EDITORIAL – ESTÁ BEM DISPOSTO?

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São vulgares os telefonemas oriundos de call centers, telefonemas que têm como objectivo vender qualquer serviço ou produto. É o chamado telemarketing, uma abordagem comercial que sai mais barata do que, por exemplo, a venda porta-a-porta, muito usada na comercialização de enciclopédias, mas também usada na venda de electrodomésticos, produtos de beleza, etc. O sistema é de fácil implementação, os vendedores, pagos à comissão, como os dos outros sistemas citados, têm listas que as empresas lhes fornecem (muitas vezes fornecidas fraudulentamente por empregados de empresas, instituições, agremiações, que têm como dever guardar sigilo sobre os nomes, endereços, números de telefone ou de e-mail). Neste momento, as empresas mais agressivas neste sistema, são as prestadoras de serviços relacionados com a TV por cabo. Oferecem condições excepcionais (pelo menos, aparentemente). Mas o telemarketing é usado também, e há muito mais tempo, num sistema de vendas que só pode caber na designação de «publicidade enganosa» – recebemos um telefonema em que somos convidados a assistir a uma reunião para, por exemplo, conhecermos um colchão ortopédico, recomendado pelos mais reputados médicos da especialidade. Asseguram-nos que não há qualquer compromisso e que, pelo simples facto de assistirmos, receberemos, completamente grátis, um excelente telemóvel como presente. Após a reunião em que o colchão é mostrado e visionadas todas as suas milagrosas virtudes, quem compra, recebe o telemóvel, quem não compra, não tem direito ao presente e só o recebe se fizer um escândalo e ameace com processo jurídico. Como dissemos, neste momento os serviços mais comercializados por este processo, são os relacionados com as telecomunicações e julgamos não entrarem na mesma categoria de «publicidade enganosa», não deixando de constituir uma invasão da privacidade e uma utilização abusiva de endereços que deviam ser mantidos sob sigilo.

Para além destes aspectos, a que a justiça devia estar atenta, há a maneira de uma descontracção mal-educada, com que os telefonemas são feitos. Depois de identificar o interlocutor e de dizer de onde fala, o vendedor, com um à-vontade que só pode ser classificado como imbecil, faz uma pergunta sacramental:

– Então, senhor fulano, está bem-disposto?

Há quem ingenuamente responda que sim ou que não e há quem responda com a pergunta:

– O que tem o senhor a ver com isso?

O sistema está a alastrar. Clubes de futebol põem presidentes, treinadores, jogadores com gravações publicitárias, pedindo aos adeptos que não faltem a determinado jogo. Os partidos políticos parecem não ter ainda adoptado o sistema.

A voz de alguns políticos, incitando-nos a votar neste ou naquele candidato, iria deixar-nos muito mal-dispostos.

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