Das Jahr 2000” (o Ano 2000), texto espantoso porque… futurólogo que Joseph Goebbels publicou na revista “DAS Reich”, em 25 de Fevereiro de 1945. No seu último esforço de propaganda, somente duas semanas após a conferência de Yalta, o alto dignatário nazi, estabelecia então a relação entre a Europa do futuro e o nacional-socialismo. “Uma Europa unificada sob a direcção da Alemanha”, e sobretudo “ esta Europa certamente unida no ano 2000, a dos filhos dos nossos filhos, num momento futuro, onde esta guerra seja apenas uma remota lembrança”.

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2015, na Grécia e na Europa

 

Esta obra de Mark Mazower – que eu saiba não foi traduzida em francês – demonstra então quanto a Alemanha dos nazis, e isso, a exemplo dos outros países nos anos 1940, não encarnou a ruptura apresentada, além disso, como radical, nem com o passado… e ainda menos, no que diz respeito a uma certa sequência na história europeia. Para sermos sintéticos, é necessário compreender que o projecto europeísta não nasceu com o nazismo porque o precedeu, e seguidamente… acompanhou-o (mal), para finalmente lhe suceder. É por conseguinte um projecto, iniciado e desejado pelas elites financeiras e industriais da Alemanha, e também pelas elites dos países vizinhos do eurocentro, a França, a Bélgica assim como os Países Baixos nomeadamente. A mundialização acrescentar-se-á mais tardiamente, então. Durante o verão 1940, o ministério da Economia do Reich tinha previsto a criação de uma forma de Paneuropa da economia, baseada, não na integração total dos países, mas antes, tendo a forma da união das economias nacionais por detrás da impulsão dos acordos concluídos, entre os grandes actores do sector privado, sob o olhar dos responsáveis governamentais, tratando-se obviamente da Europa Ocidental. Utilizando as redes e as relações entre os industriais e datando de antes da guerra, o ministério (do Terceiro Reich) financiou encontros, entre estes industriais e financeiros. A ideia central sendo a “americanização” das indústrias periféricas, certos industriais foram então por algum tempo alimentados pelo fantasma de criar um Parlamento europeu industrial, sob o patrocínio da Alemanha.

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O rapto da Europa por Angela Merkel. Imprensa grega, 2015

 

Gustav Schlotterer, o homem a quem Walter Emanuel Funk, ministro da Economia (1938-1945) e presidente do Reichsbank (1939-1945), tinha confiado o processo da nova ordem económica na Europa, encontrou-se com industriais franceses, neerlandeses e belgas no final do verão de 1940, com o objectivo de promover uma colaboração planeada em termos de longo prazo. O industrial e financeiro Belga Paul de Launoit (1891 – 1981), um autêntico eurovisionário, entusiasmou-se: “O Rhur, o Sul dos Países Baixos, a Bélgica, o Luxemburgo e o norte da França, constituem uma entidade económica natural do carvão e do aço. Nós … empresários, (nós) devemos furar as fronteiras entre os estados e assim aprender a colaborar”. Por vezes mesmo, as forças armadas da Alemanha tinham protegido interesses industriais não alemães, contra… as OPA da época, iniciadas pelas firmas alemãs. Entre estas empresas protegidas: Gevaert (Bélgica), Unilever e Philips (Países Baixos), nota Mark Mazower (páginas 267-269 da tradução em grego, do seu livro) Paralelamente, Berlim quis impor o Reichsmark como divisa mais importante na Europa, e obrigou assim os outros países a fazer obrigatoriamente transitar as suas trocas comerciais e sobretudo monetárias e financeiras através da capital da Alemanha, isso, ao mesmo tempo que unificava e uniformizava o sector financeiro do continente europeu (página 270).

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A liberdade é preciso ganhá-la. Atenas, Fevereiro 2015

 

Isto não é o BCE… e no entanto! Em todo o caso, a primazia absoluta da política racista de Hitler hipotecou pesadamente a realização de um tal programa europeísta, durante a guerra em todo caso, ou mesmo, sob a sua variante muito estrita (e no sentido muito restrito ) a variante nacional-socialista. Neste sentido, é historicamente anacrónico e por conseguinte inexacto, caricaturar Wolfgang Schäuble ou Angela Merkel como sendo nazis. Se certas consciências muito colectivas, persistirem então assim nos seus anacronismos, é sobretudo, direi eu, porque o modelo de dominação que lhes é próximo (historicamente e pela representação da memória) é o da Alemanha dos anos 30 e quarenta do ainda curto século XX; este último afirma-se … finalmente bem mais longo que previsto. É também porque a modelização… suficientemente germânica desta última UE não deixa nenhuma dúvida, quanto… à Primavera totalitária já florida do projecto, e isto já não pode continuar a ser ocultado pela propaganda e, ainda menos, pelos eufemismos (“de esquerda” como de direita) do tipo por exemplo: “o défice democrático da UE que vai ser necessário preencher”. Salvo que não se trata exclusivamente das elites alemãs, mas também das elites de França e de outros países do eurocentro, seguidas pelas para-elites periféricas, as de Atenas por exemplo, politicamente procedentes em parte da Colaboração e de que certos grandes actores económicos do tempo tão tragicamente presente… neste “Das Jahr 2015”, são os descendentes dos especuladores, dos traficantes e dos vigaristas do tempo da Ocupação alemã dos anos 1940. É então assim, que uma parte das suas ligações … naturais com os conglomerados industriais e financeiros alemães (e tanto europeístas ), remonta exactamente a este período, (voltarei num outro artigo no que se refere aos … Gregos).

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A Grécia de Alexis Tsípras e da l’UE. Desenho da imprensa, Brasil, Fevereiro 2015

E para voltarmos à história… um pouco mais, Mark Mazower precisa, que quando Rober Schuman iniciou o seu projecto da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA), na origem da actual União europeia, facilitou assim a tarefa aos industriais e aos proprietários das minas de carvão para atravessar as fronteiras e negociarem. Numerosos participantes, tinham participado em negociações análogas dez anos antes, organizadas pelo ministério da Economia do Terceiro Reich, quando se falou da organização de tais cartéis europeus, coordenando potencialmente as suas produções então para alcançar este objectivo. Uma genealogia muito análoga é detectável, nos projectos alimentar e da produção agrícola na Europa, entre uma certa autarcia visada pela Alemanha nazi (mas unicamente para Oeste que continua) e pela Política agrícola comum (PAC). A nova ordem da Alemanha nacional-socialista tinha jogado o seu papel na emergência do europeísmo do pós-guerra. Certamente, os arquitectos do Mercado comum eram inegavelmente Gaulistas, antinazis e antifascistas mais que provados. Contudo, certos personagens-chave, trabalhando para o processo europeísta mas que trabalham nos bastidores, franceses, belgas e sobretudo alemães, tinham servido o nazismo, salvo que deste ficaram desiludidos.

(continua)

Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Europeísmo e nazismo… Das Jahr 2015 I

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